sábado, 18 de dezembro de 2010

PISCA-PISCA

E agora, já é Natal!

Os shoppings já estão enfeitados, as vitrines lotadas com novos artigos! Já começamos a receber os cartões de Natal virtuais, agora sem a preocupação de atrasos do correio tradicional.

Outro dia estive numa agencia de correios... Não, não era para enviar cartas, nem cartões! Foi para pagar uma conta. Evitando enfrentar fila de banco, lá fui eu, no correio, que agora também é Banco.

Havia um tempo em que, para se pagar uma conta, era preciso enfrentar as filas de banco. Nada de internet, nem ao menos débito automático. O computador dos bancos era central. Era uma máquina enorme, o tal do grande porte, que de grande só tinha o hardware, pois qualquer smarthphone moderno parece ser mais poderoso do que aqueles elefantes de antigamente.

Havia um tempo em que para se enviar cartas, era preciso escrevê-las e postá-las no correio. Hoje, quando falamos em postar, estamos falando em blog, em twiter, em Facebook... Atualmente nem e-mail é novidade... Agora já virou rede social!

Isso até daria um livro de Monteiro Lobato, sobre a reforma, não a da natureza, mas a da sociedade.
Sem querer ser saudosista, até porque prefiro os tempos de hoje, eu me lembro do tempo em que enfeitávamos a árvore de natal com os cartões recebidos. Hoje enfeitamos com as luzes pisca-pisca, que compramos por uma bagatela.

E a luz pisca, pisca...

Piscam os olhos da gente.

Pisca a vida, pisca a moça pro moço, pisca o moço pra moça.

Pisca o dinheiro que cai na conta da gente.

Piscam as oportunidades que passam.

Piscam os encontros e desencontros.

Pisca a vida num minuto! E cada minuto é precioso, porque o mundo dá voltas. Mas, os momentos...

Esses não voltam jamais!


sábado, 27 de novembro de 2010

A FRANCISCANA

Na fila do banheiro no aeroporto, à minha frente, estava uma freira.

Eu, mesmo não sendo católica, achei que aquela seria uma freira da Ordem Franciscana. Eu já vira as fotos do santo que deu origem à ordem.

Nos pés, calçava sandálias. As dela não eram daquelas, modelo da marca Franciscano. Aquela moça, vestida com um hábito marrom, um grosso cordão na cintura, com a cabeça coberta por um pesado véu da mesma cor, não calçava sandálias franciscanas. Tinha nos pés as legitimas sandálias Havaianas.

Talvez São Francisco, pensei, se vivesse hoje, também escolheria as havaianas.

Aquela moça, a freira franciscana, levava somente uma mochila. Uma mochila simples, de tecido, artesanal.

Eu, que viajava para um fim de semana prolongado na praia, havia planejado cuidadosamente a minha bagagem. Queria levar o mínimo possível, para não ter trabalho.

Já houve um tempo em que eu, mesmo para descansar, levava tanta coisa que, afinal, tinha um trabalhão para arrumar, desarrumar a mala, para despachá-la, esperar na esteira que, enfim, a viagem de descanso me cansava. Geralmente eu não usava nem um terço das roupas que levava.

Na fila do banheiro fiquei pensando na mochila da freira. Ah... Se eu tivesse olhos de raio-X, ou se ao menos pudesse dar uma espiada quando sua mochila passasse pela esteira na entrada da sala de embarque... O que será que ela levava?

Talvez uma ou duas mudas de roupa de baixo, produtos de higiene, talvez um sabonete, um  xampu. Nem sei se a Ordem ou sua falta de vaidade lhe permitiria usar um condicionador, leave-in e tantos outros produtos que não sei como seria a minha vida sem eles.

Mas ela levava uma vantagem em relação a mim: com a cabeça coberta e o cabelo preso, tudo fica mais simples. Às vezes acho que o costume das mulheres muçulmanas de também cobrirem a cabeça facilita a vida de quem, como eu que sou de origem árabe, tem os cabelos cacheados e rebeldes.

Continuei viajando pelos meus pensamentos e fantasias a respeito da mochila da freira franciscana. Talvez ela levasse um creme hidratante, já que o clima de Brasília às vezes é tão seco... Perfume, jamais! Nem batom, nem ao menos um lápis de olho. Não consigo sair de casa sem ter brincos na orelha, um lápis nos olhos e ao menos um batom nos lábios e na bolsa.

Voltei à mochila da freira. Certamente levava um terço para rezar, uma Bíblia. Talvez um caderno de anotações e algum outro livro de preces e meditação.

Comparei a mochila, que eu imaginava, da freira com a minha própria bagagem, que eu levava à mão. Comecei a achar, ao contrário do dia anterior, que eu estava levando coisas demais...

Uma das queixas mais comuns que chegam à clínica psicológica é o cansaço da vida que se leva. É o questionamento de tudo que se faz para manter um padrão de vida que às vezes nem é tão alto, mas é exigido pela sociedade em que se está inserido.

O ciclo vicioso começa pela necessidade de ter muitas coisas. É preciso vestir-se bem. Não só isso, há o apelo para a moda e os modelos de marca. É preciso acompanhar a tecnologia,  as tendências de decoração, ter um carro que demonstre o seu padrão econômico.

Para ter muitas coisas é preciso lugar para guardar. E aí precisa de espaço para armários e, naturalmente uma moradia maior... A bola de neve vai aumentando e quando a pessoa e a família percebem, estão com a renda futura comprometida, o que geram dívidas, juros altos e... muitos sabem do que estou dizendo. Já não se dorme mais, ou se procura trabalhar muito mais, quando não se cai na tentação de pequenos, no início, deslizes para aumentar a renda.

Chama à atenção a simplicidade franciscana. A simplicidade que o santo aprendeu nas Escrituras e com a natureza. A simplicidade de Cristo que dizia, sabiamente: "porque estais cansados e sobrecarregados? Aprendei comigo, que sou manso e humilde".

Aí está o segredo da tranquilidade e do descanso: a simplicidade, a humildade! Quando queremos parecer mais do que somos, quando queremos parecer mais do que o outro, quando queremos parecer que somos pessoas diferenciadas, especiais, não pelo que somos, mas pelo que temos, invertemos os valores naturais.

O paradigma vigente em nossa sociedade pós-moderna é: é preciso FAZER, para TER, para SER. Ou seja: eu preciso trabalhar muito, mesmo que seja traindo a minha vocação, para ter muitas coisas e aí então serei alguém, serei respeitado etc.

O novo paradigma que desponta neste novo século é: eu preciso SER, para FAZER, para TER. Essa atitude nos leva a buscar as coisas essenciais, a estar mais próximo da nossa verdadeira vocação, do nosso mais íntimo ser. Consequentemente, fazendo melhor, de forma mais eficaz, receberemos melhor paga pelo nosso trabalho e, consequentemente, poderemos usufruir, de forma digna, ética e moderada, do que o dinheiro pode comprar.

Mas, muito mais ainda: teremos tranquilidade, descanso, mesmo que se trabalhe muito. Teremos satisfação plena, sem precisar buscar nos apelos da moda, a satisfação que ela nunca poderá nos dar!

Acho que, se eu fosse freira, ia querer ser franciscana...

domingo, 21 de novembro de 2010

CORA CORALINA, UMA MULHER QUE TRAIU A TRADIÇÃO


Escrevo estas linhas, em minha visita à cidade de Goiás, a cidade de Cora Coralina.

Aninha, seu nome de família, nasceu no século XIX, numa casa à beira do Rio Vermelho. Desde menina, escrevia. Cursou apenas três anos da escola primária, e muitos anos na escola da vida.

