quinta-feira, 25 de agosto de 2011

E AÍ ELES SE FORAM...

Não foi repentinamente.... Mesmo quando esperadas, as partidas são sentidas!

É uma dor que dói! Às vezes  um pouco, outras muitíssimo! Mas é como a dor de uma cirurgia, que sabemos ser necessária. É uma dor conformada!

Parece que a dor da perda dói mais quando não se espera. É quando alguém fura a fila de entrada para o céu e se antecipa na ordem cronológica de partidas. Aquele ainda não era o trem em que ele ou ela deveria partir.

Mas as partidas esperadas deveriam deixar um quê de saudade, com misto de conformidade, para guardarmos com os presentes recebidos pela vida inteira. A partida de pais idosos, quando já era chegada a sua hora e vez, é uma dor compartilhada por todos aqueles que também acompanharam o ciclo natural da vida de seus pais. É uma dor invejada por aqueles cujos pais furaram a fila e se foram antes do que se esperava.

A dor da partida precoce deixa um vazio daquilo que poderia ter sido vivido. Um espaço onde poderiam terem sido guardadas as lembranças de momentos que acabaram não sendo vividos. 

Muitas vezes, mesmo a partida de pais idosos, pode deixar um vácuo, onde poderiam terem sido arquivadas as lembranças das reconciliações que, mesmo partidas a termo, as vezes não propiciam. É o caso de pessoas que guardam mágoas e rancores. Pessoas que têm dificuldade de perdoar, de entender, de conversar sobre os sentimentos enquanto é possível fazê-lo. 

Sofrem mais as pessoas que guardam pendências. Fica um sentimento de arrependimento, alem da saudade da distancia e o vazio da presença.

Mas quando se vive a plenitude da vida e dos sentimentos, quando se fala e se demonstra os afetos presentes, para mim, fica uma saudade, mas uma saudade temperada com a paz!

Ficam as lembranças gostosas... Ficam as lições de vida aprendidas! 

Permanecem os valores internalizados.

Guardamos as lembranças  dos momentos eternos!

Enviado via iPad

sábado, 20 de agosto de 2011

JOÃO E MARIA

Esta não é uma estória daquelas que a gente ouve contar nos tempos de criança. Esse João e essa Maria têm uma história, sim. Uma história de verdade, que vale a pena contar...

João era oleiro, fazia tijolos. Tijolos de barro que construía casas, construía igrejas, também. Foram com os tijolos que João fazia que foi construída a Igreja Presbiteriana de Catanduva.

João casou com Maria, na terra onde nasceram, em Itajubá, Minas Gerais. Não sei quantos filhos já eram nascidos, quando mudaram-se para Catanduva, no interior de São Paulo. No início, moravam numa chácara, na periferia, onde João fazia seus tijolos. Essa história eu sei de ouvir minha mãe, Yolanda, contar. Depois mudaram para a cidade, para uma casa que eu conheci, a minha referência de "casa de avós".

Mas tenho boas lembranças dos meus avós, apesar da pouca convivência, limitada aos dias de férias, quando viajávamos para lá. Lembro do meu avô João, sentado na cadeira de ripas de madeira e encosto alto, no alpendre de muretas baixas na casa de esquina em Catanduva. Era na rua do cemitério, cujo nome não sei.
Meu avô ficava lá, quieto, calado, vendo as pessoas passarem, cumprimentando quem falava com ele. Ficava ali, quieto, parado, mas eu percebia, e tenho certeza, que ele gostava da presença dos netos ao seu redor. Quando eu menos esperava, ele falava alguma brincadeira, para demonstrar seu carinho por nós.

A vó Maria, quando não estava na cozinha fazendo coisas maravilhosas (até hoje lembro da rosca) também ficava no alpendre, sentada na outra cadeira, a que ficava perto da grande porta bem alta e azul, de madeira antiga. Mas ela não perdia tempo. Estava sempre fazendo o seu exímio croche. Suas mãos ágeis pareciam dançar, trançando a linha bem fina. Os dedos eram como pernas de uma bailarina dançando e puxando os fios, entrelaçando nós e tecendo, além das lindas toalhinhas, blusas e colchas, as vidas das pessoas, a vida de seus filhos e netos. Formavam ali, aquele casal, que enlaçaram suas vidas, uma família, uma geração!

