sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O DIA EM QUE MEU IRMÃO SAIU DE CASA

As lembranças são meio nebulosas para mim. Lembro-me de uma cena: em meio a panfletos impressos no mimeógrafo a álcool, meu irmão mais velho, ansioso, andava de um lado para outro.
Depois ele sumiu e nunca mais voltou. Voltou para Brasília, voltou para a vida fora da clandestinidade. Mas nunca mais voltou para a minha vida de adolescente. Ele era meu irmão mais velho; hoje eu sei que de velho não tinha nada. Mas para quem é irmã mais nova, oito anos mais nova, ele era como um herói. Brigava com outros rapazes, se algum mexia comigo, me levava ao cinema livre, quando os mais velhos não queriam assistir "filme de criança".
Depois fiquei sabendo que ele não era só o meu herói. Ele foi herói da luta contra a ditadura. Ele foi herói do Brasil!
Hoje faz quarenta anos que a UnB foi invadida! Não foi só a UnB que foi invadida. Os lares foram invadidos, a privacidade das pessoas foi invadida. A minha alma foi invadida e de lá arrancaram a alegria, a inocência e a esperança.
Ficou uma cicatriz que de vez em quando ainda se abre e dói. Não uma dor tão dolorida como a de outrora, mas uma dor de lembrança da dor. Uma dor pela criança ferida. Uma dor pelo tempo perdido. Uma dor pela inconformidade da violência sofrida. Não só a minha dor, mas a dor que fez chorarem tantas mães, tantos pais, tantos filhos, cônjuges, amigos e, como eu, irmãos. Uma dor que fez chorar o Brasil.
Uma dor pelos outros povos que choram também. Uma dor pelos tempos de guerra, mesmo que não sejam aqui. Uma dor pelo autoritarismo mascarado pela festa. Uma dor pela perseguição das diferenças. Uma dor causada por quem se acha melhor dos que os outros e com mais direito de ter mais. Por quem acha que pode tirar do outro o que é de todos. Por quem pensa que é dono de tudo, dono da verdade, dono do mundo!
Que a lembrança da história triste possa transformar as mentes e os corações, possa trazer consciência universal. Possa trazer Amor e Paz!
Minha homenagem, nesta data, a todos os estudantes que foram perseguidos na ocupação pelos militares da Universidade de Brasília, em 29.08.1968. Mas, especialmente, minha homenagem póstuma ao meu irmão, Paulo Sérgio Ramos Cassis (1946 – 2005), um dos sete estudantes que estavam sendo “caçados” naquele dia.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ALMAS GEMEAS

Um dos desejos mais freqüentes e universais é a busca do encontrar a “Alma Gêmea”. Não faltam livros escritos sobre o assunto. É um desejo que está arraigado no inconsciente das pessoas.

Há pessoas que acreditam realmente que as almas percorrem várias vidas e reencontram sua alma gêmea. Até já houve uma novela com este argumento.

Mas a grande maioria, mesmo sem ter consciência, procura alguém que preencha totalmente todos os requisitos em relação aos seus gostos, preferências, costumes, crenças, raça, lazer, objetivos de vida etc.

De fato, é muito mais fácil conviver com pessoas com quem nos identificamos. Um atleta, por exemplo, teria, em princípio, dificuldades em conviver com uma pessoa que detestasse esportes. Uma pessoa muito religiosa teria dificuldades em conviver com um agnóstico. Pessoas muito apegadas a sua própria religião, se pertencerem a grupos religiosos diferentes, teriam dificuldades também de convivência em comum. Uma pessoa que não dispense semanalmente o churrasco regado a cerveja, encontraria problemas em compartilhar o restaurante preferido com seu companheiro (a) vegetariano radical. Em relação à posição política, uma pessoa de extrema esquerda encontraria obstáculos na convivência com uma pessoa de extrema direita.

Outro desejo é encontrar a “outra metade da laranja”. É aquela sensação de ser uma pessoa incompleta, que necessita completar-se com a presença e convivência de outra. É a certeza de que não somos pessoas completas e só seríamos felizes se estivermos casados com outra pessoa que nos complete.

O que existe de mito e realidade nessas buscas e sentimentos?

Este é um assunto controverso, mas proponho uma reflexão à luz da psicologia analítica.

Quando falamos em Almas Gêmeas, estamos falando em afinidades. Quando nos referimos à “outra metade da laranja”, estamos nos referindo a perfis complementares.