Ana, como todas as mulheres daquele tempo de antigamente, não escolhia muito se haveria ou não de casar. Era o costume seguir a vontade dos pais. No caso dela, que perdeu o pai quando  ainda era bebê, não sei como foi. Talvez o fato possa  ter sido bom para que ela fosse o que foi.

Ela escreve que não se achava bonita. Mas até que, lá pelos seus vinte anos, foi viver em São Paulo, com um advogado que, por ser separado, não podia se casar. Só se casaram bem mais tarde, quando ele ficou viúvo e já tinham alguns filhos.

Ana, que já gostava de ler e escrever, saiu de sua terra, traiu suas tradições. Onde já se viu uma moça daquele tempo e daquela terra, ir morar com um homem sem ter se casado...

Em São Paulo, foi guerreira, participou de movimentos... isso ninguém  diz. Antes de vir até aqui conhecer Cora Coralina, achava que ela era uma mulher da terra, simples, de chinelo no pé e avental, que vivia só para os seus doces e, por uma inspiração divina, escrevia seus versos...

Nada disso, Cora lia muitos livros e incentivava a ler.“O melhor roteiro é sempre ler e assimilar o que se lê. Ler para aprender, procurar vencer. Ninguém escreve bem sem ler muito e assimilar ao máximo. Então eu digo: a gente deve ler, reler, transler. Ser dono dele. Não precisa abrir o livro no começo. Abre ao acaso e só fecha quando cansou, quando já não tem mais tempo. Ponha sempre perto de sua cama ao alcance de suas mãos, ao alcance de seu tempo.” (Cora Coralina)

Ana achou que o seu nome era muito comprido e muito comum.” Existem muitas Anas”. Escolheu um nome para si. Um nome  diferente de seu nome de batismo. Um nome que não levava o seu nome de família. Um nome que rima e tem ritmo, um nome que soa como poesia: Cora Coralina!

Em São Paulo ficou viúva. Com tanto filho para criar, Cora foi à luta. Mudou-se para Penápolis e depois Andradina, no interior de São Paulo. Isso eu não sabia e ninguém me contou... ela esteve por lá, na minha terra paulista, quando eu ainda era bebê. Teve comércio, comprou umas terras. Foi candidata a vereadora. Êta!!! Que mulher forte! Que mulher de fibra, que sabia o que queria! Nesses anos  todos, escrevia seus artigos e poesias, enviava para os jornais.

Lá pelas tantas de sua vida, ela, que traiu o seu nome e sua tradição, sentiu saudades do seu tempo de menina. Lembrou da casa na beira do rio, lembrou de sua gente, de sua tradição. E foi aí que voltou. A casa da família já estava velha, seu teto quase caia, suas paredes ruíam.

Depois da reforma  da sua casa interior, ela reformou a casa de tijolos. Ela voltou a morar na casa onde nascera.

Muitas mulheres seguem os padrões estabelecidos pela família, pela sociedade. São obedientes ao que esperam de si. São obedientes às expectativas da família, do marido, dos filhos. São mulheres que não traem os desejos e expectativas do outro. Mas traem os seus próprios desejos. São traidoras de sua própria alma, de sua vocação, de seu mais íntimo ser.

Cora Coralina, prefiro chamá-la como ela se batizou, saiu de sua casa, de sua terra, de sua gente. Precisou trair a tradição Precisou trair sua família! Cora Coralina pode ter traído a todos, mas não traiu a si mesma!

Só depois de se encontrar, é que pôde resgatar a sua tradição. Depois de ter traído a tradição, de ter tomado distância dos hábitos e costumes de uma terra em que mulher não podia ser nada além de ser esposa, dona de casa e mãe,  só então podia voltar e resgatar a sua tradição!

A  tradição de mulher que gostava de fazer doces.  Da mulher que gostava de fazer as coisas de mulher.
Da mulher simples do interior!

Da mulher que fazia doces fazendo poesia e fazia poesia que adoçava o coração!

VISITANDO GOIÁS!


E ai eu fui visitar  "o Goiás"!

Goiás Velho, como ainda se chama. A antiga capital de Goiás!

Tão pertinho de Brasília... Porque não ir até lá?

Pego um ônibus até Goiânia, de lá, outro para Goiás! Viajei quase um dia... Ainda perco o medo de dirigir em estradas...

Chegando aqui, surpresas!!! Que cidade linda e charmosa! Casas antigas, ruas de pedra, um rio cortando a cidade! Tem muita igreja e árvores. Tem cheiro de mato! Tem gosto de gente!

Agora entendo porque, depois de tantos anos, a Aninha voltou!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VIAJANDO SÓ!

E dá mesmo para viajar sozinha? Essa foi a pergunta que me fez a Tininha, minha amiga de infância, após ler a minha última crônica. Há alguns meses ela havia me convidado para viajarmos juntas, já que tiraria férias e o marido não poderia acompanhá-la.

Como ela, muitas mulheres sentem às vezes a necessidade e/ou o desejo de viajarem, mas acabam desistindo, pela dificuldade de viajarem só. Sempre buscam algum lugar onde se visite um amigo ou parente, pela preocupação de viajar sem companhia.

Outro dia, navegando pela internet em sites de viagens, encontrei um artigo com dicas para mulheres que desejem viajar sozinhas. Há países de tradição árabe, por exemplo, onde não é aconselhado ir sozinha, desacompanhada. Mas, no restante do mundo, é possível, sim, viajar só.

Fazia tempo que eu não viajava só. Mas outro dia, no Rio de Janeiro, encontrei a minha amiga Solange, que me acolheu em seu bem decorado apartamento de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Solange não fica em casa por falta de companhia. Depois de sua última viagem para a paradisíaca praia de Jericoacoara passou a usar uma correntinha de prata com um lindo chinelinho como pingente. "É para eu sempre me lembrar que existe esse universo paralelo". Gostei da expressão! 

Gosto dessa forma de ver a vida. Vivemos entre tantas obrigações de trabalho, e tantas demandas que a vida pós-moderna oferece-nos por um alto preço, que muitas vezes nos esquecemos que podemos nos refugiar em outras paragens fora e dentro da gente.

Para quem vê de fora, o estilo de vida, hoje denominado de "single", pode parecer solidão ou individualismo.

Muitas pessoas vivem sós por opção ou por falta de opção. Mas isso não significa e nem, necessariamente, que sejam pessoas solitárias. Muitas vezes, pessoas casadas ou que moram com outras, sentem-se solitárias.

Há uma diferença entre estar só e ser solitário. Há diferença entre ser individualista e uma pessoa em processo de individuação.

A pessoa que vive só pode, ou não, ser solitária. Sem querer fazer apologia a este ou aquele modo de viver, já que não existe modo melhor ou mais certo de viver, gosto de lembrar sempre que solidão é um estado de espírito. É solitário quem não sabe se relacionar, quem não consegue estabelecer vínculos verdadeiros, amizades sinceras e profundas. Viver só não tem nada a ver com ser solitário!

Também em relação a ser individualista. Há pessoas que, mesmo estando com outras, só pensam em si mesmas. Elas é que precisam ser priorizadas, no seu modo de ver e entender as situações. A palavra e opinião do outro não são consideradas, por essas pessoas individualistas. Numa atitude egoísta, elas pensam somente em si e não conseguem perceber nem se sensibilizar com as necessidades do outro.

