sábado, 30 de janeiro de 2010

O VAZIO QUE FICOU...

O vazio que ficou lhe fez companhia!

Depois de uma separação ou morte de uma pessoa querida, a sensação que me relatam é de um vazio. Fica um vazio na vida daquela pessoa.

As atividades que faziam juntos tornam-se um pesadelo, pela ausência do outro. Tudo lembra aquela presença. Tudo o faz reportar àqueles momentos de outrora felicidade.

Mesmo que seja uma felicidade do tipo: "eu era feliz e não sabia", quem fica só, ressente-se da ausência do outro. Mesmo que não tenha sido um relacionamento dos que se pode dizer que são felizes, a ausência do outro deixa um vazio.

A falta da companhia é sentida. Não só dos momentos bons, daqueles momentos em que, só de olhar um para o outro, ou só de ficar perto, mesmo em silêncio, se tem a certeza de que se é amado. Se tem a plena certeza de que, mesmo sabendo que essa vida é finita e os relacionamentos não são eternos, sempre terão um ao outro.

Dos momentos ruins, também a falta é sentida. Fica o vazio de não ter com quem brigar, de não ter com quem discutir, de não ter de quem discordar. Sim, sentimos falta do outro que nos instiga, que nos contrapõe, que nos faz pensar, que nos obriga a lembrar de que nem sempre temos razão, de que não somos deuses!

E é o vazio deixado pelo outro que, muitas vezes, faz companhia! É o lamento da ausência que substitui a presença. É a mágoa sempre lembrada que preenche os pensamentos.

Se a presença do outro supre a necessidade de nos sentirmos vivos, a sua ausência nos lembra, pela dor, que ainda mantemos a capacidade de sentir. Imagino que sequelados que não sentem o próprio corpo gostariam de senti-lo, mesmo que para poder sentir a dor.

É no remoer as mágoas, feridas que às vezes demoram a cicatrizar, que, muitas vezes, se encontra companhia. Ao invés de elaborar a perda, despedir-se do passado e abrir-se para novas experiências e relacionamentos, prefere a companhia da dor.

Essa, a dor, é fiel! Mesmo que, quando a mandamos embora, ela às vezes teime em ficar!

A dor só nos deixa quando permitimos que ela vá embora!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FINALMENTE, SÓ!

Depois de tantos anos de convivência...

Dormindo juntos na mesma cama, fazendo juntos as refeições. Assistindo juntos os mesmos filmes, conversando juntos sobre os mesmos assuntos. Escolhendo juntos os mesmos programas, encontrando juntos os mesmos amigos. Gostando juntos do mesmo sexo!

Um dia, o que era junto se separou. Quem dormia junto, já não dorme mais. Os almoços e jantares passaram a ser separados. Os amigos em comum já não encontravam mais. O cinema agora era separado. Cada um na sua casa. Cada um no seu espaço. Cada um na sua...

No início, das sobras do amor, sobrou a lembrança. Ficou o vazio e a saudade. Ficou a vontade de rever, mas também o medo de voltar a ser o que já não era mais. Sobrou a sobra da pipoca do filme que não assistiu. Sobrou a falta do amigo em comum.

Sobrou a saudade do que já deixara de existir antes de acabar o restinho do que ainda havia.

Quase um ano depois, pela primeira vez, começa a sentir-se só...

Até então, o vazio que ficara lhe fizera companhia!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LIMÃO OU LIMONADA?

Ligar a TV hoje em dia é ouvir notícias sobre os desabamentos e outras consequências de desastres naturais
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Vemos as imagens de pessoas se afogando, de casas sendo levadas, de pessoas que morrem, de consequências de terremotos. A televisão abre as portas de nossa casa, trazendo notícias de outros que sofrem, trazendo sua angústia, seu desespero.


Fico sensibilizada, especialmente ao ouvir pessoas humildes com falas conformadas. Alguns se desesperam, mas há aqueles que dizem: “fazer o que? Estamos com vida, vamos construir tudo outra vez!”


Há momentos na vida em que nos sentimos desesperançosos!


Pode ser uma doença grave, a morte de uma pessoa querida ou uma grande perda financeira. Às vezes, a descoberta de uma traição no casamento. Ou, o que dói muito, a dor de um filho. Descobrir que um filho está fazendo uso de drogas, ou até mesmo ser chamado pela escola do filho porque ele vai mal nos estudos, é tristeza certa.

