sábado, 27 de novembro de 2010

A FRANCISCANA

Na fila do banheiro no aeroporto, à minha frente, estava uma freira.

Eu, mesmo não sendo católica, achei que aquela seria uma freira da Ordem Franciscana. Eu já vira as fotos do santo que deu origem à ordem.

Nos pés, calçava sandálias. As dela não eram daquelas, modelo da marca Franciscano. Aquela moça, vestida com um hábito marrom, um grosso cordão na cintura, com a cabeça coberta por um pesado véu da mesma cor, não calçava sandálias franciscanas. Tinha nos pés as legitimas sandálias Havaianas.

Talvez São Francisco, pensei, se vivesse hoje, também escolheria as havaianas.

Aquela moça, a freira franciscana, levava somente uma mochila. Uma mochila simples, de tecido, artesanal.

Eu, que viajava para um fim de semana prolongado na praia, havia planejado cuidadosamente a minha bagagem. Queria levar o mínimo possível, para não ter trabalho.

Já houve um tempo em que eu, mesmo para descansar, levava tanta coisa que, afinal, tinha um trabalhão para arrumar, desarrumar a mala, para despachá-la, esperar na esteira que, enfim, a viagem de descanso me cansava. Geralmente eu não usava nem um terço das roupas que levava.

Na fila do banheiro fiquei pensando na mochila da freira. Ah... Se eu tivesse olhos de raio-X, ou se ao menos pudesse dar uma espiada quando sua mochila passasse pela esteira na entrada da sala de embarque... O que será que ela levava?

Talvez uma ou duas mudas de roupa de baixo, produtos de higiene, talvez um sabonete, um  xampu. Nem sei se a Ordem ou sua falta de vaidade lhe permitiria usar um condicionador, leave-in e tantos outros produtos que não sei como seria a minha vida sem eles.

Mas ela levava uma vantagem em relação a mim: com a cabeça coberta e o cabelo preso, tudo fica mais simples. Às vezes acho que o costume das mulheres muçulmanas de também cobrirem a cabeça facilita a vida de quem, como eu que sou de origem árabe, tem os cabelos cacheados e rebeldes.

Continuei viajando pelos meus pensamentos e fantasias a respeito da mochila da freira franciscana. Talvez ela levasse um creme hidratante, já que o clima de Brasília às vezes é tão seco... Perfume, jamais! Nem batom, nem ao menos um lápis de olho. Não consigo sair de casa sem ter brincos na orelha, um lápis nos olhos e ao menos um batom nos lábios e na bolsa.

Voltei à mochila da freira. Certamente levava um terço para rezar, uma Bíblia. Talvez um caderno de anotações e algum outro livro de preces e meditação.

Comparei a mochila, que eu imaginava, da freira com a minha própria bagagem, que eu levava à mão. Comecei a achar, ao contrário do dia anterior, que eu estava levando coisas demais...

Uma das queixas mais comuns que chegam à clínica psicológica é o cansaço da vida que se leva. É o questionamento de tudo que se faz para manter um padrão de vida que às vezes nem é tão alto, mas é exigido pela sociedade em que se está inserido.

O ciclo vicioso começa pela necessidade de ter muitas coisas. É preciso vestir-se bem. Não só isso, há o apelo para a moda e os modelos de marca. É preciso acompanhar a tecnologia,  as tendências de decoração, ter um carro que demonstre o seu padrão econômico.

Para ter muitas coisas é preciso lugar para guardar. E aí precisa de espaço para armários e, naturalmente uma moradia maior... A bola de neve vai aumentando e quando a pessoa e a família percebem, estão com a renda futura comprometida, o que geram dívidas, juros altos e... muitos sabem do que estou dizendo. Já não se dorme mais, ou se procura trabalhar muito mais, quando não se cai na tentação de pequenos, no início, deslizes para aumentar a renda.

Chama à atenção a simplicidade franciscana. A simplicidade que o santo aprendeu nas Escrituras e com a natureza. A simplicidade de Cristo que dizia, sabiamente: "porque estais cansados e sobrecarregados? Aprendei comigo, que sou manso e humilde".

