quinta-feira, 27 de novembro de 2008

“EM TUDO DAI GRAÇAS”

Hoje é Dia de Ação de Graças!

Aqui no Brasil quase não se comemora o Dia de Ação de Graças! Seria por que o comércio não tem interesse?

Com o Natal é diferente. Quando termina a semana da criança, o comércio já prepara as vitrines para o Natal. Dessa forma ninguém se esquece, pois as crianças já começam a fazer suas listas com tudo aquilo que pensam que precisam.

Nos tempos de antigamente, sem querer ser saudosista, tudo era mais simples. Até os presentes que as crianças pediam eram mais baratos.

Hoje, com tantas atrações tecnológicas, fica difícil fugir do desejo de ter tudo aquilo que sai de novidade. Mal compramos um celular último tipo e é lançado um novo com mais recursos. São os brinquedos de gente grande: smartphones, notebooks, câmeras digitais, TVs LCD e por aí vai....

As necessidades passam a ser criadas a partir do desejo de obtê-las e não das condições para que elas serviriam. Quando queremos ter aquele "brinquedo novo", nós, adultos, muitas vezes, sem ter consciência disso, estamos compensando as nossas frustrações pelos brinquedos desejados que não ganhamos quando éramos crianças. E aí, como "agora eu posso", vão se presenteando com cada novidade que aparece.

Bom, se a renda permite, ótimo! Por que não? O problema é que existe uma grande parte da população de classe média que, não resistindo às tentações, recorre à "fada madrinha", ou ao "gênio da lâmpada": os cartões de crédito e os cheques pré-datados. E aí, entrando no cheque especial, ou sem conseguir quitar seu saldo mensal, vão deixando acumular dívidas, pagando juros altos e cada vez se enrolando mais. Chega a um ponto, quando se percebe que está completamente enrolado, para não enfrentar o problema de frente, nem fazem mais as contas e pensam assim: já que eu estou endividado mesmo, que diferença faz ficar mais endividado ainda?

Esse tem sido um mal que tem levado muita gente à depressão, aos conflitos familiares e às vezes até mesmo às separações. Pessoas que não conseguem controlar os seus orçamentos.

Quem sabe, então, ao invés de comemorarmos com tanta intensidade o Natal, passemos a enfatizar mais o Dia de Ação de Graças: vamos agradecer por tudo que temos!

Pela vida, pela saúde, pela natureza, pelos amigos. Pelo alimento a cada dia - quantos passam fome? - Pela nossa casa, mesmo não sendo aquela dos sonhos - quantos não tem teto? - Pelo carro, mesmo não sendo do ano nem o último modelo - quantos andam a pé? - Pelo celular, mesmo que não seja o modelo mais avançado - lembra de quando não existia celular? - Pelo computador, mesmo que seja lento - lembra do tempo da carta e da máquina de escrever? E assim podemos ir agradecendo cada uma das pequenas coisas que às vezes achamos que não são importantes....

Essa pode ser uma boa forma de começarmos a nos sentir mais satisfeitos. Um antídoto para os nossos desejos frustrados e a insatisfação que se traz desde a infância.

Quem sabe, dessa forma, se consiga comprar menos, endividar-se menos e, certamente, ser mais feliz!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

NADA ACONTECE POR ACASO...


A história começou assim: no início deste blog, um dia publiquei uma crônica intitulada "Cada um carregue (somente) sua mochila". Foi uma crônica que marcou. Muitos leitores comentam até hoje sobre a metáfora. Muita gente passou a ficar mais atenta a seu processo, a não ficar carregando aquilo que não é seu. Ou seja, a não ficar se preocupando com coisas com as quais não precisa se preocupar. Não ir além de seu papel. Quando fazemos mais do que nos cabe nesta vida, acabamos deixando o outro acomodado, tiramos a oportunidade do outro cuidar de suas próprias coisas. Impedimos o outro de crescer. Como eu utilizei o exemplo do Caminho de Santiago, pesquisei na web, encontrei e publiquei uma foto de um rapaz no tal Caminho, com a sua mochila nas costas.

Pois bem! Ontem recebi um e-mail que muito me alegrou: o dono da foto, navegando na internet encontrou no meu blog a foto que ele havia tirado quando fez a Caminhada. Ele me escreveu dizendo que ficou contente pela publicação. E eu, então, fiquei mais contente ainda... que mundo pequeno! Que mundo interligado, globalizado. Trocamos alguns e-mails e eu fiquei mais feliz ainda em conhecer a história do Marcio Gaziro, que é fotógrafo e mora em São Paulo. As fotos do Marcio são lindíssimas!!! Ele consegue fotografar a alma dos caminhos e monumentos, mostrando a vida que existe em pedras e construções, coisas que só vê quem entende dessas coisas.... E, como nada, nada mesmo, acontece por acaso, na troca de e-mails ele me contou a sua história, que publico aqui.

"Bom, Dulcinéa o personagem na fotografia não sou eu e sim meu amigo Carlos; vou enviar uma foto minha para vc me conhecer.