Invariavelmente, são essas pessoas individualistas, egoístas, que, mesmo vivendo acompanhadas por outras, muitas vezes, sentem-se solitárias. As outras pessoas convivem com elas pelas circunstâncias, mas nem sempre por opção.

Já as pessoas em processo de individuação, são diferentes. Para a psicologia analítica, o processo de individuação leva a pessoa a se tornar cada vez mais ela mesma. Cada vez mais quem ela realmente é. 

A educação formal e familiar, nem sempre permite a livre expressão da pessoa em sua plenitude. A sociedade em geral apresenta expectativas que são endossadas e reforçadas pela família no processo educacional.

Preocupados com o futuro dos filhos, os pais, muitas vezes, direcionam, influenciam suas escolhas, que, nem sempre, seriam as escolhas mais adequadas à sua personalidade, a quem aquela criança realmente é e ao adulto que ela deveria vir a ser. Nesse processo, a vocação, não somente a profissional, mas a vocação de vida, a finalidade última de sua existência, é abafada, é atropelada, é desconsiderada.

Com o tempo, esse processo vai moldando o futuro adulto, que se conforma e acomoda, desviando-se aos poucos do seu verdadeiro caminho, de sua verdadeira vocação.

Muitos só conseguem retornar ao seu próprio caminho, ao seu próprio ser, na maturidade, quando se acelera o processo de individuação. Voltando-se para si mesmo, ouvindo seu coração, sua alma, permanecendo cada vez mais presente junto a si, junto à sua centelha divina, buscando o caminho da espiritualidade verdadeira, a re-ligação com o Ser, dessa forma, tornamo-nos cada vez mais quem realmente somos. Cada vez mais, atores de nosso próprio destino. 

Cada vez mais, realizadores de nossa vocação, cada vez mais cumprindo nossa missão perante Deus e o mundo!

sábado, 13 de novembro de 2010

POR VERDES MARES...

Enquanto o catamarã se afastava da costa da cidade de Salvador rumo a Morro de São Paulo, alguns passageiros disputavam um lugar na popa para fotografar e filmar a bela paisagem.

Foi naquele momento em que eu me lembrei que não havia levado a minha câmera digital. 

Eu havia escolhido um lugar  para admirar a bela paisagem. Eu viajava só! Eu queria estar só! 

Estar só para muitos é um desafio. Conheço pessoas que não viajam por falta de companhia. Não sabem o quanto estão perdendo.

Viajar só é, muitas vezes, viajar acompanhado de todo o mundo. Viajando só, viajamos para lugares desconhecidos fora e dentro da gente. Viajar só é uma oportunidade para refletir sobre si mesmo.

A nau rasgava as águas do mar, que sangravam em brancas ondas espumantes. Eu viajava pelo mar e pelos meus pensamentos.  Por alguns instantes, senti pena de ter esquecido a máquina. Lembrei então que eu tinha outra forma de registrar aquele momento. Podemos fotografar com a nossa alma!

Concentrei-me naquele momento mágico, único. Reparei em todos os detalhes. Senti a brisa batendo no meu rosto, esvoaçando meus cabelos. Senti o cheiro do mar. Ouvi o canto do vento, senti o calor do sol. 

Uma onda de alegria tomou conta do meu coração. Fiquei feliz por não ter levado a máquina. Certamente eu, preocupada em registrar tudo, não poderia observar todos aqueles detalhes, todas aquelas sensações. Máquina digital pode registrar imagem. Essas modernas podem filmar também. É a imagem em movimento! O som também pode ser gravado... Mas ainda não foi inventada a máquina que grava as sensações, a máquina que grava as emoções. Essas, só podem ser arquivadas em nossa lembrança!

Há pessoas que, além de não saberem fotografar com a alma, não sabem arquivar suas lembranças.  Muitos nem arquivam, vão entulhando suas gavetas, com as lembranças boas e ruins. As experiências tristes, negativas, vêm sempre à tona, sem que se procure, e as experiências felizes, as que alimentam a nossa alma, ficam escondidas, e as pessoas até se esquecem que elas existem.

Eu, como já fui secretária, entendo bem de arquivos e registros. Tenho uma pasta especial para arquivar as lembranças que me fazem bem. Essas eu gosto de deixar bem à mão, para acessá-las a todo o momento. Dessa forma, a viagem que durou apenas um final de semana, se faz ainda bem presente. Gosto de lembrar aquelas cenas. Gosto de contemplá-las outra vez.

Tem gente que viaja, só para dizer que viajou, para ter fotos para mostrar, para ter assunto para conversar. Hoje em dia, quem não viaja, nem que seja navegando pela internet, acaba se sentindo um peixe fora d'água. Todo mundo viaja ou já viajou. Nem que seja viajar pelos seus pensamentos, ou até mesmo “viajar pela maionese”, escorregando para fora da realidade.

Mas, a maioria das pessoas, ao viajar, se preocupa com tantas coisas, que se esquece de viajar. Não, não estou falando de perder o voo. Estou falando de não estar presente em cada momento da viagem!

Tem gente que viaja para outra cidade ou para outro país, só de corpo, porque a alma e o pensamento viajam para outro lugar. E de porto em porto, de estação em estação, de aeroporto em aeroporto, vão deixando seus fragmentos espalhados pelo mundo. 

Mas tem gente que, sem viajar para outros destinos, está sempre viajando para dentro de si.

A melhor viagem que se pode e deve fazer, é viajar para conhecer a nossa alma, o nosso íntimo ser. É viajar para conhecer a nossa caverna, os nossos castelos, mergulhar em nossos mares, trazendo à tona, um a um, cada fragmento de nosso barco que naufragou.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

GENTE DA TERRA, GENTE DO MAR



Eu já estava caminhando há mais de uma hora. A praia era linda e, àquela hora, deserta. Acordara cedo, o dia já clareara, o sol já aquecia e bronzeava a minha pele, clara e sensível pelo longo tempo sem tomar sol.

Fazia muito tempo que eu não visitava uma praia tão gostosa! O mar era calmo! A areia grossa permitia ao mar apresentar-se límpido e transparente aos nossos pés e infinitamente azul ao horizonte. Permitia que, nas piscinas formadas pelos corais, visualizássemos, sem mergulho, lindos peixes coloridos que nos saudavam em cardumes à espera de alimento.

Eu estava em Morro de São Paulo, uma praia ilhada na Bahia, pertinho de Salvador. O lugar ainda é agreste, ainda há praias desertas, quase virgens.

Naquele trecho, final da quarta praia, eu já avistava o meu objetivo. Queria chegar até a quinta praia, da qual haviam me falado.

Naquelas paragens sutis, avistei ao longe uma mulher que se ocupava em arrumar o seu espaço. Mais do que um espaço comercial para vender as iguarias da terra, pareceu-me um espaço de uma casa ao ar livre, que se prepara para uma festa. Uma festa para receber seus convidados mais queridos.

As mesas de plástico eram colocadas cuidadosamente e cobertas, de uma forma como eu nunca havia visto ou percebido na praia, com toalhas coloridas. Os postes da cerca eram vestidos com vistosas cangas. Ao me aproximar, reparei que as toalhas eram de chita. Um chitão florido e bonito, meio desbotado de tantas lavadas, sem bainhas, parecendo improvisadas.

Fiquei impressionada com a estratégia: apesar do vento, as toalhas permaneciam nas mesas, seguras pelas cadeiras recostadas.

Ao me aproximar, a mulher, morena de sol, que aparentava uns trinta e poucos anos, cumprimentou-me e ofereceu-me uma água de coco.