Jung propõe um modelo de perfil psicológico, baseado em quatro funções e duas atitudes. São as atitudes: introvertida e extrovertida. E as funções: Pensamento X Sentimento e Intuição X Sensação. Não vou entrar em detalhes sobre a tipologia de Jung. Ao leitor que desejar aprofundar-se no assunto existe bibliografia a respeito. O que desejo ressaltar é que se busca inconscientemente o seu par naquele que é diferente, naquele que tem uma atitude e funções opostas à sua. Por exemplo, Uma pessoa que seja extrovertida e cuja função principal seja sentimento, tenderá a se sentir atraída por uma pessoa introvertida, cuja função principal seja pensamento.

Com o processo de individuação, vamos desenvolvendo as funções opostas e tendemos a inverter a atitude (de introvertida para extrovertida e vice-versa). Esse processo nos faz pessoas mais completas, diminuindo a necessidade de buscar o outro como um complemento de si mesmo. Da mesma forma ocorre com os arquétipos Animus e Anima. A alma do homem, para a psicologia analítica, é feminina – anima, enquanto a alma da mulher é masculina – animus. Também com o processo de individuação, a integração de animus/anima diminui a necessidade de buscar no outro o nosso lado feminino/masculino.

Quanto à “Alma Gêmea”, que reflete o nosso desejo de estar com quem nos identificamos pelos nossos interesses, gostos e afinidades, é uma forma de buscar um/uma companheiro/a. Nossos interesses nos falam dos nossos objetivos de vida, objetivos existenciais. A religião, a posição política e os valores éticos e morais, eu incluiria nesta categoria. Na minha opinião, é importante para o casal a identificação de interesses. Os interesses nos levam à definição dos grupos sociais a que pertencemos. Geralmente as pessoas se incluem nos grupos sociais e participam das atividades sociais ligadas à religião, à profissão, ao partido político, aos grupos ativistas etc. Nada mais desagradável do que sentir-se obrigado a participar de um evento social onde não nos sentimos incluídos. Onde se conversam sobre assuntos de que não gostamos ou dos quais não entendemos.

Em relação ao lazer, eu incluiria a participação em eventos culturais, a gastronomia, o encontro com os amigos. Tudo aquilo que nos dá prazer. Tudo aquilo que eu chamaria de “brincadeira de criança grande”. Assim como, quando éramos crianças, gostávamos de brincar com quem gostava das mesmas brincadeiras, enquanto adultos gostamos de estar, nos momentos de lazer, com quem gosta das mesmas atividades de que gostamos. Nenhuma criança brinca daquilo com o que não gosta de brincar. Brincamos sem obrigação. Brincamos por brincar, porque é gostoso, porque queremos nos alegrar.

Mas acima de tudo isso, existe algo inexplicável até agora. Algo que a ciência tenta, mas não consegue explicar. Algo que simplesmente atraem duas pessoas, que se olham nos olhos e querem estar juntos. Sentem atração mútua. Sentem atração sexual. É aquilo que se diz, “uma coisa de pele, de alma”. E quando isso acontece... não importa o gênero, não importa a raça, não importa a nacionalidade, nem religião, nem partido, nem profissão, nem interesses.... Isso não dá para explicar. Não se encontra com a razão. Mas se encontra com o coração. Daí é que se diz que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

CICLO JUNGUIANO DE PALESTRAS



SETEMBRO

Mesa Redonda

O FENÔMENO RELIGIOSO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Palestrantes: Itamar R. Paulino e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 20.09.2008 <> 09:30-12:00


ITAMAR RODRIGUES PAULINO - LP 9601707/ DEMEC - MG
- Graduado em Pedagogia
- Graduado em Filosofia
- Graduado em Teologia
- Mestre em Filosofia

MOACIR RODRIGUES DOS SANTOS - CRP 01/0220
- Especialista em Psicologia Clínica
- Graduado em Teologia - Pós-graduado em Psicologia Superior
- Psicoterapeuta didata pela SOBRAP
- Professor de psicologia do UniCEUB



OUTUBRO

Tema: O DIÁLOGO MÍTICO ENTRE O ORIENTE E O OCIDENTE

Palestrantes: Vitor Borges e Itamar Paulino

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 18.10.2008 <> 09:30-12:00

NOVEMBRO

Tema: PSICOLOGIA DO ENVELHECER

Palestrantes: Vera Lúcia Amaral da Silveira e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderador: Itamar Paulino

Data: 22.11.2008 <> 09:30-12:00

DEZEMBRO

Tema: UM OLHAR SOBRE AS IDÉIAS DE SCHOPENHAUER NA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Itamar Paulino

Data: 06.12.2008 <> 09:30-12:00


LOCAL:

Paulus Livraria.