Aí está o segredo da tranquilidade e do descanso: a simplicidade, a humildade! Quando queremos parecer mais do que somos, quando queremos parecer mais do que o outro, quando queremos parecer que somos pessoas diferenciadas, especiais, não pelo que somos, mas pelo que temos, invertemos os valores naturais.

O paradigma vigente em nossa sociedade pós-moderna é: é preciso FAZER, para TER, para SER. Ou seja: eu preciso trabalhar muito, mesmo que seja traindo a minha vocação, para ter muitas coisas e aí então serei alguém, serei respeitado etc.

O novo paradigma que desponta neste novo século é: eu preciso SER, para FAZER, para TER. Essa atitude nos leva a buscar as coisas essenciais, a estar mais próximo da nossa verdadeira vocação, do nosso mais íntimo ser. Consequentemente, fazendo melhor, de forma mais eficaz, receberemos melhor paga pelo nosso trabalho e, consequentemente, poderemos usufruir, de forma digna, ética e moderada, do que o dinheiro pode comprar.

Mas, muito mais ainda: teremos tranquilidade, descanso, mesmo que se trabalhe muito. Teremos satisfação plena, sem precisar buscar nos apelos da moda, a satisfação que ela nunca poderá nos dar!

Acho que, se eu fosse freira, ia querer ser franciscana...

domingo, 21 de novembro de 2010

CORA CORALINA, UMA MULHER QUE TRAIU A TRADIÇÃO


Escrevo estas linhas, em minha visita à cidade de Goiás, a cidade de Cora Coralina.

Aninha, seu nome de família, nasceu no século XIX, numa casa à beira do Rio Vermelho. Desde menina, escrevia. Cursou apenas três anos da escola primária, e muitos anos na escola da vida.

Ana, como todas as mulheres daquele tempo de antigamente, não escolhia muito se haveria ou não de casar. Era o costume seguir a vontade dos pais. No caso dela, que perdeu o pai quando  ainda era bebê, não sei como foi. Talvez o fato possa  ter sido bom para que ela fosse o que foi.

Ela escreve que não se achava bonita. Mas até que, lá pelos seus vinte anos, foi viver em São Paulo, com um advogado que, por ser separado, não podia se casar. Só se casaram bem mais tarde, quando ele ficou viúvo e já tinham alguns filhos.

Ana, que já gostava de ler e escrever, saiu de sua terra, traiu suas tradições. Onde já se viu uma moça daquele tempo e daquela terra, ir morar com um homem sem ter se casado...

Em São Paulo, foi guerreira, participou de movimentos... isso ninguém  diz. Antes de vir até aqui conhecer Cora Coralina, achava que ela era uma mulher da terra, simples, de chinelo no pé e avental, que vivia só para os seus doces e, por uma inspiração divina, escrevia seus versos...

Nada disso, Cora lia muitos livros e incentivava a ler.“O melhor roteiro é sempre ler e assimilar o que se lê. Ler para aprender, procurar vencer. Ninguém escreve bem sem ler muito e assimilar ao máximo. Então eu digo: a gente deve ler, reler, transler. Ser dono dele. Não precisa abrir o livro no começo. Abre ao acaso e só fecha quando cansou, quando já não tem mais tempo. Ponha sempre perto de sua cama ao alcance de suas mãos, ao alcance de seu tempo.” (Cora Coralina)

Ana achou que o seu nome era muito comprido e muito comum.” Existem muitas Anas”. Escolheu um nome para si. Um nome  diferente de seu nome de batismo. Um nome que não levava o seu nome de família. Um nome que rima e tem ritmo, um nome que soa como poesia: Cora Coralina!

Em São Paulo ficou viúva. Com tanto filho para criar, Cora foi à luta. Mudou-se para Penápolis e depois Andradina, no interior de São Paulo. Isso eu não sabia e ninguém me contou... ela esteve por lá, na minha terra paulista, quando eu ainda era bebê. Teve comércio, comprou umas terras. Foi candidata a vereadora. Êta!!! Que mulher forte! Que mulher de fibra, que sabia o que queria! Nesses anos  todos, escrevia seus artigos e poesias, enviava para os jornais.