Era tudo o que eu precisava e queria naquele momento, após a longa e solitária caminhada. Um lugar para sentar, uma água de coco para saciar a minha sede, uma pessoa para conversar!

Aceito o convite, ela sumiu entre a vegetação à beira da areia da praia, voltando logo em seguida com o coco mais gelado que eu já tomara naqueles dias. O coco verde, furado, com o tradicional canudinho. Mas, para a minha surpresa, originalmente servido em uma tigela de barro, perfeitamente ajustável ao fruto.

Elogiei a forma de servir o coco. Sinalizei o capricho simples das mesas cobertas de chita.

Teresa é baiana, fiquei sabendo. Morara em Salvador e tinha uma sapataria. Negócios da família. Cansada da vida difícil de pequena empresária, que luta para sobreviver em meio a tantos impostos que se tem a pagar, resolveu ir morar na ilha. O terreno, naquele lugar paradisíaco, era herança do avô.

Com o marido e o filho, resolveu iniciar um novo negócio. À beira da praia, mas do que vender coco e quitutes, receber pessoas, acolher. Contou-me que está construindo uma pousada.

A história da Teresa, me lembrou uma outra personagem que cruzou a minha vida. Há muitos anos, quando visitei Pirenópolis pela primeira vez, conheci uma mulher. Era médica e optara em viver na pequena cidade que, à época, ainda não era tão badalada. Ao meu comentário sobre a sua coragem, ela respondeu: - corajosos são vocês que conseguem morar na cidade grande!

Parece que esse sonho de morar em cidade pequena, cidade de praia ou de interior, parece um sonho que toda gente tem lá no fundo de sua alma. Somos um povo do mato. Temos sangue de índio. Temos sangue de negro. Temos sangue de gente da terra. De gente que planta, que colhe, que caça e que pesca para ter o que comer e viver.

Quem mora na beira da praia, só passa fome se for preguiçoso. Tem água de coco para beber, tem peixe para comer. O que quiser vender, tem turista que compre. Teresa me falava: “quem quiser, faz uma receita de brigadeiro, sai na praia vendendo a dois reais cada um. Não tem para quem queira, vende tudo!”

Essa gente, que vive da terra, que vive da praia, que vive do mar, confesso que me dá inveja!

Parece que se contentam com a natureza que Deus dá. Não tem fome de ostentar, não tem fome de ter, não tem fome de mostrar para o outro que tem o que o outro não tem. Não tem fome de comprar tudo que o cartão financia, mas não pode pagar. Não tem fome de vestir o que a moda mandar. Não tem fome de ter o carro último tipo, e o último modelo de celular. Não tem fome de assistir a novidade do cinema nem de ir ao show mais badalado. Não tem fome de saber o que se passa no mundo, na política e no futebol. Não tem fome de comprar mais sapatos que seus pés. Não tem fome de comprar roupas que nunca vai usar.

Não tem fome de conhecer o mundo dos outros. Já que possuem o mundo inteiro, pois têm o infinito do mar diante de si!

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

SAUDADES....

O dia amanheceu nublado! Um feriado diferente. Um feriado em que nada se comemora. Mas um dia de se recolher, de meditar, de refletir!

Não um dia para apenas chorar pelos nossos mortos, mas um dia para relembrar a sua vida! Um dia para refletir sobre a nossa própria vida!

As minhas primeiras lembranças e contato com a morte, remetem-me à casa dos meus avós, em Catanduva, no interior do estado de São Paulo. Eles moravam numa casa de esquina, na rua do cemitério. Na rua em que passava o cortejo fúnebre. Na rua em que passava o caixão e todos os familiares e amigos acompanhavam a pé.

Não sei se lá ainda acontece assim, mas no meu tempo de criança, quando eu  passava as férias por lá, lembro que o costume era velar os mortos em sua própria casa. Vizinhos, parentes e amigos, todos passavam a última noite velando o morto.

O verbo velar tem dois sentidos. Um, originário de véu: colocar véu, encobrir. Existem fatos velados, por exemplo. Algo que se tenta encobrir, mas que transparece, pois é "coberto por um véu". Assim como o rosto das mulheres de antigamente, assim como a sensualidade da lingerie, que mostra escondendo, esconde mostrando.

Velar, também significa passar a noite acordado. Nesse caso, tem a ver com vela, pois antigamente,  para passar a noite em claro, usavam-se velas ou outras luzes naturais, como lamparina ou lampião. Tudo que pudesse manter acesa uma chama de fogo.

Tanto o véu, como a vela, são símbolos usados nos velórios. No caixão é usado o tule. O corpo é maquiado, é enfeitado, para que morto tenha a melhor aparência possível. Queremos nos despedir de nossos entes queridos, com a lembrança de sua feição como se estivessem dormindo.

A vela, nos velórios e nos atos fúnebres, também é simbolicamente utilizada para iluminar o caminho do morto, para dar luz, dar vida. A vela possibilita manter acesa uma pequena chama de fogo. O fogo que queima, que purifica. O fogo que transforma!

Outro símbolo também utilizado nos atos fúnebres e nos rituais de lembrança dos mortos, são as flores.

A coroa de flores, nos enterros, singelas flores atiradas na cova, vasos de delicadas flores para enfeitar os túmulos.

Hoje fiz a minha primeira visita de "dia de finados" ao tumulo de minha mãe. A sua partida foi recente e ainda dói um pouco, a saudade.

Fui visitar o seu túmulo. Um ritual solitário. Uma caminhada silenciosa até o local, refletindo sobre a sua vida, sobre o legado que ela nos deixou. Algumas pessoas, ao me consolarem pela sua morte, me diziam que "sempre fica um vazio, fica um buraco dentro da gente".

Confesso que até agora ainda não senti esse vazio, nem esse "buraco" dentro de mim. Apesar da dor de sua partida e da saudade que fica, parece-me que ela está ainda muito presente.

Minha mãe se faz presente pela lembrança de seu carinho. Pelas coisas que me ensinou. Pela tradição que transmitiu. Sempre que cozinho me lembro dela. Foi com ela que aprendi a cozinhar. Lembro como me ensinava o ponto de dourar a cebola para temperar a lentilha. Lembro de como, antes de existir o processador moderno, ela moia a carne e passava o quibe na maquina manual. Lembro dela abrindo a massa para fazer pizza ou esfiha. Lembro dela sentada enrolando quibes ou charutos de repolho.

Hoje, visitando o seu tumulo, chorei a sua ausência, lembrei do seu carinho. Olhando as flores que eu levara e tantas outras de tantas outras pessoas que levavam para seus tantos outros mortos, olhando essas flores eu entendi o porquê das flores para os mortos.

As flores abrem seus botões no tempo certo. Nos alegram com sua sublime beleza. Exalam o seu perfume. Mas há o tempo de florescer e o tempo de morrer. Um dia a flor murcha! Um dia a flor se vai.

Assim como as flores, nossas vidas aqui na Terra são finitas. Temos os tempo de nos abrir para a vida. Temos o tempo de alegrar as pessoas, temos o tempo de exalar nosso perfume.

Mas há o dia em que também nos transformaremos. Há o dia em que é preciso deixar morrer o corpo para transceder.

E nessa hora, deixaremos só a lembrança!

Deixaremos a marca de nossa vida!

Deixaremos a marca do nosso perfume!

Deixaremos a marca de nosso amor!

domingo, 5 de setembro de 2010

VOTE NO "CÃO DIDATA"

Esta crônica foi escrita em 1994, na época das eleições. Como não tive oportunidade antes e, considerando que o seu teor continua atualizado, publico agora no blog.

Boa leitura!