Setor Comercial Sul - Quadra 01 - Bloco I - Ed. Central

Asa Sul - Brasília- DF

Fone: 61 – 3225 – 9847


Organização:

Editora Paulus

Instituto Aion (3326-8695 / 9814-2810)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

VELHAS ÁRVORES

Existe uma tendência no mundo ocidental para a competitividade, para a novidade, para a renovação.

O mundo consumista nos leva a trocar as coisas velhas pelas novas. Não se pode usar um sapato velho, mesmo que seja o mais confortável. Não se pode continuar usando aquela roupa preferida, que sempre gostamos de usar, que parece até que já se moldou ao nosso corpo. Não se pode guardar aquela xícara antiga, herança da nossa avó. Tudo isso é execrado pela sociedade de consumo, que incentiva a sempre trocar o velho pelo novo, para obviamente vender novas mercadorias.

Nada contra isso, pois a movimentação do mercado leva à criação de novas oportunidades de trabalho. O problema é quando a tendência à renovação de material de consumo se estende para as pessoas, para o conhecimento, para a tradição.

Não queremos mais o velho. A palavra “velho” passou a ser palavra feia. Eu não acho: “velho”, para mim, é palavra bonita. É palavra que lembra coisa querida. É palavra que lembra carinho, conforto. É palavra que lembra experiência.

Experiência é feita de aprendizado contínuo. É não precisar reinventar a roda. É aprender com o passado, para criar a partir dali novos conhecimentos e novas experiências.

Mas com esta tendência do mundo ocidental, contaminado pela sociedade consumista, perde-se esse conhecimento adquirido. Perde-se a experiência.

Na década de 90 houve uma onda de “renovação” nas empresas. Chegou-se a criar um termo para isso: era a “reengenharia”. O mote era desconstruir as estruturas tradicionais para estabelecer novas formas. Muitos profissionais experientes foram demitidos naquela época. Pessoas na faixa dos quarenta passaram a ser considerados profissionais ultrapassados.

A moda logo mostrou o seu lado de prejuízo para as empresas. Além do enorme problema social gerado, ao demitirem seus antigos funcionários descartou-se também o que hoje é considerado um dos maiores ativos de qualquer organização: o conhecimento. A experiência, que é o conhecimento adquirido e repassado no contato uns com os outros. Experiência que não se aprende nos livros, mas se faz pessoa a pessoa.

Mesmo com a nova tendência de educação a distância, o contato pessoa a pessoa se faz nos encontros presenciais, ou mesmo nas teleconferências. Mas hoje já se sabe que não se pode esquecer o que a história nos ensinou.

Por outro lado, ficar sempre preso ao passado também não é bom. É preciso arejar as idéias, estar aberto sempre ao novo.

Gosto da excelente combinação que acontece no relacionamento entre avós e netos. É uma relação de equilíbrio, de mútua aprendizagem. Muitas vezes os netos conseguem mudar opiniões e padrões dos avós – o que os seus próprios pais, filhos de seus avós, não conseguiram.

Pular uma geração faz bem no processo de construção da experiência coletiva. É como se fizéssemos uma pausa para pensar, para respirar.

O desejo que se tem de ter netos, talvez seja para possibilitar, com a experiência, fazer diferente do que se fez com os filhos. Sabemos que nem sempre acertamos com nossos filhos e queremos acertar com os netos.

Daí se diz que os avós mimam seus netos. Os avós aprenderam que amor em excesso não estraga ninguém. O que estraga é falta de amor e falta de limite. A “regra” para a educação, se é que existem regras, é o limite necessário e muito amor.

Olavo Bilac escreveu sobre as velhas arvores, que nos dão sombra, que nos dão alimento e nos acolhem. E é nas sombras das velhas árvores que as novas sementes encontram o frescor necessário para se tornarem brotos. É na combinação da terra fértil com a força e o potencial da semente nova que nasce uma grande árvore!

Sob as árvores velhas, com as folhas que caem, o solo fica enriquecido. A sombra deixa a terra suficientemente úmida: o terreno propício para nascerem novos brotos. Sabemos o prejuízo que ocorre com desmatamentos, que empobrecem o solo e interferem em todo o clima do planeta.