Já faz tempo que eles se foram... Agora quase todos os filhos também estão com eles zelando por nós, lá do céu. Com a tecnologia, começamos, nós, os seus netos e bisnetos, a nos reunir. Tem gente em Catanduva, São José do Rio Preto, São Paulo, Curitiba, Campo Grande, Brasília, Rio de Janeiro, Tocantins e até nos Estados Unidos, e acho que em Londrina também...

Mas de longe também se ama, e agora podemos nos reunir, mesmo que virtualmente, para resgatar nossos laços familiares, resgatar nossa tradição. Juntar um pouco da história que cada um conhece para contar para nossos filhos, netos e bisnetos...

A verdadeira história de João e Maria!

Uma homenagem aos meus avós, João Ramos da Silva e Maria Ignácia Grilo, que viveram a maior parte de suas vidas em Catanduva, no interior de São Paulo. Recentemente, vários primos estão se encontrando através do Facebook. Publico essa crônica para celebrar esse encontro virtual familiar.


Enviado via iPad

DURALEQUES SE DE LEQUES

DURALEQUES SE DE LEQUES
A frase foi escrita, assim mesmo, nas colunas de concreto da Câmara dos Deputados, à época de sua construção, em 1959. Assim diz a notícia! Foi escrita por um dos operários, um "candango"!

Lembrei do meu tempo de criança. A frase em latim, "dura lex, sed lex", significa: a lei é dura, mas é lei! Mas nós, levados pela propaganda da época, brincávamos com a rima: "dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex".

Nada mais oportuno nestes tempos, este achado! A frase estava lá, escondida, mas na base de sustentação do Congresso Nacional. As palavras estavam esquecidas, mas na semana passada foram encontradas! Parece um tesouro escondido que é encontrado no momento em que mais se necessita dele.

Nestes tempos em que práticas escusas, que parecem até já se tornarem habituais, vêm a tona, nada mais oportuno este achado! É preciso sempre lembrar: a lei é dura, cuidado com ela! Mais cedo ou mais tarde o que está escondido será achado. A verdade será revelada! E aí, a esperança de todos nós cidadãos honestos, é de que o mal não ficará impune. A lei é dura! Mas é lei!

Sábias palavras daquele operário, talvez pouco letrado pela forma como escreveu... Enganam-se aqueles que pensam que por não escrever corretamente o latim, aquele operário seria um "analfabeto funcional" como se diz hoje em dia. Aquele candango sabia muito bem o significado da expressão e tinha plena consciencia e esperança de que aquelas colunas de concreto sustentariam não só um prédio, mas a soberania de um povo ali representado.

Hoje vivemos um tempo em que vemos desmoronar-se as colunas da moralidade esperada de nossos representantes. Moralidade virou exceção na política.

Analfabeto funcional é quem pensa que "dura lex, sed lex" é apenas rima para gumex...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

IRONICAMENTE FALANDO...

Ironicamente falando...
Essa frase foi dita pelo meu pai, nos seus últimos dias de vida, internado numa UTI. Foi dita diante da afirmação dos profissionais que o acompanhavam, de que ele estava "bem".Ele, que parecia meio sonolento, abriu os olhos e disse, claramente: "ironicamente falando"...
Ao mesmo tempo que criticava a fala ironica da equipe médica, o fazia de maneira ironica.
Esse é um dos problemas que nossos idosos têm enfrentado no final de vida. A medicina consegue, sim, prolongar a vida, com toda a tecnologia existente hoje, mas não consegue, na maioria das vezes, proporcionar qualidade. E assim é que, com tristeza, acompanhamos os últimos dias de nossos queridos idosos em UTIs, entubados, cheios de agulhas espetadas em seus corpos, muitas vezes com traqueostomia, sem ao menos poder falar, sem poder dizer as últimas palavras que desejaria para os seus entes queridos.
A família fica, sem saber o que está acontecendo. O que significa "estar bem", se ele, aos quase noventa anos, encontrava-se internado numa UTI de hospital?Ironicamente falando, talvez seja porque está mais próximo dos céus...
Também em outros setores da vida, afirmaçoes são relativas e confundem os leigos. O que é bom ou ruim para a nossa economia? O dolar subir ou abaixar? As ações estarem em alta ou em baixa? Tudo é relativo!
Esses são os dois lados da moeda. A vida é como uma gangorra, há momentos em que estamos lá em cima, outras vezes estamos lá embaixo. Sofre quem não entende isso. Sofre quem não percebe que há momentos de alegrias e momentos de tristeza.
Tudo tem o seu tempo nesta vida, como dizia Salomáo. "Há tempo de espalhar pedras e tempo de juntá-las. Há tempo de sorrir e tempo de chorar... Há tempo de guerra e tempos de paz!"
Ironicamente falado.... Em que tempo estamos hoje?