Uma das experiências mais interessantres que tenho tido nos últimos anos é a criação desse excepcional animal doméstico: o cão.

Tendo o seu nome utilizado algumas vezes, injustamente, é claro, para denegrir a imagem de alguma pessoa "non grata", esse animal, o cachorro, vem ganhando o meu respeito.

Hulk, um cão boxer, nasceu em Aracaju, Sergipe. Aos três meses de idade, fez a sua primeira viagem aérea (digo primeira, porque todo político costuma fazer inúmeras delas). Pouco preocupado com os familiares que deixou no nordeste, logo acostumou-se às regalias do Planalto. Certo dia, procuramos Hulk por toda a casa. Parecia que havia sumido. Qual não foi a nossa surpresa, quando, surpreendido pela inquietação de toda a família ao seu encalço, Hulk esticou o pescoço, colocando a cabeça  para fora... da rede onde estava descansando!

Chamo-o de "Cão didata" porque procura estar sempre bem informado: ao chegarem os jornais e revistas, se o entregador, descuidado, joga-os na garagem, Hulk não perde tempo em "traçar" todos eles. Sua preferência é a Folha de São Paulo, edição de domingo (talvez pelo caderno de empregos, não sei), mas gosta de "traçar" também a ISTO É e, até mesmo a MARIE CLAIRE, é alvo de seu interesse.

São muitas as características que evidenciam a sua aptidão para a política, mas o meu "cão didata", Hulk, possui uma qualidade que eu gostaria de constatar no futuro Presidente da República. Com essa virtude será mais fácil perdoá-lo dos erros que, certamente, irá cometer pela falta de experiência.

Essa qualidade que eu tanto admiro no meu "Cão Didata", anda rara no meio político: A FIDELIDADE!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O CASAQUINHO DE TRICÔ

Naquele sábado, como todos os sábados, era dia de almoço de família. Logo que cheguei, avistei, nas hábeis mãos de minha mãe, um casaquinho. Um casaquinho de tricô! Um casaquinho de lã cor-de-rosa!

Não era um casaquinho de lã cor-de-rosa qualquer. Aquele era um casaquinho especial!
Era o casaquinho mais lindo eu já vira. Ele parecia tão fofinho e aconchegante, muito mais do que qualquer casaquinho cor-de-rosa. Fazia tempo que eu não via minha mãe fazendo casaquinho de neném.

O primeiro casaquinho de tricô que minha mãe fez, eu me lembro muito bem. Foi um casaquinho amarelo. Foi um casaquinho para o meu primeiro filho.
Para mim, a maternidade era novidade. Mas, para ela, ser avó já não era novidade. Mas eu sabia que, para ela, aquele neto ou neta que chegaria seria especial: era o primeiro filho de uma de suas filhas.

Mulher tem mesmo dessas coisas: nós, mulheres, temos uma cumplicidade feminina com nossas filhas. Aprendemos a ser mães com nossas mães e também queremos ensinar nossas filhas a serem mães. Queremos engravidar junto, cuidar do neto e da filha. Queremos acompanhar o resguardo. Esse é um costume antigo, das mulheres de antigamente. O homem era excluído desse momento íntimo entre as mulheres da família. O parto era em casa. O homem ficava do lado de fora e as mulheres da família é que se envolviam nessas coisas.

Até hoje, mesmo que o pai participe do parto, as mulheres têm essa cumplicidade no momento da maternidade. A filha-mãe quer ter sempre a sua própria mãe por perto. E a mãe-avó quer cuidar da filha e do neto ou neta. Quer ensinar a ela como é ser mãe, como se fosse só naquele momento da vida da gente que ela nos ensinaria essas coisas...

Mal sabem que aprendemos a ser mãe pelo carinho que recebemos, pelas suas mãos que nos embalaram, pelo seio que nos amamentou, pelas noites em vigília, pelas preocupações exageradas com cada sintoma antes que alguma doença se prenunciasse.

Mas naquele sábado, quando vi aquele casaquinho cor-de-rosa, eu o queria para mim. Naquele momento, percebi que aquele poderia ser o último casaquinho feito carinhosamente por aquelas mãos. As mãos de minha mãe!

Acho que não é à toa que a palavra mãe é parecida com a palavra mão. Pois é pelas suas mãos que a mãe mostra o seu amor. É cuidando, é acariciando, é trabalhando com as mãos!

Eu queria muito aquele casaquinho cor-de-rosa! Falei para ela. Ela disse que estava fazendo para o bazar de Natal da igreja. Eu disse que então eu iria comprá-lo. E foi o que eu fiz. Ela levou o casaquinho para o bazar e eu fui lá e comprei. Estava numa caixa, caprichosamente embalado, como caprichosamente foi feito. O casaquinho de lã cor-de-rosa!

Perguntaram-me para que eu queria um casaquinho cor-de-rosa, se nem neta ainda havia... Era para alguma criança, que algum dia ainda há de nascer... Era um casaquinho dos sonhos cor-de-rosa! Era o casaquinho dos meus sonhos de um dia vir a ser avó.

Mas a minha alegria não durou muito tempo. Um dia ela falou que eu não poderia ter comprado aquele casaquinho. Ela fizera o casaquinho para a neta de outra avó. Uma neta que já estava por nascer. Ela queria que eu devolvesse o casaquinho. Eu disse que não. Entramos então em negociação. Ela me prometeu fazer, não só um, mais dois casaquinhos. Dois casaquinho brancos. Afinal, tenho um casal de filhos, e não sei se terei netos ou netas...

Aquela promessa foi um pacto que estabelecemos. Ela viveria o tempo suficiente para fazer dois casaquinhos. E foi assim, pactuadas, que ela entrou para a sala de cirurgia. Com quase 86 anos, minha mãe seria operada de um câncer.

Eu cumpri a minha parte do trato: abri mão do casaquinho cor-de-rosa. Mas ela não fez os meus casaquinhos brancos. Quando ela foi internada na UTI, eu percebi que seria difícil ela cumprir a sua parte no trato. Fiquei triste porque não teria os casaquinhos, até que entendi aquela lição: é a lição do desapego!

O casaquinho amarelo aqueceu os primeiros dias do meu filho e depois os da minha filha. Depois os dos seus primos e depois os dos primos de seus primos... Sabe-se lá onde anda esse casaquinho amarelo... Sabe-se lá quantas crianças aqueceu. Não o tenho hoje comigo, mas tenho a lembrança daquele momento. Tenho a lembrança daquele carinho. Tenho a certeza do amor que estava em cada ponto daquele tricô.

Não posso também ter comigo o casaquinho cor-de-rosa. Um casaquinho que me lembraria sempre de minha mãe.

Também não posso tê-la hoje comigo.

Mas, para sempre, ficará a lembrança do seu carinho!

Para sempre, ficará a certeza do seu amor!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

YOLANDA! Exemplo de fé, coragem e amor!

















Um Pendão Real, vos entregou o Rei, Senhor dos Altos Céus!”

Esse é o hino que minha mãe Yolanda mais citava quando nos contava a história de como toda a sua família passou a frequentar a Igreja.

 “Corajosos, firmes!”

Essa sempre foi a marca de Dona Yolanda!  

 Lembro-me um dia, quando eu, menina, chorava porque pensava ter sido picada por um barbeiro. Ela tranquilamente me falou: “- Néa, o barbeiro transmite uma doença em que a pessoa pode morrer a qualquer momento. Mas todos nós estamos sujeitos a morrer a qualquer momento, até, às vezes, atravessando uma rua...”.