Mas, “nada em excesso”, sabedoria antiga registrada no portal de Delphos. O sol, quando em excesso, seca e mata os novos brotos. O excesso de sombra não permite também o desenvolvimento dos novos brotos.

Por isso, preservemos as velhas árvores: ouçamos as pessoas mais velhas. Temos a aprender com os jovens também, cheios de entusiasmo, energia e novas idéias. Mas eles terão, em tese, mais tempo conosco.

Sábio é o jovem que ouve e respeita a experiência do velho, contextualiza para sua realidade e faz acontecer, transformando verdades antigas em preciosidades para a atualidade.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

NÃO DÁ PRA COLHER ABACAXI EM BANANEIRA

Foi uma luta suada. Literalmente suada! De quimono azul, o brasileiro lutava com todas as suas forças para conquistar um lugar na final. Lutou muito, mas não conseguiu chegar lá. Eduardo Santos deu adeus ao sonho da medalha olímpica.

O que mais me chamou a atenção não foi a luta corporal do atleta. Foi a sua luta interna entre o tentar e o não conseguir agradar aos pais. Foi a reação do atleta, demonstrada em sua fala. Era uma fala inconformada, triste, onde pedia perdão aos pais por não ter conseguido conquistar a medalha.

Longe de querer analisar os motivos desse comportamento e sentimento, peço licença para utilizar esse exemplo para abordar um tema delicado: a expectativa que muitos pais têm no sucesso do filho e a necessidade correspondida dos filhos atenderem à expectativa dos pais.

Outro dia, em uma palestra sobre relacionamento entre pais e filhos, a preletora fez a pergunta: Quais os motivos de conflitos nas relações entre pais e filhos?

Fiquei pensando sobre o que eu poderia responder, enquanto os participantes rapidamente respondiam à pergunta. Pergunta de fácil resposta, para quem é pai, mãe ou filho. Quem não sabe os motivos dos conflitos entre pais e filhos? Basta recorrer à sua experiência diária...

Mas a resposta foi difícil para mim. Durante o breve tempo passaram pela minha mente as várias situações trazidas à clínica psicológica. São tantos os tipos de conflitos existentes, que foi difícil resumir, assim, naquela hora, em poucas palavras.

Assistindo ao depoimento de Eduardo Santos, fico pensando em um dos principais motivos de conflitos: a expectativa de que os filhos sejam aquilo que não fomos. Ora, cada pessoa tem características próprias e singulares. Cada qual tem uma vocação. Não dá para colher abacaxi em bananeira, nem cravos em roseiras. Não dá para apressar o tempo da colheita. Não dá para aguar demais o cactos. Mas, se a jabuticabeira não for bem regada, sabemos que não iremos nos deliciar com suas jabuticabas. Cada um tem o seu jeito de ser, possui uma vocação e precisa ser educado e tratado tendo em vista o desenvolvimento dos seus dons para frutificar no tempo certo.

Gosto de pensar que quando chegamos nesta vida, trazemos na bagagem um “kit construção”, como o daquele tipo de móveis que adquirimos para montar em casa. Está tudo ali, basta seguir as instruções. O problema é que, em nosso caso, o manual não é claro e requer sensibilidade e sabedoria para fazer das sementes recebidas a árvore a que ela veio ser.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

DIA DOS “PÃES”

Lembro-me de uma cena que aconteceu em minha família. Tenho dois filhos, um menino e uma menina, hoje adultos, mas quando o fato ocorreu, tinham cinco e três anos, respectivamente. Em meio às brincadeiras de criança, os dois disputavam entre si uma boneca. O brinquedo era da menina, que ganhara da avó. Não era uma boneca qualquer, era um bebê daqueles que parecem de verdade, de tamanho real.



O pai, como a grande maioria dos homens naquela época, ainda trazia as influências de um antigo modelo educacional. Não gostou muito da idéia de ver o filho "brincando de boneca" e logo advertiu: "boneca é brinquedo de menina". O garoto nem pensou muito e respondeu de imediato: "mas pai, quando eu era pequeno, você também cuidava de mim". Apesar das palavras, mesmo sem perceber, o pai passara para o filho um modelo de pai amoroso e cuidador.

Gosto destes tempos, em que os homens podem, finalmente, demonstrar todo o afeto que têm. Já vai longe o tempo do "homem não chora", "homem não faz isso ou aquilo".


