segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Bíblia que a ditadura levou...

Onde será que está a Bíblia em árabe que pertencia à minha avó Zahia?

Essa é uma pergunta que eu tenho feito.

Lembro-me bem dessa Bíblia que estava lá em casa e foi confiscada em uma das "visitas"à nossa casa, em 64, conforme relatei à jornalista Nara Alves, que escreveu matéria publicada no portal IG:
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-07-20/comissao-da-verdade-pode-ignorar-casos-de-menor-repercussao.html

Concordei em dar a entrevista, não para me fazer de vítima, nem para reivindicar alguma coisa. As marcas deixadas já trabalhei em anos de análise que fiz.

O que me fez dar o depoimento é a Bíblia! A Bíblia que foi levada… a Bíblia que deve  estar em algum porão esquecida…  É uma Bíblia em árabe! Levaram pensando tratar-se de algum livro comunista! De fato: aquele é um livro que fala de socialismo! Não de um socialismo materialista, um socialismo que leva a querer para si! Aquele livro, a Bíblia, fala de socialismo, sim! Fala de justiça e de igualdade! Mas de um socialismo idealista! Um socialismo que leva, por amor ao outro, querer para todos!

Foi na Bíblia, que meu pai, Adelino Cassis, líder sindical, cassado e perseguido pela ditadura, aprendeu com sua mãe Zahia, uma mulher árabe cristã, que veio parar no Brasil, justamente por ser cristã, as bases do socialismo e coerência que pautaram a sua vida!

Aquela Bíblia veio com ela, de navio, no início do século passado! Atravessou mares, trazendo lições de fé, amor e justiça! Mas também, e nisso ela e meu pai eram enfáticos, lições de honestidade!

Meu pai contava que ele queria cursar Direito quando jovem e ela, sua mãe, foi contra. Na sua visão, dizia que "todo advogado mente e crente não pode mentir"!

Meu pai, Adelino Cassis, foi um dos fundadores da CUT no DF e muitos insistiam para que ele entrasse na política. Ele nunca quis. Dizia que esse não era o seu objetivo!

Quando penso na Bíblia que deve estar esquecida em algum lugar desse Planalto Central, lembro que os ensinamentos da Bíblia vem sendo esquecidos por muita gente que chegou ao poder por aqui…

Onde será que foi parar a Bíblia em árabe da minha avó?




segunda-feira, 16 de julho de 2012

O vaso do oleiro

Meu avô materno João era oleiro. De suas mãos calejadas saíram os tijolos artesanais da construção do templo da Igreja Presbiteriana de Catanduva!

Gosto de lembrar disso! Gosto dessa imagem! Gosto de saber que tenho essas raízes! Meu avô João, fazia tijolos, minha avó Maria fazia crochê! Tenho essas raízes na simplicidade do fazer coisas artesanais. Tenho essa raiz no Cristianismo! Pelo lado do meu pai, meus avós chegaram ao Brasil por causa da perseguição ao cristãos! Miguel e Zahia, imigrantes sirio-libaneses! Meu avô Miguel trabalhava com café. Minha avó Zahia cozinhava!

Hoje temos o Zahia Café & Kebab, uma casa abençoada! Um Café com as receitas herdadas, tanto da vó Zahia, como da minha mãe. Uma mistura de cozinha árabe e mineira.

No mesmo prédio, começa a funcionar o Espaço de Cultura, Arte e Espiritualidade, onde fazemos de tudo um pouco: Crochê, com a minha amiga/irmã, Irene, Teatro/Cinema com a nova amiga Sol de Barros e Artes plásticas e Artesanato. Lá, trabalhamos também com argila, resgatando o lado oleiro herdado do meu avô João!

E foi essa a mensagem que me veio essa manhã: a mensagem da botija quebrada (Jeremias 18 e19). Essa é uma figura utilizada para falar àquele povo sobre uma determinada situação. Eu gosto dessa imagem figurativa.

Quando estamos trabalhando com argila, às vezes o trabalho, antes de secar, quebra-se ou não conseguimos fazer do jeito que desejamos. Fica difícil consertar. Você tenta consertar de um jeito ou de outro, mas nunca fica do jeito que você gostaria que ficasse. O melhor é desmanchar tudo, juntar a argila num bolo novamente e começar tudo de novo.

Pode parecer simples quando estamos descrevendo. Mas para quem está trabalhando com a argila nem sempre é fácil. Existe o conflito, pois não queremos nos desapegar daquilo que já estamos construindo. Sempre achamos que ainda daria certo consertar. Mas o remendo vai ficando cada vez pior.

Em outras situações, a melhor solução é realmente aproveitar o material que já estava sendo feito e, a partir daquele objeto, fazer alguma outra coisa. Mas, geralmente, é algo completamente diferente daquele projeto inicial. De qualquer forma, é preciso desapegar-se da idéia inicial.

Esse princípio se aplica em nossa vida pessoal, quer nos relacionamentos, nos negócios, na carreira profissional.

Em qualquer situação, a primeira lição é a necessidade do desapego! É preciso deixar para trás as coisas antigas, os pensamentos antigos, o jeito antigo de ser, para possibilitar um jeito novo de ver novos horizontes. É preciso ter essa coragem, correr esse risco!

Não necessariamente romper os vínculos com pessoas e sociedades, fazer mudanças bruscas na vida. Mas mudar atitudes! Flexibilizar pensamentos. repensar caminhos! Ter coragem para recomeçar!

A principal mudança é interior! O vaso que precisa ser quebrado, moldado, é a nossa própria vida!

É preciso desmanchar, quebrar o vaso do oleiro, para construir um vaso novo, belo e formoso, certamente muito maior e melhor do que o antigo. Certamente esse vaso novo será o melhor para nós, para todos que nos cercam e para sociedade1