Lá pelas tantas de sua vida, ela, que traiu o seu nome e sua tradição, sentiu saudades do seu tempo de menina. Lembrou da casa na beira do rio, lembrou de sua gente, de sua tradição. E foi aí que voltou. A casa da família já estava velha, seu teto quase caia, suas paredes ruíam.

Depois da reforma  da sua casa interior, ela reformou a casa de tijolos. Ela voltou a morar na casa onde nascera.

Muitas mulheres seguem os padrões estabelecidos pela família, pela sociedade. São obedientes ao que esperam de si. São obedientes às expectativas da família, do marido, dos filhos. São mulheres que não traem os desejos e expectativas do outro. Mas traem os seus próprios desejos. São traidoras de sua própria alma, de sua vocação, de seu mais íntimo ser.

Cora Coralina, prefiro chamá-la como ela se batizou, saiu de sua casa, de sua terra, de sua gente. Precisou trair a tradição Precisou trair sua família! Cora Coralina pode ter traído a todos, mas não traiu a si mesma!

Só depois de se encontrar, é que pôde resgatar a sua tradição. Depois de ter traído a tradição, de ter tomado distância dos hábitos e costumes de uma terra em que mulher não podia ser nada além de ser esposa, dona de casa e mãe,  só então podia voltar e resgatar a sua tradição!

A  tradição de mulher que gostava de fazer doces.  Da mulher que gostava de fazer as coisas de mulher.
Da mulher simples do interior!

Da mulher que fazia doces fazendo poesia e fazia poesia que adoçava o coração!

VISITANDO GOIÁS!


E ai eu fui visitar  "o Goiás"!

Goiás Velho, como ainda se chama. A antiga capital de Goiás!

Tão pertinho de Brasília... Porque não ir até lá?

Pego um ônibus até Goiânia, de lá, outro para Goiás! Viajei quase um dia... Ainda perco o medo de dirigir em estradas...

Chegando aqui, surpresas!!! Que cidade linda e charmosa! Casas antigas, ruas de pedra, um rio cortando a cidade! Tem muita igreja e árvores. Tem cheiro de mato! Tem gosto de gente!

Agora entendo porque, depois de tantos anos, a Aninha voltou!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VIAJANDO SÓ!

E dá mesmo para viajar sozinha? Essa foi a pergunta que me fez a Tininha, minha amiga de infância, após ler a minha última crônica. Há alguns meses ela havia me convidado para viajarmos juntas, já que tiraria férias e o marido não poderia acompanhá-la.

Como ela, muitas mulheres sentem às vezes a necessidade e/ou o desejo de viajarem, mas acabam desistindo, pela dificuldade de viajarem só. Sempre buscam algum lugar onde se visite um amigo ou parente, pela preocupação de viajar sem companhia.

Outro dia, navegando pela internet em sites de viagens, encontrei um artigo com dicas para mulheres que desejem viajar sozinhas. Há países de tradição árabe, por exemplo, onde não é aconselhado ir sozinha, desacompanhada. Mas, no restante do mundo, é possível, sim, viajar só.

Fazia tempo que eu não viajava só. Mas outro dia, no Rio de Janeiro, encontrei a minha amiga Solange, que me acolheu em seu bem decorado apartamento de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Solange não fica em casa por falta de companhia. Depois de sua última viagem para a paradisíaca praia de Jericoacoara passou a usar uma correntinha de prata com um lindo chinelinho como pingente. "É para eu sempre me lembrar que existe esse universo paralelo". Gostei da expressão! 

Gosto dessa forma de ver a vida. Vivemos entre tantas obrigações de trabalho, e tantas demandas que a vida pós-moderna oferece-nos por um alto preço, que muitas vezes nos esquecemos que podemos nos refugiar em outras paragens fora e dentro da gente.

Para quem vê de fora, o estilo de vida, hoje denominado de "single", pode parecer solidão ou individualismo.

