quinta-feira, 26 de agosto de 2010

YOLANDA! Exemplo de fé, coragem e amor!

















Um Pendão Real, vos entregou o Rei, Senhor dos Altos Céus!”

Esse é o hino que minha mãe Yolanda mais citava quando nos contava a história de como toda a sua família passou a frequentar a Igreja.

 “Corajosos, firmes!”

Essa sempre foi a marca de Dona Yolanda!  

 Lembro-me um dia, quando eu, menina, chorava porque pensava ter sido picada por um barbeiro. Ela tranquilamente me falou: “- Néa, o barbeiro transmite uma doença em que a pessoa pode morrer a qualquer momento. Mas todos nós estamos sujeitos a morrer a qualquer momento, até, às vezes, atravessando uma rua...”.

Essa cena ficou marcada em minha lembrança de criança. Passei a pensar e enfrentar a possibilidade da morte, sabendo que essa decisão não é nossa, mas de nosso Pai Celeste. Passei a saber que cada minuto de nossa vida é precioso. Que a vida deve ser vivida em sua plenitude, pois cada dia pode ser o último de nossa existência aqui na Terra.


Essa foi a grande lição que, para mim, ela nos ensinou. Naquele dia, e em toda a sua vida!  Enfrentou corajosamente todos os desafios, sempre mencionando o nome de Deus.  As frases que sempre ressoam na minha lembrança:

-        “Podem entrar, os senhores só encontrarão crianças dormindo e muita fé em Deus”, disse ela, ao abrir a porta de nossa casa àqueles que procuravam por meu pai, quando do Golpe de 64.
-        “Ausência de notícia é notícia boa”, durante os dez anos em que nosso irmão mais velho, Paulo, estava vivendo na clandestinidade, também perseguido pela ditadura. Ela permanecia confiante de que, em qualquer lugar que seu filho estivesse, ele estaria sendo cuidado pelo Pai Celeste.

 Foi em 1965 que fomos para a Igreja Metodista. Com as dificuldades financeiras da família, ficava difícil pagar passagens de ônibus para continuarmos a frequentar a Presbiteriana. -”Não tem importância, - disse ela -  vamos para a Metodista, que dá para ir a pé”. Nada a impedia de levar os seus filhos à casa de Deus.

 Foi assim que Dona Yolanda criou os seus seis filhos, sempre se dividindo entre o magistério, onde alfabetizava crianças, e os cuidados com a família. Enfrentava todos os tipos de provações de sua fé,  sempre confiante nos cuidados do Pai!

E essa fé, essa esperança, essa coragem e o amor que sempre teve por todos nós, foi o que a fez lutar nos 75 dias em que esteve internada na UTI.

Ela não podia se expressar por palavras, mas transmitia através do seu olhar e da sua luta, a grande força de vontade de continuar vivendo conosco. Não por ela, sabemos, mas pela certeza que ela tinha do quanto ela era importante para todos nós!

Hoje ela está junto ao Pai, que a recebeu com alegria!

Combateu o bom combate! Completou a carreira e guardou a fé!”

Hoje ela está descansando!

Não temos mais a sua presença, mas ficam as marcas da sua vida entre nós.

Fica a lembrança do seu carinho!

Ficam as marcas da sua coragem!

Fica a certeza do seu imenso amor por nós!

Ela nos deixou uma herança preciosa!

 A herança da sua FÉ!


Minha homenagem a minha querida mãezinha, Yolanda Ramos Cassis que partiu na manhã do dia 24 de agosto para junto ao Pai.

Nasceu em Catanduva - SP, em 27 de março de 1924. O pai, João Ramos da Silva era oleiro e fazia tijolos. Com os tijolos se construíam casas, igrejas e escolas. A mãe, Maria Ignácia Grilo, fazia crochê. Ponto a ponto, entrelaçava fios e vidas. 

Penúltima filha entre oito irmãos, foi normalista e professora. Em Brasília, lecionou nas históricas Escola Classe Metropolitana e Escola Classe 114 sul, onde, alfabetizando crianças, dava-lhes a luz da sabedoria: o acesso ao conhecimento através da leitura.

Conheceu o Evangelho, ainda menina, através da Escola Dominical da Igreja Presbiteriana de Catanduva. Casou-se em 1945 com Adelino Cassis, líder de mocidade na igreja e funcionário do Banco do Brasil. 

O casal teve seis filhos: Paulo Sérgio (1946-2005), Mariza, Flávio Augusto, Dulcinéa, Luis Carlos e Márcia. De seus filhos e filhas, nasceram 13 netos, e até agora um casal de bisnetos.

 Acompanhando o esposo, residiu em várias cidades do interior de São Paulo até mudarem-se para o Rio de Janeiro, em 1954. De lá, vieram para Brasília, em 1962. O golpe militar de 64 atingiu duramente a família. Adelino, que era líder sindical, foi demitido do Banco do Brasil e teve seus direitos cassados. Além das dificuldades financeiras enfrentadas pela família, foi necessário superar a dor de ter seu filho primogênito, Paulo Sérgio, também perseguido pela ditadura. Ele viveu na clandestinidade desde 1968, quando recebeu ordem de prisão na época da invasão da UnB, até 1979, quando houve a anistia. 

A partir de 1965, Yolanda e seus  filhos,  passaram a frequentar a Igreja Metodista da Asa Sul, em Brasília, onde era membro ativa da Sociedade de Mulheres e contribuía sempre com a confecção de enxovais e peças para o bazar.

Quando se aposentou como professora, incluiu em sua rotina aulas de natação, prática de hidroginástica e caminhadas diárias. Sempre preocupada em preservar sua saúde, além dos exercícios físicos, era disciplinada em seus exames preventivos e seguia sempre as recomendações médicas.

Fazia tricô, crochê e bordava, presenteando as pessoas queridas com suas lindas peças.

Foi uma cozinheira de mão cheia. Aprendeu com a sogra, libanesa, os segredos da cozinha árabe, que passou para as suas filhas, filhos e noras. Seus quibes, coalhada, homus, charutos, arroz e sopa de lentilhas eram conhecidos pelo seu tempero especial:  o tempero do amor!

Sua lembrança e seu exemplo permanecem eternamente em nossos corações!


Na foto, de 2009, aparece com seu primeiro bisneto, Pedro. Yolanda olha o bisneto, que contempla o céu. Sua descendência projeta para o infinito os frutos de sua fé, coragem e amor!