Outras vezes, o rompimento de uma relação amorosa ou a perda de um emprego também são fatores que nos desestabilizam.


Há também situações em que o mal  chega devagar: pode ser o afundamento em dívidas, ou uma doença pessoal ou familiar que vai se agravando.


Em todas essas situações, é comum, e é até esperado, que as pessoas fiquem tristes, desanimadas. Parece que colocam óculos escuros que filtram toda a sua percepção de mundo. O que antes podia ser considerado esperado e até normal, diante do quadro de desesperança, passa a ser visto como uma desgraça. Um problema influencia e potencializa negativamente todas as outras situações da vida.


Uma atitude muito comum que chega à clínica psicológica, é o sentimento de culpa. As pessoas se perguntam: o que foi que eu fiz para que acontecesse isso? Principalmente quando se trata de problemas com os filhos, é comum os pais se questionarem e acharem que têm responsabilidade pelo que está ocorrendo. Muitas vezes essa atitude é decorrente das suas próprias experiências negativas da infância.


A mensagem que foi recebida na infância é: “você fez coisas erradas, agora vai sofrer o castigo”. A lógica era: Você errou, será castigado e vai sofrer com esse castigo. Ou seja: o sofrimento foi causado pelo castigo recebido.


Facilmente invertemos e generalizamos essa percepção, traduzindo, inconscientemente, para: “todo o sofrimento é um castigo, todo o sofrimento é causado por alguma coisa errada que fizemos”.


Se tomarmos distância do sofrimento para analisar a situação, veremos que nem todo o sofrimento é decorrente de um “castigo” recebido. Muitas vezes pode ser responsabilidade (ou irresponsabilidade) de outro, ou até de toda uma comunidade, como, muitas vezes pode ser a causa de catástrofes. Uma rua inundada pode ser ocasionada por sujeira nos bueiros ou porque aquele não era um local para serem construídas casas.


Surge, então, o questionamento: de quem é a culpa? Aquelas pessoas precisavam de um local para morar, não havia políticas públicas que garantissem moradia para todos etc. Criamos uma rede que vai desembocar em algum culpado. Dessa forma encontramos à quem reclamar, podemos acionar a justiça ou participar de manifestações de protesto que, mesmo que não resolvam o problema de imediato, tem, sobre os reclamantes, um efeito catártico, alivia a angústia. A angústia de não entender a razão do sofrimento.


Nem todo o sofrimento tem uma causa específica. Nem todo o sofrimento é um castigo. Mas podemos transformá-lo numa fonte de crescimento. Não defendo a idéia de que é “bom sofrer para crescer”, pois essa atitude teria uma conotação masoquista. Ninguém deve se alegrar com o sofrimento!


Mas encontrar um sentido para a vida, ajuda a aliviar o sofrimento. A pessoa que, por exemplo,  faz de seu sofrimento um motivo para abraçar uma causa para ajudar solidariamente outras pessoas a enfrentarem suas próprias situações de sofrimento, encontra um sentido no seu próprio sofrimento. Encontra um sentido para a sua vida.


Viktor Frankl, médico e psiquiatra austríaco, criou a Logoterapia a partir do sofrimento que passou nos campos de concentração. Olhou ao redor, viu o sofrimento de tantas outras pessoas e passou a ajudá-las. Dessa forma, aliviou o seu próprio sofrimento, através do sentido que encontrou através dele.


Não sei se é possível entender o sofrimento, mas gosto de pensar que recebemos de presente da vida um quebra-cabeça sem o modelo para montá-lo. Vamos tentando encaixar as peças... No início fica difícil identificar a gravura, mas do meio para o final já é possível visualizá-la e, a partir daí, fica mais fácil completá-la. Talvez seja por isso que, com o passar do tempo, mesmo que não nos acostumemos com as situações de sofrimento, ao menos nos sentimos mais fortalecidos para enfrentá-lo. 

Elaborando as situações e aprendendo com elas, sabemos que podemos transformar aquele limão numa leve e refrescante limonada. 