Homens hoje podem cuidar dos filhos e gostam de fazê-lo. Com a mulher tendo entrado para o mercado de trabalho e sendo fundamental a sua participação na economia, tanto familiar como da Nação, não houve outra alternativa senão dividir em casa, além das responsabilidades orçamentárias, as responsabilidades de administração do lar e cuidado com os filhos. E quem ainda não aderiu a esse modelo, além de enfrentar sérios problemas de relacionamento conjugal, está demodé; não está in, está out. Para ser mais clara: “está por fora”!


Não dá mais para admitir que a mulher trabalhe fora, algumas vezes contribuindo até com a maior parte das despesas domésticas, e não tenha com quem dividir o trabalho em casa. Mais do que necessidade e obrigação, o que mais aprecio é o prazer com que os homens têm assumido essa responsabilidade, que passa a ser prazer e alegria.


Não sou teóloga, mas penso que essa história de comparar Deus com Pai foi decorrente dos tempos do patriarcado. Se fosse nos tempos do matriarcado, talvez, eu penso, Ele seria comparado com Mãe. Pensando em Deus como a figura de pai que conhecemos tradicionalmente, parece que fica faltando algo, já que Deus, sendo Amor, precisa também de uma figura feminina para representá-lo. O pai, tradicionalmente, provê e protege. A mãe, tradicionalmente, nutre e cuida. Por isso, eu penso que a Igreja Católica adotou a Nossa Senhora e a Igreja Protestante adotou a figura da Igreja como o lado feminino de Deus. Mas eu ouvi de um teólogo, certa vez, que, no original, a palavra Pai na Bíblia tem o sentido de pai e mãe. O que, para mim, faz sentido e reflete o pensamento de uma grande parcela de cristãos.


Nada mais justo e adequado, pois hoje, tempos de conciliação e equilíbrio do masculino e feminino, todos nós somos um pouco pai e mãe de nossos filhos, de nossos amigos, de nossos companheiros, de nossos pais idosos, de nós mesmos.


Os jovens, rapazes e moças de hoje, buscam seu espaço profissional, mas ambos se permitem emocionar-se, chorar, cuidar, cozinhar. Não existem mais papéis definidos e isso é muito bom!


Portanto, nesta semana, quando lembramos de demonstrar carinho pelos pais, usemos de fato o significado da palavra no plural: Pai e Mãe. Há mães que criam sozinhas os seus filhos! Há pais que merecem serem lembrados também no Dia das Mães!


Quem sabe a idéia pega... e aí teremos não só um dia, mas dois por ano, quando serão homenageados os Pais: Pai e Mãe!

Minha homenagem aos meus pais, ao pai dos meus filhos, e a todos os pais e mães, que fazem dos seus filhos, frutos do seu amor!

VERDADEIROS CAMPEÕES

Ninguém gosta de perder. O atleta não quer perder a competição. No trabalho, não queremos perder nossa posição. Não queremos que nosso candidato perca as eleições, nem que o nosso time perca o campeonato. Nos Jogos Olímpicos, não queremos que os atletas brasileiros percam as competições; na Fórmula 1, não queremos que os brasileiros percam a corrida; na Copa do Mundo, não queremos que o Brasil perca nenhuma das partidas. Ele precisa ser sempre o campeão!

Desejamos que os nossos filhos tenham sucesso. Desejamos nos realizar através deles. Desejamos nos realizar através de todos os nossos ídolos; por isso não queremos que eles percam.

Não queremos perder pessoas queridas, não queremos perder objetos de valor afetivo, não queremos perder dinheiro e propriedades.

Todos nós, em maior ou menor grau, somos apegados. Podemos ser apegados às pessoas, aos bens materiais, às idéias, às preferências, à nossa produção artística ou intelectual, aos nossos costumes, ao nosso espaço... e aí vai a lista de possibilidades de apego.

As religiões nos falam sobre as conseqüências do apego em nossa vida. Segundo o budismo, a origem do sofrimento é o apego. No Cristianismo este também é um tema constante. "Deixar pai e mãe", "ofertas e dízimos", o apego às riquezas, são exemplos que não cabem ser aprofundados aqui. Nas outras religiões, pelo menos nas que estudei a respeito, sempre há alguma doutrina ou orientação nesse sentido. Faz parte do tema religioso em geral desapegar-se das coisas terrenas para alcançar um grau de espiritualidade desejável.