Muitas pessoas vivem sós por opção ou por falta de opção. Mas isso não significa e nem, necessariamente, que sejam pessoas solitárias. Muitas vezes, pessoas casadas ou que moram com outras, sentem-se solitárias.

Há uma diferença entre estar só e ser solitário. Há diferença entre ser individualista e uma pessoa em processo de individuação.

A pessoa que vive só pode, ou não, ser solitária. Sem querer fazer apologia a este ou aquele modo de viver, já que não existe modo melhor ou mais certo de viver, gosto de lembrar sempre que solidão é um estado de espírito. É solitário quem não sabe se relacionar, quem não consegue estabelecer vínculos verdadeiros, amizades sinceras e profundas. Viver só não tem nada a ver com ser solitário!

Também em relação a ser individualista. Há pessoas que, mesmo estando com outras, só pensam em si mesmas. Elas é que precisam ser priorizadas, no seu modo de ver e entender as situações. A palavra e opinião do outro não são consideradas, por essas pessoas individualistas. Numa atitude egoísta, elas pensam somente em si e não conseguem perceber nem se sensibilizar com as necessidades do outro.

Invariavelmente, são essas pessoas individualistas, egoístas, que, mesmo vivendo acompanhadas por outras, muitas vezes, sentem-se solitárias. As outras pessoas convivem com elas pelas circunstâncias, mas nem sempre por opção.

Já as pessoas em processo de individuação, são diferentes. Para a psicologia analítica, o processo de individuação leva a pessoa a se tornar cada vez mais ela mesma. Cada vez mais quem ela realmente é. 

A educação formal e familiar, nem sempre permite a livre expressão da pessoa em sua plenitude. A sociedade em geral apresenta expectativas que são endossadas e reforçadas pela família no processo educacional.

Preocupados com o futuro dos filhos, os pais, muitas vezes, direcionam, influenciam suas escolhas, que, nem sempre, seriam as escolhas mais adequadas à sua personalidade, a quem aquela criança realmente é e ao adulto que ela deveria vir a ser. Nesse processo, a vocação, não somente a profissional, mas a vocação de vida, a finalidade última de sua existência, é abafada, é atropelada, é desconsiderada.

Com o tempo, esse processo vai moldando o futuro adulto, que se conforma e acomoda, desviando-se aos poucos do seu verdadeiro caminho, de sua verdadeira vocação.

Muitos só conseguem retornar ao seu próprio caminho, ao seu próprio ser, na maturidade, quando se acelera o processo de individuação. Voltando-se para si mesmo, ouvindo seu coração, sua alma, permanecendo cada vez mais presente junto a si, junto à sua centelha divina, buscando o caminho da espiritualidade verdadeira, a re-ligação com o Ser, dessa forma, tornamo-nos cada vez mais quem realmente somos. Cada vez mais, atores de nosso próprio destino. 

Cada vez mais, realizadores de nossa vocação, cada vez mais cumprindo nossa missão perante Deus e o mundo!

sábado, 13 de novembro de 2010

POR VERDES MARES...

Enquanto o catamarã se afastava da costa da cidade de Salvador rumo a Morro de São Paulo, alguns passageiros disputavam um lugar na popa para fotografar e filmar a bela paisagem.

Foi naquele momento em que eu me lembrei que não havia levado a minha câmera digital. 

Eu havia escolhido um lugar  para admirar a bela paisagem. Eu viajava só! Eu queria estar só! 

Estar só para muitos é um desafio. Conheço pessoas que não viajam por falta de companhia. Não sabem o quanto estão perdendo.

Viajar só é, muitas vezes, viajar acompanhado de todo o mundo. Viajando só, viajamos para lugares desconhecidos fora e dentro da gente. Viajar só é uma oportunidade para refletir sobre si mesmo.

A nau rasgava as águas do mar, que sangravam em brancas ondas espumantes. Eu viajava pelo mar e pelos meus pensamentos.  Por alguns instantes, senti pena de ter esquecido a máquina. Lembrei então que eu tinha outra forma de registrar aquele momento. Podemos fotografar com a nossa alma!