Basta colocar água e adoçar!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

UM ANJO ENTRE NÓS

No caminho para o cemitério eu refletia sobre a dor que estavam passando os pais. O rapaz de 15 anos, havia partido.

Quando o garoto adoeceu, formou-se uma rede de amigos solidários que se uniram para interceder em favor de sua saúde. Eu chamei aquele movimento, à época, de "Reza do Amor", título de uma crônica publicada neste blog. Eram amigos, de todos os credos, que unificaram sua voz em orações.

Foi um ano e meio de luta contra o câncer. Mas ontem o Lucas se foi. Fora batizado com o nome do médico evangelista. Filho do Adão, que tem o nome do primeiro homem do Gênesis, o "homem criado da terra" , e  da Isabel Cristina, "escolhida por Deus, que veio para cumprir promessa".

Fui lá para reunir-me à solidariedade. Para "chorar com os que choram". Fui lá comovida pela dor. Refletia, mais uma vez, sobre o sentido da morte de um adolescente.

O sacerdote católico, que acompanhara e dera assistência ao rapaz e à família durante a fase mais difícil da doença, estava ali. O médico que o recebeu em seu nascimento, também.

O que eu sabia do Lucas era pouco. Era uma rapaz querido por todos, amável. Sabia também que foi um guerreiro, enfrentando com coragem a doença que teimava em tomar o seu corpo. Lutou bravamente. Mas, então, porque o Pai o levou?

A resposta veio do Adão, e essas palavras, que calaram fundo nos corações, eu nunca vou esquecer: "somos gratos à Deus, por ter nos escolhido para ser os pais do Lucas, um anjo que esteve entre nós e agora voltou para o Pai".



Ao Adão e à Isabel Cristina, meu carinho nessa hora de dor!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

PEGANDO CARONA

Muitas vezes pegamos carona na vida do outro.

Há aqueles que são caronas divertidas. Sabe? Aquele amigo que faz companhia na viagem. Que é divertido, que vai conversando conversas tão interessantes que nem percebemos o o tempo passar. Quando chegamos ao destino, dá vontade de continuar juntos, de continuar conversando, ou até mesmo ficando em silêncio juntos. Sem palavras, continuar conversando com a alma.

É assim às vezes...

Mas há aqueles que pegam carona na vida da gente, que nos fazem respirar aliviados quando nos despedimos.

No caminho, essas caronas indesejadas vão falando só de coisas pesadas e ruins. Falam das notícias desagradáveis do mundo. Falam das suas desgraças pessoais. Falam de suas desesperanças. Falam dos outros...

Não permitem o espaço para a troca, para o ouvir também.

Sem que percebamos, vamos nos contaminando com aquele clima de pessimismo. Quando, finalmente, nos livramos daquela companhia, nos sentimos pesados, tensos. Percebemos que a convivência foi uma perda de tempo.

Por um lado, podemos aproveitar essa experiência para refletir sobre a nossa própria existência. Ver o outro, tomar distância, pode nos fazer perceber o quanto também temos esse lado sombrio, dando oportunidade para transformá-lo.

Por outro lado, podemos considerar que, ao menos, fizemos um bem pelo outro, que teve uma oportunidade de aliviar a sua própria carga.

O carona, por sua vez, poderia começar a se perceber melhor, tomar consciência de que não pode passar a vida pegando carona na vida do outro. Está na hora de comprar seu próprio carro. Assumir sua própria vida. Cuidar de si mesmo, sem esperar sempre pela paciência e compreensão do outro.

Ao invés de querer sempre ser compreendido, compreender, também.

Ao invés de buscar a perfeição do outro, buscar o seu próprio crescimento que pode manifestar-se na paciência e tolerância.

Ao invés de falar, parar para ouvir também!

Aproveitar a oportunidade para fazer dessa convivência uma oportunidade para a troca construtiva.

Aproveitar cada minuto que estão juntos para fazer o outro mais feliz!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Reminiscência... ReminESSÊNCIA

E foi assim que o passado passou.

Foi passando devagarinho... com cuidado para acordar o silêncio do coração.

O coração, que há muito havia adormecido, acordou quando o passado passou.

Mas ainda era noite... e logo voltou a dormir!

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Não há nada que se possa fazer, quando o coração teima em não querer.

É como criança teimosa que não quer comer. É como porta fechada, não adianta bater.