Dulcinéa, não sei explicar muito bem o que me levou a fazer o caminho em 1998, talvez o fato de ter perdido o meu emprego ou por estar querendo viajar, me aventurar, coisas assim (quando se tem 25 anos)... na verdade eu queria ir para Machu Picchu e acabei percorrendo o Caminho (eu fui sozinho).

Foi uma experiência fantástica; pude conhecer muitas pessoas de outras culturas, ver a história ao vivo, sentir todas as emoções que uma pessoa possa sentir, me divertir muito, muito mesmo, tomar muito vinho e cerveja e viajar leve, muito leve. Quando cheguei à cidade de Santiago senti algo estranho, era como se o meu corpo tivesse chegado e completado a jornada, mas minha alma ainda estivesse por vir; levei algum tempo para assimilar essa sensação, já no Brasil.

Depois do caminho comecei a fazer tudo que tinha vontade, fotografar, escalar montanhas íngremes etc... e realizei o que era meu sonho de criança: conhecer Machu Picchu.

Em 1999 fui trabalhar no Consulado Americano, que me deu boas condições financeiras;
acredito que em junho ou julho de 2000, não me lembro bem, o caminho de Santiago começou a aparecer para mim. Explico melhor: por onde eu ia sempre eu via algo
relacionado ao caminho (livros, setas amarelas, camisetas etc) ou alguém vinha me falar do caminho, e isso aconteceu por cerca de quatro meses, e quando eu decidi realizar o caminho novamente, os sinais pararam.

Eu conheci o Carlos (o cara da foto que vc publicou) em novembro de 2000, em uma escalada que eu realizei, e ele decidiu fazer o caminho comigo. Como iria viajar com o Carlos, tive que adiantar um dia no meu embarque para a Espanha; eu iria viajar em uma sexta à noite e acabei viajando no sábado à tarde, fato que mudou minha peregrinação.

Eu e o meu amigo começamos a caminhada em uma pequena cidade de nome Saint Jean Pied de Port e chegamos em Roncesvalles; em Roncesvalles conheci uma brasileira de nome Márri, que havia acabado de chegar de Pamplona. Se o Carlos não tivesse viajado comigo, eu não teria conhecido a bela Marri, porque eu estaria um dia à frente; caminhei com a Márri durante alguns dias, nós nos apaixonamos loucamente um pelo outro e nos entregamos intensamente a esse amor.

Então, Dulcinéa, eu não caminhei pelos campos de trigo da Espanha e sim flutuei pelo caminho, assim como ela; foi a experiência mais intensa que eu vivi, era como só existíssemos eu e ela no caminho e cada um carregava a sua própria mochila. Chegamos em Santiago juntos e eu voltei primeiro para São Paulo. A separação foi muito difícil, foi o dia mais difícil da minha vida; Márri voltou para o Brasil uma semana depois e nós nos encontramos, uma semana depois, a chama do nosso amor se acendeu novamente, e passados 7 anos eu e a bela Márri continuamos juntos e essa peregrina cada dia que passa fica mais linda.

Dulcinéa, você perguntou se o caminho fez diferença em minha vida? Em 1998 ele me trouxe a liberdade; em 2001, o Amor!"



Que linda história!!!!!

Obrigada, Marcio, por compartilhá-la conosco!

Os caminhos da alma são assim mesmo... as coisas acontecem do jeito que têm que acontecer....


Foto: Marcio Gaziro no Caminho de Santiago

A PRIMA VERA SE FOI

Outro dia, num desses almoços de família, minha mãe, que já passou dos 80, falou assim, na maior naturalidade, como se estivesse contando que a empregada foi lá na esquina: "a sua prima Vera morreu..."

A notícia bateu no meu estômago, quicou, foi até à cabeça, desceu, quicou no joelho e foi se alojar no meu coração. Meu coração não se conteve e pediu ajuda para os meus olhos que começaram a chorar...

Minha mãe, então, percebendo o impacto daquela notícia, que ela achava sem importância para mim, comentou: "ah!!! ela tinha a sua idade, né?"

Eu ando achando que, para quem já está no início da fila de entrada pro céu, essas notícias sobre morte vão ficando tão freqüentes que, de tão corriqueiras, vão ficando banais... "-Sabe quem morreu? Fulano..." - "Ah é?... de que?".... Bom, dependendo de quem deu a notícia, a explicação é detalhada, contando tim-tim-por-tim-tim desde os primeiros sintomas até a hora em que o coração parou de bater. Há um sentimento de comoção, sim, mas parece que de conformismo também. Parece até que essas pessoas que já estão se preparando para sua hora já sabem que não vai demorar muito para encontrarem os outros por lá....

Deixa eu "limpar a barra" da minha mãe, afinal ela não é tão insensível como poderia parecer! Acontece que eu e a prima Vera tivemos muito pouco contato. Eu não exagero se disser que nós duas, na realidade, só nos vimos no máximo alguns dias durante duas férias na casa dos nossos avós. E isso foi lá pelos nossos nove ou dez anos de idade. Depois dessa idade nunca mais a gente se viu. Nunca mais a gente se encontrou. Às vezes a minha mãe, quando ficava sabendo de alguma coisa, ia repassando as notícias da prima Vera para mim. Um dia que ela se casara, depois que se separou, acho que até tinha uma filha... mas, para ser sincera, às notícias da prima Vera adulta eu nunca prestei muita atenção. Era como se fosse uma pessoa desconhecida para mim.

