domingo, 5 de setembro de 2010

VOTE NO "CÃO DIDATA"

Esta crônica foi escrita em 1994, na época das eleições. Como não tive oportunidade antes e, considerando que o seu teor continua atualizado, publico agora no blog.

Boa leitura!




Uma das experiências mais interessantres que tenho tido nos últimos anos é a criação desse excepcional animal doméstico: o cão.

Tendo o seu nome utilizado algumas vezes, injustamente, é claro, para denegrir a imagem de alguma pessoa "non grata", esse animal, o cachorro, vem ganhando o meu respeito.

Hulk, um cão boxer, nasceu em Aracaju, Sergipe. Aos três meses de idade, fez a sua primeira viagem aérea (digo primeira, porque todo político costuma fazer inúmeras delas). Pouco preocupado com os familiares que deixou no nordeste, logo acostumou-se às regalias do Planalto. Certo dia, procuramos Hulk por toda a casa. Parecia que havia sumido. Qual não foi a nossa surpresa, quando, surpreendido pela inquietação de toda a família ao seu encalço, Hulk esticou o pescoço, colocando a cabeça  para fora... da rede onde estava descansando!

Chamo-o de "Cão didata" porque procura estar sempre bem informado: ao chegarem os jornais e revistas, se o entregador, descuidado, joga-os na garagem, Hulk não perde tempo em "traçar" todos eles. Sua preferência é a Folha de São Paulo, edição de domingo (talvez pelo caderno de empregos, não sei), mas gosta de "traçar" também a ISTO É e, até mesmo a MARIE CLAIRE, é alvo de seu interesse.

São muitas as características que evidenciam a sua aptidão para a política, mas o meu "cão didata", Hulk, possui uma qualidade que eu gostaria de constatar no futuro Presidente da República. Com essa virtude será mais fácil perdoá-lo dos erros que, certamente, irá cometer pela falta de experiência.

Essa qualidade que eu tanto admiro no meu "Cão Didata", anda rara no meio político: A FIDELIDADE!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O CASAQUINHO DE TRICÔ

Naquele sábado, como todos os sábados, era dia de almoço de família. Logo que cheguei, avistei, nas hábeis mãos de minha mãe, um casaquinho. Um casaquinho de tricô! Um casaquinho de lã cor-de-rosa!

Não era um casaquinho de lã cor-de-rosa qualquer. Aquele era um casaquinho especial!
Era o casaquinho mais lindo eu já vira. Ele parecia tão fofinho e aconchegante, muito mais do que qualquer casaquinho cor-de-rosa. Fazia tempo que eu não via minha mãe fazendo casaquinho de neném.

O primeiro casaquinho de tricô que minha mãe fez, eu me lembro muito bem. Foi um casaquinho amarelo. Foi um casaquinho para o meu primeiro filho.
Para mim, a maternidade era novidade. Mas, para ela, ser avó já não era novidade. Mas eu sabia que, para ela, aquele neto ou neta que chegaria seria especial: era o primeiro filho de uma de suas filhas.

Mulher tem mesmo dessas coisas: nós, mulheres, temos uma cumplicidade feminina com nossas filhas. Aprendemos a ser mães com nossas mães e também queremos ensinar nossas filhas a serem mães. Queremos engravidar junto, cuidar do neto e da filha. Queremos acompanhar o resguardo. Esse é um costume antigo, das mulheres de antigamente. O homem era excluído desse momento íntimo entre as mulheres da família. O parto era em casa. O homem ficava do lado de fora e as mulheres da família é que se envolviam nessas coisas.

Até hoje, mesmo que o pai participe do parto, as mulheres têm essa cumplicidade no momento da maternidade. A filha-mãe quer ter sempre a sua própria mãe por perto. E a mãe-avó quer cuidar da filha e do neto ou neta. Quer ensinar a ela como é ser mãe, como se fosse só naquele momento da vida da gente que ela nos ensinaria essas coisas...

Mal sabem que aprendemos a ser mãe pelo carinho que recebemos, pelas suas mãos que nos embalaram, pelo seio que nos amamentou, pelas noites em vigília, pelas preocupações exageradas com cada sintoma antes que alguma doença se prenunciasse.

Mas naquele sábado, quando vi aquele casaquinho cor-de-rosa, eu o queria para mim. Naquele momento, percebi que aquele poderia ser o último casaquinho feito carinhosamente por aquelas mãos. As mãos de minha mãe!

Acho que não é à toa que a palavra mãe é parecida com a palavra mão. Pois é pelas suas mãos que a mãe mostra o seu amor. É cuidando, é acariciando, é trabalhando com as mãos!

Eu queria muito aquele casaquinho cor-de-rosa! Falei para ela. Ela disse que estava fazendo para o bazar de Natal da igreja. Eu disse que então eu iria comprá-lo. E foi o que eu fiz. Ela levou o casaquinho para o bazar e eu fui lá e comprei. Estava numa caixa, caprichosamente embalado, como caprichosamente foi feito. O casaquinho de lã cor-de-rosa!

Perguntaram-me para que eu queria um casaquinho cor-de-rosa, se nem neta ainda havia... Era para alguma criança, que algum dia ainda há de nascer... Era um casaquinho dos sonhos cor-de-rosa! Era o casaquinho dos meus sonhos de um dia vir a ser avó.

Mas a minha alegria não durou muito tempo. Um dia ela falou que eu não poderia ter comprado aquele casaquinho. Ela fizera o casaquinho para a neta de outra avó. Uma neta que já estava por nascer. Ela queria que eu devolvesse o casaquinho. Eu disse que não. Entramos então em negociação. Ela me prometeu fazer, não só um, mais dois casaquinhos. Dois casaquinho brancos. Afinal, tenho um casal de filhos, e não sei se terei netos ou netas...

Aquela promessa foi um pacto que estabelecemos. Ela viveria o tempo suficiente para fazer dois casaquinhos. E foi assim, pactuadas, que ela entrou para a sala de cirurgia. Com quase 86 anos, minha mãe seria operada de um câncer.

Eu cumpri a minha parte do trato: abri mão do casaquinho cor-de-rosa. Mas ela não fez os meus casaquinhos brancos. Quando ela foi internada na UTI, eu percebi que seria difícil ela cumprir a sua parte no trato. Fiquei triste porque não teria os casaquinhos, até que entendi aquela lição: é a lição do desapego!

O casaquinho amarelo aqueceu os primeiros dias do meu filho e depois os da minha filha. Depois os dos seus primos e depois os dos primos de seus primos... Sabe-se lá onde anda esse casaquinho amarelo... Sabe-se lá quantas crianças aqueceu. Não o tenho hoje comigo, mas tenho a lembrança daquele momento. Tenho a lembrança daquele carinho. Tenho a certeza do amor que estava em cada ponto daquele tricô.

Não posso também ter comigo o casaquinho cor-de-rosa. Um casaquinho que me lembraria sempre de minha mãe.

Também não posso tê-la hoje comigo.

Mas, para sempre, ficará a lembrança do seu carinho!

Para sempre, ficará a certeza do seu amor!