Concentrei-me naquele momento mágico, único. Reparei em todos os detalhes. Senti a brisa batendo no meu rosto, esvoaçando meus cabelos. Senti o cheiro do mar. Ouvi o canto do vento, senti o calor do sol. 

Uma onda de alegria tomou conta do meu coração. Fiquei feliz por não ter levado a máquina. Certamente eu, preocupada em registrar tudo, não poderia observar todos aqueles detalhes, todas aquelas sensações. Máquina digital pode registrar imagem. Essas modernas podem filmar também. É a imagem em movimento! O som também pode ser gravado... Mas ainda não foi inventada a máquina que grava as sensações, a máquina que grava as emoções. Essas, só podem ser arquivadas em nossa lembrança!

Há pessoas que, além de não saberem fotografar com a alma, não sabem arquivar suas lembranças.  Muitos nem arquivam, vão entulhando suas gavetas, com as lembranças boas e ruins. As experiências tristes, negativas, vêm sempre à tona, sem que se procure, e as experiências felizes, as que alimentam a nossa alma, ficam escondidas, e as pessoas até se esquecem que elas existem.

Eu, como já fui secretária, entendo bem de arquivos e registros. Tenho uma pasta especial para arquivar as lembranças que me fazem bem. Essas eu gosto de deixar bem à mão, para acessá-las a todo o momento. Dessa forma, a viagem que durou apenas um final de semana, se faz ainda bem presente. Gosto de lembrar aquelas cenas. Gosto de contemplá-las outra vez.

Tem gente que viaja, só para dizer que viajou, para ter fotos para mostrar, para ter assunto para conversar. Hoje em dia, quem não viaja, nem que seja navegando pela internet, acaba se sentindo um peixe fora d'água. Todo mundo viaja ou já viajou. Nem que seja viajar pelos seus pensamentos, ou até mesmo “viajar pela maionese”, escorregando para fora da realidade.

Mas, a maioria das pessoas, ao viajar, se preocupa com tantas coisas, que se esquece de viajar. Não, não estou falando de perder o voo. Estou falando de não estar presente em cada momento da viagem!

Tem gente que viaja para outra cidade ou para outro país, só de corpo, porque a alma e o pensamento viajam para outro lugar. E de porto em porto, de estação em estação, de aeroporto em aeroporto, vão deixando seus fragmentos espalhados pelo mundo. 

Mas tem gente que, sem viajar para outros destinos, está sempre viajando para dentro de si.

A melhor viagem que se pode e deve fazer, é viajar para conhecer a nossa alma, o nosso íntimo ser. É viajar para conhecer a nossa caverna, os nossos castelos, mergulhar em nossos mares, trazendo à tona, um a um, cada fragmento de nosso barco que naufragou.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

GENTE DA TERRA, GENTE DO MAR



Eu já estava caminhando há mais de uma hora. A praia era linda e, àquela hora, deserta. Acordara cedo, o dia já clareara, o sol já aquecia e bronzeava a minha pele, clara e sensível pelo longo tempo sem tomar sol.

Fazia muito tempo que eu não visitava uma praia tão gostosa! O mar era calmo! A areia grossa permitia ao mar apresentar-se límpido e transparente aos nossos pés e infinitamente azul ao horizonte. Permitia que, nas piscinas formadas pelos corais, visualizássemos, sem mergulho, lindos peixes coloridos que nos saudavam em cardumes à espera de alimento.

Eu estava em Morro de São Paulo, uma praia ilhada na Bahia, pertinho de Salvador. O lugar ainda é agreste, ainda há praias desertas, quase virgens.

Naquele trecho, final da quarta praia, eu já avistava o meu objetivo. Queria chegar até a quinta praia, da qual haviam me falado.

Naquelas paragens sutis, avistei ao longe uma mulher que se ocupava em arrumar o seu espaço. Mais do que um espaço comercial para vender as iguarias da terra, pareceu-me um espaço de uma casa ao ar livre, que se prepara para uma festa. Uma festa para receber seus convidados mais queridos.