Acontece, porém, que a prima Vera criança, essa sim ficou muito viva na minha vida. Até hoje, quando eu estouro pipocas, eu gosto de salpicá-las com molho inglês. Foi a prima Vera quem me ensinou essa dica. Fica uma delícia! Aí, então, sempre que estouro pipocas em casa e salpico com molho inglês, eu me lembro da prima Vera. Lembro das nossas demoradas voltas no quarteirão, lá na cidadezinha do interior de São Paulo... a gente ia "dar uma volta no quarteirão" para, longe das vistas das nossas mães, conversarmos sobre coisas que, naquela época, eram proibidas às crianças de dez anos conversarem e que, hoje em dia, as crianças de três anos já assistem nas novelas da televisão.

Era uma idade tão linda, na inocência da ilusão e da curiosidade! Um dia, eu me lembro, estávamos nós quatro: eu, a Vera, a Heleninha e a Cintia, priminhas um pouco mais novas, quando a Leninha perguntou: "a mãe de vocês já falou sobre o sutiã?". Eu, mais acanhada, fiquei calada, mas a prima Vera, que sabia das coisas, deu um sorriso maroto, que eu logo entendi... a gente, que já tinha dez anos, já sabia de mais coisas. A gente já sabia sobre menstruação: um "status" para as meninas de nosso tempo.

Mas... a prima Vera se foi!

Lembrei dessas histórias hoje, quando estava estourando pipocas para acompanhar um DVD. Peguei então o notebook e comecei a escrever essas minhas lembranças...

As lembranças da minha infância, da minha adolescência, da PRIMAVERA da minha vida que se foi...

FELICIDADE "AO QUADRADO"

Ao receber a notícia, ela chorou!

Não era um choro de tristeza! Não era um choro de alegria!

O filho anunciara que ia se casar.

Para ela, mais do que novidade, era um desejo. Já esperara muito por aquela notícia, mas naquele dia a notícia a surpreendeu.

Era um misto de surpresa pois, de tanto esperar, já havia desistido de esperar. Às vezes, quando a espera parece longa, é melhor parar de esperar. É melhor desistir daquilo que se espera. É melhor deixar o destino decidir.

O seu filho iria se casar! O filho adulto já saíra de casa há muitos anos... não era a separação o motivo do choro. Muitas mães, e não são poucas, ressentem-se ao se casarem os filhos homens. Esquecem-se que o cordão já se rompeu no parto e que há muito o leite secou. Daí, talvez, a folclórica implicância de sogras e noras, pela disputa do filho/homem. O filho, quando já é homem, precisa deixar o seio materno para se entregar ao seio da mulher amada. Não o seio do alimento, mas também o seio do prazer.

O choro daquela mãe, cujo filho anunciara que iria se casar, era um choro diferente de alegria ou tristeza: era um choro de felicidade!

Felicidade de saber que tudo ia bem! De ver o fruto amadurecer! O fruto da árvore que plantou!

É um sentimento de saber que as coisas acontecem como e quando têm que acontecer. De saber que tudo tem o seu tempo e a sua hora.

É um sentimento de completude e realização.

É a felicidade de saber que o outro está feliz!

Tem gente que não consegue ficar feliz porque o outro está feliz, mesmo que esse outro seja seu filho ou filha.

Existem mães e pais que sentem ciúmes da felicidade dos filhos. Por não conseguirem se realizar como pessoas, com seus próprios objetivos, às vezes projetam seus desejos nos filhos. Querem que seus filhos sejam felizes por eles.

Às vezes, e isso é pior, boicotam a felicidade dos filhos. Querem para si mais atenção do que lhes seria necessária. Querem exigir que seus filhos devolvam o amor recebido, como se amor fosse moeda de troca. "Eu amei você, eu cuidei de você, agora você TEM que cuidar de mim". Não deixam para os filhos o espaço necessário para viverem suas próprias vidas. E aí começa o ritual de obrigações familiares: tem o dia certo de almoçar na casa dos pais dele, outro dia, na casa dos pais dela... se os pais de ambos são separados, então, como fica? E Natal? Pode parecer simples, mas não é não... Na clínica psicológica, adivinha qual é o tema mais recorrente na semana de Natal? O que seria para ser festa e alegria passa a ser obrigação, disputa, desunião.

Amor de filhos adultos para com os pais é um amor diferente: é um amor de gratidão, de troca, de companheirismo! Tem que ser livre e solto, tem que dar espaço para a opção. Se vira obrigação, deixa de ter valor, deixa de ter alegria... perde a graça!

Mas há um sentimento difícil de explicar: é o de sentir-se feliz e realizado por si mesmo. Pela sua própria vida, independentemente da realização através dos filhos.

E aí, quando a pessoa se sente assim, feliz por si mesma, ao ver a felicidade dos filhos tem sua felicidade potencializada!

E isso não dá para descrever... só consegue entender e sentir quem consegue dessa forma viver!