Essa cena ficou marcada em minha lembrança de criança. Passei a pensar e enfrentar a possibilidade da morte, sabendo que essa decisão não é nossa, mas de nosso Pai Celeste. Passei a saber que cada minuto de nossa vida é precioso. Que a vida deve ser vivida em sua plenitude, pois cada dia pode ser o último de nossa existência aqui na Terra.


Essa foi a grande lição que, para mim, ela nos ensinou. Naquele dia, e em toda a sua vida!  Enfrentou corajosamente todos os desafios, sempre mencionando o nome de Deus.  As frases que sempre ressoam na minha lembrança:

-        “Podem entrar, os senhores só encontrarão crianças dormindo e muita fé em Deus”, disse ela, ao abrir a porta de nossa casa àqueles que procuravam por meu pai, quando do Golpe de 64.
-        “Ausência de notícia é notícia boa”, durante os dez anos em que nosso irmão mais velho, Paulo, estava vivendo na clandestinidade, também perseguido pela ditadura. Ela permanecia confiante de que, em qualquer lugar que seu filho estivesse, ele estaria sendo cuidado pelo Pai Celeste.

 Foi em 1965 que fomos para a Igreja Metodista. Com as dificuldades financeiras da família, ficava difícil pagar passagens de ônibus para continuarmos a frequentar a Presbiteriana. -”Não tem importância, - disse ela -  vamos para a Metodista, que dá para ir a pé”. Nada a impedia de levar os seus filhos à casa de Deus.

 Foi assim que Dona Yolanda criou os seus seis filhos, sempre se dividindo entre o magistério, onde alfabetizava crianças, e os cuidados com a família. Enfrentava todos os tipos de provações de sua fé,  sempre confiante nos cuidados do Pai!

E essa fé, essa esperança, essa coragem e o amor que sempre teve por todos nós, foi o que a fez lutar nos 75 dias em que esteve internada na UTI.

Ela não podia se expressar por palavras, mas transmitia através do seu olhar e da sua luta, a grande força de vontade de continuar vivendo conosco. Não por ela, sabemos, mas pela certeza que ela tinha do quanto ela era importante para todos nós!

Hoje ela está junto ao Pai, que a recebeu com alegria!

Combateu o bom combate! Completou a carreira e guardou a fé!”

Hoje ela está descansando!

Não temos mais a sua presença, mas ficam as marcas da sua vida entre nós.

Fica a lembrança do seu carinho!

Ficam as marcas da sua coragem!

Fica a certeza do seu imenso amor por nós!

Ela nos deixou uma herança preciosa!

 A herança da sua FÉ!


Minha homenagem a minha querida mãezinha, Yolanda Ramos Cassis que partiu na manhã do dia 24 de agosto para junto ao Pai.

Nasceu em Catanduva - SP, em 27 de março de 1924. O pai, João Ramos da Silva era oleiro e fazia tijolos. Com os tijolos se construíam casas, igrejas e escolas. A mãe, Maria Ignácia Grilo, fazia crochê. Ponto a ponto, entrelaçava fios e vidas. 

Penúltima filha entre oito irmãos, foi normalista e professora. Em Brasília, lecionou nas históricas Escola Classe Metropolitana e Escola Classe 114 sul, onde, alfabetizando crianças, dava-lhes a luz da sabedoria: o acesso ao conhecimento através da leitura.

Conheceu o Evangelho, ainda menina, através da Escola Dominical da Igreja Presbiteriana de Catanduva. Casou-se em 1945 com Adelino Cassis, líder de mocidade na igreja e funcionário do Banco do Brasil. 

O casal teve seis filhos: Paulo Sérgio (1946-2005), Mariza, Flávio Augusto, Dulcinéa, Luis Carlos e Márcia. De seus filhos e filhas, nasceram 13 netos, e até agora um casal de bisnetos.

 Acompanhando o esposo, residiu em várias cidades do interior de São Paulo até mudarem-se para o Rio de Janeiro, em 1954. De lá, vieram para Brasília, em 1962. O golpe militar de 64 atingiu duramente a família. Adelino, que era líder sindical, foi demitido do Banco do Brasil e teve seus direitos cassados. Além das dificuldades financeiras enfrentadas pela família, foi necessário superar a dor de ter seu filho primogênito, Paulo Sérgio, também perseguido pela ditadura. Ele viveu na clandestinidade desde 1968, quando recebeu ordem de prisão na época da invasão da UnB, até 1979, quando houve a anistia. 

A partir de 1965, Yolanda e seus  filhos,  passaram a frequentar a Igreja Metodista da Asa Sul, em Brasília, onde era membro ativa da Sociedade de Mulheres e contribuía sempre com a confecção de enxovais e peças para o bazar.

Quando se aposentou como professora, incluiu em sua rotina aulas de natação, prática de hidroginástica e caminhadas diárias. Sempre preocupada em preservar sua saúde, além dos exercícios físicos, era disciplinada em seus exames preventivos e seguia sempre as recomendações médicas.

Fazia tricô, crochê e bordava, presenteando as pessoas queridas com suas lindas peças.

Foi uma cozinheira de mão cheia. Aprendeu com a sogra, libanesa, os segredos da cozinha árabe, que passou para as suas filhas, filhos e noras. Seus quibes, coalhada, homus, charutos, arroz e sopa de lentilhas eram conhecidos pelo seu tempero especial:  o tempero do amor!

Sua lembrança e seu exemplo permanecem eternamente em nossos corações!


Na foto, de 2009, aparece com seu primeiro bisneto, Pedro. Yolanda olha o bisneto, que contempla o céu. Sua descendência projeta para o infinito os frutos de sua fé, coragem e amor!

domingo, 9 de maio de 2010

HOJE É DIA DAS MÃES! e "eu não estou nem aí..."


Hoje é dia das mães e eu "não estou nem aí"!

Acordei com preguiça, mas com vontade de escrever. "Não estou nem aí" se você não está com vontade de ler.

Não arrumei a cama, só fiz meu café. Passei bastante manteiga no pão, deixei a louça para alguém lavar amanhã.

Minha filha vai passar o dia comigo, e o filho, que mora em Sampa, vai lembrar de me telefonar.

Vou almoçar feijoada na casa da minha irmã. Vou levar um Boticário para a minha mãe.

Vou à igreja e lá vai ter homenagem, como todos os anos tem.

Mas não estou mais nem aí, para essas coisas.

Vou ganhar presente, mas nem precisa. O que eu queria já ganhei.

Sou mãe! Sou mãe porque meus filhos me fizeram mãe!

E são eles que merecem hoje a minha homenagem.

Não estou nem aí, se você quer ouvir hoje as minhas "corujices". Mas eu vou contar assim mesmo. Afinal, hoje é meu dia, o dia das mães! E "eu não estou nem aí" para o que os outros vão pensar ou deixar de pensar de mim.

Ao menos um dia no ano, mãe tem o direito de fazer o que quiser.

E a coisa que mãe mais gosta de fazer é falar com orgulho dos filhos, mesmo que eles achem que isso "é pagar mico", e que todo mundo fique achando que é corujice.

Dizem que a coruja acha bonito o filho, mesmo que ele seja feio. Não sei se filho de coruja é feio. Nunca vi um. Mas a coruja é um bicho que eu gosto. Com aqueles olhos arregalados, parece que presta atenção no mundo. Fica sempre atenta, esperando a presa chegar. Não é à toa que passa essa imagem de sabedoria. Atenção, estratégia, falar pouco e ouvir muito.

Gosto de dizer que eu não sou "mãe coruja". Meus filhos é que são bons mesmo.