As mesas de plástico eram colocadas cuidadosamente e cobertas, de uma forma como eu nunca havia visto ou percebido na praia, com toalhas coloridas. Os postes da cerca eram vestidos com vistosas cangas. Ao me aproximar, reparei que as toalhas eram de chita. Um chitão florido e bonito, meio desbotado de tantas lavadas, sem bainhas, parecendo improvisadas.

Fiquei impressionada com a estratégia: apesar do vento, as toalhas permaneciam nas mesas, seguras pelas cadeiras recostadas.

Ao me aproximar, a mulher, morena de sol, que aparentava uns trinta e poucos anos, cumprimentou-me e ofereceu-me uma água de coco.

Era tudo o que eu precisava e queria naquele momento, após a longa e solitária caminhada. Um lugar para sentar, uma água de coco para saciar a minha sede, uma pessoa para conversar!

Aceito o convite, ela sumiu entre a vegetação à beira da areia da praia, voltando logo em seguida com o coco mais gelado que eu já tomara naqueles dias. O coco verde, furado, com o tradicional canudinho. Mas, para a minha surpresa, originalmente servido em uma tigela de barro, perfeitamente ajustável ao fruto.

Elogiei a forma de servir o coco. Sinalizei o capricho simples das mesas cobertas de chita.

Teresa é baiana, fiquei sabendo. Morara em Salvador e tinha uma sapataria. Negócios da família. Cansada da vida difícil de pequena empresária, que luta para sobreviver em meio a tantos impostos que se tem a pagar, resolveu ir morar na ilha. O terreno, naquele lugar paradisíaco, era herança do avô.

Com o marido e o filho, resolveu iniciar um novo negócio. À beira da praia, mas do que vender coco e quitutes, receber pessoas, acolher. Contou-me que está construindo uma pousada.

A história da Teresa, me lembrou uma outra personagem que cruzou a minha vida. Há muitos anos, quando visitei Pirenópolis pela primeira vez, conheci uma mulher. Era médica e optara em viver na pequena cidade que, à época, ainda não era tão badalada. Ao meu comentário sobre a sua coragem, ela respondeu: - corajosos são vocês que conseguem morar na cidade grande!

Parece que esse sonho de morar em cidade pequena, cidade de praia ou de interior, parece um sonho que toda gente tem lá no fundo de sua alma. Somos um povo do mato. Temos sangue de índio. Temos sangue de negro. Temos sangue de gente da terra. De gente que planta, que colhe, que caça e que pesca para ter o que comer e viver.

Quem mora na beira da praia, só passa fome se for preguiçoso. Tem água de coco para beber, tem peixe para comer. O que quiser vender, tem turista que compre. Teresa me falava: “quem quiser, faz uma receita de brigadeiro, sai na praia vendendo a dois reais cada um. Não tem para quem queira, vende tudo!”

Essa gente, que vive da terra, que vive da praia, que vive do mar, confesso que me dá inveja!

Parece que se contentam com a natureza que Deus dá. Não tem fome de ostentar, não tem fome de ter, não tem fome de mostrar para o outro que tem o que o outro não tem. Não tem fome de comprar tudo que o cartão financia, mas não pode pagar. Não tem fome de vestir o que a moda mandar. Não tem fome de ter o carro último tipo, e o último modelo de celular. Não tem fome de assistir a novidade do cinema nem de ir ao show mais badalado. Não tem fome de saber o que se passa no mundo, na política e no futebol. Não tem fome de comprar mais sapatos que seus pés. Não tem fome de comprar roupas que nunca vai usar.

Não tem fome de conhecer o mundo dos outros. Já que possuem o mundo inteiro, pois têm o infinito do mar diante de si!

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

SAUDADES....

O dia amanheceu nublado! Um feriado diferente. Um feriado em que nada se comemora. Mas um dia de se recolher, de meditar, de refletir!

Não um dia para apenas chorar pelos nossos mortos, mas um dia para relembrar a sua vida! Um dia para refletir sobre a nossa própria vida!