Enviado via iPad

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ADELINO CASSIS, O FILHO DE ZAHIA

Todas as manhãs de domingo, Zahia, imigrante libanesa, acordava cedo, enrolava os charutos para o almoço, deixava a panela cozinhando no fogão a lenha e saía escondida do marido para ir à igreja com seus dois filhos mais novos: Adelino e Julieta.

Foi com sua mãe, Zahia, que Adelino Cassis aprendeu, desde pequeno, que é lícito quebrar algumas regras por uma causa maior, por uma causa de Deus!

Foi assim que, na liderança sindical, colocava Araldite nas fechaduras das agencias bancárias, para impedir que as portas se abrissem em dia de greve. Foi assim que questionou a própria Igreja, pelo seu silêncio diante de injustiças sociais. Foi assim a vida toda. Não se intimidava com limites impostos pelos homens, na certeza íntima de seus propósitos nobres.

Foi um amor muito maior do que o amor por pessoas, mas um Amor pelo coletivo, pela humanidade, que levou Adelino Cassis a priorizar em sua vida a luta social, a luta pelos direitos igualitários.


Sempre foi um homem honrado e batalhador! Militante, lutou pelos direitos dos trabalhadores e aposentados. Foi um dos fundadores e primeiro presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília.

Em 64 foi perseguido, teve seus direitos cassados e foi demitido sumariamente do Banco do Brasil.

Depois de anos, anistiado, continuou a militância. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação dos Aposentados de Brasília e um dos fundadores também da Central Única dos Trabalhadores. É cidadão honorário de Brasília!

Como sua filha, por muitos anos ressenti-me de sua ausência na família, até entender os seus porquês. Ainda que meio ausente de casa, demonstrava afeto de uma forma meiga e sutil, através de pequenos atos e palavras, como uma das suas últimas cenas de carinho para com a esposa Yolanda. Já aos 87 anos, em sua caminhada habitual com a cuidadora, rouba uma rosa do jardim para presentear a esposa. No caminho, repetia: "Ela vai se surpreender..."

Com seu jeito árabe de ser, de "sangue quente", indignava-se com injustiças, falsidades e hipocrisias. Falava o que pensava, "doa a quem doer"... Criou inimigos, sim! Não se importava com o que pensassem. Sempre teve como meta o bem maior. Sempre priorizou o coletivo.

Dessa forma, teve uma trajetória independente. Permanecia filiado a alguma instituição, igreja ou partido, apenas enquanto a percebia coerente. Mas dela se afastava quando, em sua visão, aquele grupo se desviava de seus propósitos.

Esteve lúcido até o final de sua vida. Passava os dias em frente à TV acompanhando as notícias, pronto a comentá-las quando chegávamos para visitá-lo. Acompanhou as mudanças, mesmo já ausente do cenário do movimento de classes.

Nunca quis candidatar-se a cargo público. Reafirmava sempre que era um líder sindical e criticava duramente as pessoas que, em sua visão, amam o poder ao invés de amar a causa. E ele sabia distinguir um e outro!

Mesmo tendo sido perseguido duramente pela ditadura, mesmo sendo criticado por muitos, mesmo tendo sido esquecido por alguns, mesmo tendo se sentido traído por outros, reafirmava até o fim da sua vida:

"EU FARIA TUDO OUTRA VEZ"!

Minha homenagem póstuma ao meu pai, ADELINO CASSIS (23.09.1922 - 31.07.2011)