Não estou nem aí se você vai ficar com inveja de mim, e vai me achar a mulher mais exibida do mundo.

E para provar isso, aqui vai a minha homenagem aos meus dois filhos, Luis Henrique e Ednea. E ao meu genro querido Ricardo e a minha norinha Carol!

Não preciso nem falar... já está publicado!

Luis Henrique e Carol       e a Escola Politeia       

Ednea (Guará Ednea Fagundes)  e   Ricardo (Guará - Ricardo Berlim)   e a Escola de Música - BSB Musical 


P.S.Ganhei um Wireless e uma almofadinha para usar o notebook em qualquer lugar da minha casa! ADOREI!!!

domingo, 11 de abril de 2010

A VIRADA DA VIDA




A VIRADA DA VIDA

Tita, 50 anos

Menina de sete anos: feliz, bonita, faceira...

É apenas este, o trecho de que me lembro de uma das poesias que Dona Maria Aldina me fazia recitar no Ginásio, que naquele tempo era Moderno. Era uma poesia em homenagem ao sétimo aniversário de Brasília.

Era o ano de 1967. Foi o ano em que aqui chegou, também aos sete anos, uma menina feliz, bonita e faceira...

Ela chegou saltitante, sempre muito viva, alegre e curiosa... inteligente, como sempre foi! De curtos cabelos lisos. Os olhos, duas bolitas bem vivas, naquele rostinho rechonchudo.

Caçula de quatro filhos. A mãe, pedagoga, o pai, deputado, do Rio Grande do Sul.

Tita, como lhe chamam os seus, cresceu em Brasília e com Brasília, correndo e brincando nos jardins da 114 sul.

Era amiga da Marcinha, minha irmã, com quem brincava e brigava... e lá ia eu apaziguar as duas, até hoje sempre amigas.

Tita cresceu e se fez mulher! Independente, escolheu ser professora, escolheu se casar, escolheu ser mãe da Cacá!

Brasília, cresceu... e como cresceu! Se tornou politicamente independente, escolheu deputados e governadores.

Brasília, mulher independente, resolveu chegar aos 50 anos sem engolir desaforos: botou pra correr aquela gente que chegou achando que podia fazer o que quisesse.

Ana Cecília, a Tita, resolveu chegar aos 50 de alma lavada: reformou sua vida, sua casa! Reformou a família e suas relações. Ana Cecília deu a grande virada de sua vida!

Ana Cecília optou pela vida, pela felicidade e prazer de viver sem sofrimentos desnecessários.

Tem sido assim na vida de muitas mulheres na faixa dos 40 a 50 anos: resolvem dar uma grande virada em sua vida!

São mulheres conscientes de seu papel na sociedade e na família. São mulheres responsáveis, que deixam de culpar ao outro pelas suas incertezas, e passam a ter a certeza de poder controlar a sua própria vida.

São mulheres que deixaram a primitiva Eva e a sedutora Helena para trás. São mulheres que assumem a Sofia, com inteligência e sabedoria!

São mães, filhas, irmãs... podem ser namoradas e esposas... mas passam a fazer tudo de um jeito diferente. É a mágica dos 50, a metanoia, a virada do Cabo da Boa Esperança, a virada da vida!

Minha homenagem à Cecília, à Susana, e a todas as mulheres que neste ano fazem 50.

São as que nasceram em 60, as que inauguraram aquela década. A década da grande virada na vida das mulheres a partir daquela geração!

Sejam bem-vindas as marcas do tempo e do vento. As marcas das tempestades e trovoadas da vida da gente!

Sejam bem-vindos os óculos de grau. Seja bem-vindo o “não estar nem aí” para o que o outro pensa ou deixa de pensar!

Porque o mais importante é saber o que se quer!

É ter objetivos na vida, é saber a que veio neste mundo.

É ser consciente e cumprir a nossa missão!

Perante o Criador e toda a sua Criação!



Dulcinéa Cassis
10.04.2010

sábado, 20 de março de 2010

"COMER E COÇAR, É SÓ COMEÇAR..."

Desde que me entendo por gente, eu ouvia minha mãe falando esse ditado.

Era nas horas das refeições, quando um de nós não queria comer... aí ela falava: "Comer e coçar, é só começar"... Parece que deu certo, pois atualmente ela não tem nenhum filho ou filha que sejam magros.... todos aprenderam a lição! Agora, o tal ditado é usado para o seu efeito contrário: se comer e coçar é só começar, para fazer dieta, ficará mais fácil evitar o primeiro pedaço daquilo que não podemos comer...

Mas no decorrer da vida aprendi que a fórmula serve também para outras atividades. Falar, por exemplo. Há pessoas que são muito introvertidas e têm dificuldade em se abrir. Quando ousam experimentar a falar sobre si, perdem o medo e, sentindo-se bem melhores, passam a abrir-se mais, falar mais sobre si e ampliar sua rede de relacionamentos.

A regra também serve para gastar ou economizar. Quando se começa a gastar mais do que se pode, a pessoa começa a enrolar-se em dívidas e depois fica difícil parar. Quando resolve economizar, no entanto, na medida em que percebe as suas reservas aumentando, estimula-se a poupar mais e mais...

Beber, jogar e usar drogas também é outro exemplo. Nesses casos, o efeito dessa regra "É só começar..." é potencializado, pelo alto grau de prazer que essas atividades proporcionam.

Mas há outras atividades em que podemos usar essa regra do "só começar" de forma positiva.

Praticar exercícios físicos, por exemplo. No início, dá aquela preguiça... mas se fazemos um esforço para vencê-la e iniciamos alguma prática, logo passamos a nos sentir bem melhores e, pouco tempo depois, nosso organismo passa a sentir a necessidade do exercício físico.

Lembro-me também da dificuldade que eu tinha para escrever. Precisava elaborar uma monografia, mas parecia que as ideias eram tantas que ficavam emperradas na cabeça e não conseguiam descer para o papel. Felizmente tive uma boa orientadora que me sugeriu escrever de forma solta, sem preocupar-me com a forma ou o conteúdo. Sem criticar nada daquilo que eu escrevia.

Na época, o acesso aos poucos PC s disponíveis era complicado. O trabalho era feito à lápis ou caneta. Lembro-me que escrevi inúmeras páginas, um calhamaço de papel, muitos rascunhos desordenados. Depois passamos à fase de organização dos conteúdos, até que surgiu o esboço e, finalmente, a monografia.

Hoje com a tecnologia, nosso trabalho fica ainda muito mais fácil. Com ou sem ideia, ao sentar-me diante do computador, é só lembrar da regra: "comer, coçar e escrever... é só começar"!

E é dessa forma, com esta crônica, que volto a, depois de quase dois meses longe do blog, recomeçar a escrever...

sábado, 30 de janeiro de 2010

O VAZIO QUE FICOU...

O vazio que ficou lhe fez companhia!

Depois de uma separação ou morte de uma pessoa querida, a sensação que me relatam é de um vazio. Fica um vazio na vida daquela pessoa.

As atividades que faziam juntos tornam-se um pesadelo, pela ausência do outro. Tudo lembra aquela presença. Tudo o faz reportar àqueles momentos de outrora felicidade.

Mesmo que seja uma felicidade do tipo: "eu era feliz e não sabia", quem fica só, ressente-se da ausência do outro. Mesmo que não tenha sido um relacionamento dos que se pode dizer que são felizes, a ausência do outro deixa um vazio.