As minhas primeiras lembranças e contato com a morte, remetem-me à casa dos meus avós, em Catanduva, no interior do estado de São Paulo. Eles moravam numa casa de esquina, na rua do cemitério. Na rua em que passava o cortejo fúnebre. Na rua em que passava o caixão e todos os familiares e amigos acompanhavam a pé.

Não sei se lá ainda acontece assim, mas no meu tempo de criança, quando eu  passava as férias por lá, lembro que o costume era velar os mortos em sua própria casa. Vizinhos, parentes e amigos, todos passavam a última noite velando o morto.

O verbo velar tem dois sentidos. Um, originário de véu: colocar véu, encobrir. Existem fatos velados, por exemplo. Algo que se tenta encobrir, mas que transparece, pois é "coberto por um véu". Assim como o rosto das mulheres de antigamente, assim como a sensualidade da lingerie, que mostra escondendo, esconde mostrando.

Velar, também significa passar a noite acordado. Nesse caso, tem a ver com vela, pois antigamente,  para passar a noite em claro, usavam-se velas ou outras luzes naturais, como lamparina ou lampião. Tudo que pudesse manter acesa uma chama de fogo.

Tanto o véu, como a vela, são símbolos usados nos velórios. No caixão é usado o tule. O corpo é maquiado, é enfeitado, para que morto tenha a melhor aparência possível. Queremos nos despedir de nossos entes queridos, com a lembrança de sua feição como se estivessem dormindo.

A vela, nos velórios e nos atos fúnebres, também é simbolicamente utilizada para iluminar o caminho do morto, para dar luz, dar vida. A vela possibilita manter acesa uma pequena chama de fogo. O fogo que queima, que purifica. O fogo que transforma!

Outro símbolo também utilizado nos atos fúnebres e nos rituais de lembrança dos mortos, são as flores.

A coroa de flores, nos enterros, singelas flores atiradas na cova, vasos de delicadas flores para enfeitar os túmulos.

Hoje fiz a minha primeira visita de "dia de finados" ao tumulo de minha mãe. A sua partida foi recente e ainda dói um pouco, a saudade.

Fui visitar o seu túmulo. Um ritual solitário. Uma caminhada silenciosa até o local, refletindo sobre a sua vida, sobre o legado que ela nos deixou. Algumas pessoas, ao me consolarem pela sua morte, me diziam que "sempre fica um vazio, fica um buraco dentro da gente".

Confesso que até agora ainda não senti esse vazio, nem esse "buraco" dentro de mim. Apesar da dor de sua partida e da saudade que fica, parece-me que ela está ainda muito presente.

Minha mãe se faz presente pela lembrança de seu carinho. Pelas coisas que me ensinou. Pela tradição que transmitiu. Sempre que cozinho me lembro dela. Foi com ela que aprendi a cozinhar. Lembro como me ensinava o ponto de dourar a cebola para temperar a lentilha. Lembro de como, antes de existir o processador moderno, ela moia a carne e passava o quibe na maquina manual. Lembro dela abrindo a massa para fazer pizza ou esfiha. Lembro dela sentada enrolando quibes ou charutos de repolho.

Hoje, visitando o seu tumulo, chorei a sua ausência, lembrei do seu carinho. Olhando as flores que eu levara e tantas outras de tantas outras pessoas que levavam para seus tantos outros mortos, olhando essas flores eu entendi o porquê das flores para os mortos.

As flores abrem seus botões no tempo certo. Nos alegram com sua sublime beleza. Exalam o seu perfume. Mas há o tempo de florescer e o tempo de morrer. Um dia a flor murcha! Um dia a flor se vai.

Assim como as flores, nossas vidas aqui na Terra são finitas. Temos os tempo de nos abrir para a vida. Temos o tempo de alegrar as pessoas, temos o tempo de exalar nosso perfume.

Mas há o dia em que também nos transformaremos. Há o dia em que é preciso deixar morrer o corpo para transceder.

E nessa hora, deixaremos só a lembrança!

Deixaremos a marca de nossa vida!

Deixaremos a marca do nosso perfume!

Deixaremos a marca de nosso amor!