É como nau, sem rumo, atracada.

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Tem gente que mora em barco. Esse costume já está chegando por aqui.

Rios e lagos não são de ninguém. Não precisa comprar terreno. Não precisa alugar espaço. Basta ter um barco para nele morar.

Outro dia fiquei sabendo de alguém que quer morar num barco no lago Paranoá.

Fiquei pensando como seria morar lá. Será que balança muito? Isso é bom para dormir, mas não para acordar.

É bom para sonhar, mas não é bom para trabalhar.

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Eu trabalho nas águas, mas não essas que estão por aí. Eu trabalho nas águas simbólicas do inconsciente pessoal e coletivo. São águas rasas e profundas.

Há aqueles que querem mergulhar, mas a maioria, ao léu, deixa o barco navegar.

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Pensamentos e reflexões são como cadeias de uma corrente. Uma puxa a outra e assim vou escrevendo minhas associações...

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A alma se alimenta da tristeza e inspira a palavra da poesia.

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Aniversário é uma data pra gente se lembrar que está vivo!

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Aniversário, para alguns é alegria. Para mim, às vezes é triste... por isso gosto de festejar, para saber que sou querida pelos que vêm me visitar!

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Não precisa trazer presente! Só precisa se fazer presente!

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AS MINHAS COISAS ANTIGAS

Justo hoje: dia do meu aniversário!

Depois do almoço passei numa livraria. Dei de cara, não sei como, pois estava bem escondida, com uma pequena coletânea de crônicas de Rubem Braga.

Gosto de ler os cronistas antigos. Trazem o cotidiano do tempo em que viveram. Muito melhor do que estudar a insonsa história que se aprende nas escolas, ler crônicas antigas nos faz viajar no tempo e no espaço. É como se entrássemos numa capsula para viajar no tempo. Sem escolher bem a época nem a cidade que iremos visitar, caímos ali: no meio do cotidiano do autor.

Foi assim que, na primeira crônica, me deparei com os costumes do Rubem (permito-me a intimidade, já que ouso me considerar sua colega cronista). No Rio, 1959. Naquela época eu também estava por lá. Só que ainda era menina. Viajo em suas palavras, imaginando a cena que me conta.

Ele fala sobre coisas antigas... começa com um guarda-chuva. É verdade, colega Rubem! Concordo com você! O guarda-chuva, talvez pela sua vocação para enfrentar tempestades, continua firme e inabalável. Desde que me conheço por gente, ele tem sempre aquele mesmo jeito. Mas outro dia - se você estivesse vivo talvez gostasse de saber - admirei-me da mais nova invenção: o guarda-chuva automático no abrir e também no fechar! Ficou mais tecnológico o guarda-chuva, mas continua com o mesmo jeitão! Como aqueles amigos antigos que aderiram ao computador, mas ainda dizem que vão “datilografar”.

Mas o que mais gostei de saber, Rubem, foi do seu desejo de comprar uma cadeira de balanço austríaca... você escreveu que gostaria de comprar uma quando ficasse "um pouco mais velho"...

Rapidamente fiz as contas: quando escreveu essa crônica, Coisas antigas, você tinha 44 anos. Gostei de saber desse seu gosto pela tal cadeira, pois eu também – acredita? - tinha esse mesmo desejo...

A cadeira de balanço austríaca me lembra o meu tempo de criança, que foi o tempo em que você escreveu sobre ela. E foi quando eu tinha 45 anos que realizei esse meu desejo. Um dia, passando numa superquadra, logo na entrada, como é o costume por aqui, tinha um homem, restaurador de cadeiras de palhinhas, vendendo uma dessas cadeiras, usada. Sem titubear, eu comprei! Tenho a cadeira até hoje.

Acho que você gostaria de saber que ela continua do mesmo jeitinho. Linhas leves e arredondadas como o seio da mãe que embala o filho e se embala também. De palhinha, no assento e no encosto. Tem gente que gosta de usar com almofada. Eu, não! Prefiro sentar na palhinha que é fresca e igualmente macia.

Enquanto me embalo na cadeira da minha infância distante, embalo meus sonhos e lembranças.

Embalo a esperança e a decepção.

Embalo a alegria e a tristeza.

Embalo o meu coração!