A falta da companhia é sentida. Não só dos momentos bons, daqueles momentos em que, só de olhar um para o outro, ou só de ficar perto, mesmo em silêncio, se tem a certeza de que se é amado. Se tem a plena certeza de que, mesmo sabendo que essa vida é finita e os relacionamentos não são eternos, sempre terão um ao outro.

Dos momentos ruins, também a falta é sentida. Fica o vazio de não ter com quem brigar, de não ter com quem discutir, de não ter de quem discordar. Sim, sentimos falta do outro que nos instiga, que nos contrapõe, que nos faz pensar, que nos obriga a lembrar de que nem sempre temos razão, de que não somos deuses!

E é o vazio deixado pelo outro que, muitas vezes, faz companhia! É o lamento da ausência que substitui a presença. É a mágoa sempre lembrada que preenche os pensamentos.

Se a presença do outro supre a necessidade de nos sentirmos vivos, a sua ausência nos lembra, pela dor, que ainda mantemos a capacidade de sentir. Imagino que sequelados que não sentem o próprio corpo gostariam de senti-lo, mesmo que para poder sentir a dor.

É no remoer as mágoas, feridas que às vezes demoram a cicatrizar, que, muitas vezes, se encontra companhia. Ao invés de elaborar a perda, despedir-se do passado e abrir-se para novas experiências e relacionamentos, prefere a companhia da dor.

Essa, a dor, é fiel! Mesmo que, quando a mandamos embora, ela às vezes teime em ficar!

A dor só nos deixa quando permitimos que ela vá embora!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FINALMENTE, SÓ!

Depois de tantos anos de convivência...

Dormindo juntos na mesma cama, fazendo juntos as refeições. Assistindo juntos os mesmos filmes, conversando juntos sobre os mesmos assuntos. Escolhendo juntos os mesmos programas, encontrando juntos os mesmos amigos. Gostando juntos do mesmo sexo!

Um dia, o que era junto se separou. Quem dormia junto, já não dorme mais. Os almoços e jantares passaram a ser separados. Os amigos em comum já não encontravam mais. O cinema agora era separado. Cada um na sua casa. Cada um no seu espaço. Cada um na sua...

No início, das sobras do amor, sobrou a lembrança. Ficou o vazio e a saudade. Ficou a vontade de rever, mas também o medo de voltar a ser o que já não era mais. Sobrou a sobra da pipoca do filme que não assistiu. Sobrou a falta do amigo em comum.

Sobrou a saudade do que já deixara de existir antes de acabar o restinho do que ainda havia.

Quase um ano depois, pela primeira vez, começa a sentir-se só...

Até então, o vazio que ficara lhe fizera companhia!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LIMÃO OU LIMONADA?

Ligar a TV hoje em dia é ouvir notícias sobre os desabamentos e outras consequências de desastres naturais
.
Vemos as imagens de pessoas se afogando, de casas sendo levadas, de pessoas que morrem, de consequências de terremotos. A televisão abre as portas de nossa casa, trazendo notícias de outros que sofrem, trazendo sua angústia, seu desespero.


Fico sensibilizada, especialmente ao ouvir pessoas humildes com falas conformadas. Alguns se desesperam, mas há aqueles que dizem: “fazer o que? Estamos com vida, vamos construir tudo outra vez!”


Há momentos na vida em que nos sentimos desesperançosos!


Pode ser uma doença grave, a morte de uma pessoa querida ou uma grande perda financeira. Às vezes, a descoberta de uma traição no casamento. Ou, o que dói muito, a dor de um filho. Descobrir que um filho está fazendo uso de drogas, ou até mesmo ser chamado pela escola do filho porque ele vai mal nos estudos, é tristeza certa.

Outras vezes, o rompimento de uma relação amorosa ou a perda de um emprego também são fatores que nos desestabilizam.


Há também situações em que o mal  chega devagar: pode ser o afundamento em dívidas, ou uma doença pessoal ou familiar que vai se agravando.


Em todas essas situações, é comum, e é até esperado, que as pessoas fiquem tristes, desanimadas. Parece que colocam óculos escuros que filtram toda a sua percepção de mundo. O que antes podia ser considerado esperado e até normal, diante do quadro de desesperança, passa a ser visto como uma desgraça. Um problema influencia e potencializa negativamente todas as outras situações da vida.


Uma atitude muito comum que chega à clínica psicológica, é o sentimento de culpa. As pessoas se perguntam: o que foi que eu fiz para que acontecesse isso? Principalmente quando se trata de problemas com os filhos, é comum os pais se questionarem e acharem que têm responsabilidade pelo que está ocorrendo. Muitas vezes essa atitude é decorrente das suas próprias experiências negativas da infância.


A mensagem que foi recebida na infância é: “você fez coisas erradas, agora vai sofrer o castigo”. A lógica era: Você errou, será castigado e vai sofrer com esse castigo. Ou seja: o sofrimento foi causado pelo castigo recebido.


Facilmente invertemos e generalizamos essa percepção, traduzindo, inconscientemente, para: “todo o sofrimento é um castigo, todo o sofrimento é causado por alguma coisa errada que fizemos”.


Se tomarmos distância do sofrimento para analisar a situação, veremos que nem todo o sofrimento é decorrente de um “castigo” recebido. Muitas vezes pode ser responsabilidade (ou irresponsabilidade) de outro, ou até de toda uma comunidade, como, muitas vezes pode ser a causa de catástrofes. Uma rua inundada pode ser ocasionada por sujeira nos bueiros ou porque aquele não era um local para serem construídas casas.


Surge, então, o questionamento: de quem é a culpa? Aquelas pessoas precisavam de um local para morar, não havia políticas públicas que garantissem moradia para todos etc. Criamos uma rede que vai desembocar em algum culpado. Dessa forma encontramos à quem reclamar, podemos acionar a justiça ou participar de manifestações de protesto que, mesmo que não resolvam o problema de imediato, tem, sobre os reclamantes, um efeito catártico, alivia a angústia. A angústia de não entender a razão do sofrimento.


Nem todo o sofrimento tem uma causa específica. Nem todo o sofrimento é um castigo. Mas podemos transformá-lo numa fonte de crescimento. Não defendo a idéia de que é “bom sofrer para crescer”, pois essa atitude teria uma conotação masoquista. Ninguém deve se alegrar com o sofrimento!


Mas encontrar um sentido para a vida, ajuda a aliviar o sofrimento. A pessoa que, por exemplo,  faz de seu sofrimento um motivo para abraçar uma causa para ajudar solidariamente outras pessoas a enfrentarem suas próprias situações de sofrimento, encontra um sentido no seu próprio sofrimento. Encontra um sentido para a sua vida.


Viktor Frankl, médico e psiquiatra austríaco, criou a Logoterapia a partir do sofrimento que passou nos campos de concentração. Olhou ao redor, viu o sofrimento de tantas outras pessoas e passou a ajudá-las. Dessa forma, aliviou o seu próprio sofrimento, através do sentido que encontrou através dele.


Não sei se é possível entender o sofrimento, mas gosto de pensar que recebemos de presente da vida um quebra-cabeça sem o modelo para montá-lo. Vamos tentando encaixar as peças... No início fica difícil identificar a gravura, mas do meio para o final já é possível visualizá-la e, a partir daí, fica mais fácil completá-la. Talvez seja por isso que, com o passar do tempo, mesmo que não nos acostumemos com as situações de sofrimento, ao menos nos sentimos mais fortalecidos para enfrentá-lo. 

Elaborando as situações e aprendendo com elas, sabemos que podemos transformar aquele limão numa leve e refrescante limonada. 

Basta colocar água e adoçar!