Do ponto de vista psicológico, o desapegar-se exige muito trabalho interior. Muitas vezes achamos que estamos desapegados, mas pode ser um "disfarce" de nosso inconsciente, pois somos tão apegados que não suportamos a idéia de perder aquele/aquilo que amamos. E aí, quando os perdemos, o baque é muito maior, manifestando-se muitas vezes além de fortes depressões, em doenças físicas. Reconhecer nossos apegos, ao invés de negá-los, faz parte de nosso caminho de individuação.

Individuação não é a mesma coisa que individualismo. Individuação é o processo de desenvolvimento interior através do auto-conhecimento, que nos faz cada vez mais próximos de nossa verdadeira essência. É voltar a ser o que realmente somos.Quando estamos "longe de nós mesmos", daquilo que realmente somos, ou não nos aceitamos como somos é que necessitamos sempre ganhar o jogo da vida.

Quando somos o que somos, sabemos que não precisamos provar nada a ninguém, pois já provamos a nós mesmos que somos verdadeiros campeões!

CICLO DE JUNGUIANO DE PALESTRAS 2008/2

Tema: ALQUIMIA NA VISÃO DA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Moacir Rodrigues dos Santos*

Data: 16.08.2008 (sábado) 09:30-12:00

*Psicológo, Especialista em Psicologia Clínica, Graduado em Teologia, Pós-graduado em Psicologia Superior, Psicoterapeuta didata pela SOBRAP,
Professor de psicologia do UniCEUB


SETEMBRO

Tema: O FENÔMENO RELIGIOSO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Palestrantes: Itamar Paulino e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 20.09.2008 <> 09:30-12:00

OUTUBRO

Tema: O DIÁLOGO MÍTICO ENTRE O ORIENTE E O OCIDENTE

Palestrantes: Vitor Borges e Itamar Paulino

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 18.10.2008 <> 09:30-12:00

NOVEMBRO

Tema: PSICOLOGIA DO ENVELHECER

Palestrantes: Vera Lúcia Amaral da Silveira e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderador: Itamar Paulino

Data: 22.11.2008 <> 09:30-12:00

DEZEMBRO

Tema: UM OLHAR SOBRE AS IDÉIAS DE SCHOPENHAUER NA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Itamar Paulino

Data: 06.12.2008 <> 09:30-12:00


LOCAL:

Paulus Livraria.

Setor Comercial Sul - Quadra 01 - Bloco I - Ed. Central

Asa Sul - Brasília- DF

Fone: 61 – 3225 – 9847


Organização:

Editora Paulus

Instituto Aion (3326-8695 / 9814-2810)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O MERGULHO NO ASFALTO


Essa história, que faz parte da nossa história de Brasília, quem me contou foi meu amigo Moacir, leitor do Blog. Ao ler as crônicas que escrevi sobre Brasília, As esquinas de Brasília e O Frio de Brasília, ele lembrou daqueles tempos, quando tudo começou por aqui.


Era o ano de 1958. Brasília era poeira por todos os lados, onde começavam a nascer prédios construídos com cimento à vontade, que despontavam da terra vermelha, como os primeiros dentinhos de leite de criança.


O fato aconteceu no Núcleo Bandeirante, que no início era Cidade Livre. Eu, que morava na 114 sul e raramente saia de lá, ouvia falar de uma tal cidade livre e ficava imaginando como seria. Diziam que lá podia construir do jeito que quisesse e não precisava ser tudo certinho como a superquadra onde eu morava. Ninguém precisava pagar impostos, nem precisava de alvará para abrir um novo negócio. Eu ficava imaginando, quando ouvia falar, como seria morar numa "cidade livre".


Eu viajava em minhas fantasias infantis, permeadas pelas imagens de filmes de faroeste e ficava pensando como seria a tal Cidade Livre. Eu imaginava que chegavam cowboys armados, chutando com suas botas as portas vai-e-vem, entrando bar adentro, ostentando poder.

Podia não ser daquele jeito, mas é certo que a ostentação de poder ainda habita por essas bandas até hoje.


Lá na Cidade Livre tudo era pó e as casas eram de madeira. Mas eram casas de madeira feitas “no capricho”. As madeiras, em ripas finas, eram colocadas horizontalmente, sobrepostas umas às outras como ainda podemos ver ao visitar algumas daquelas construções que resistiram ao tempo e ao fogo, que de vez em quando apareciam por lá.


Foi lá, em 58, que inauguraram o asfalto. Meu amigo me contou que asfaltaram a Avenida Central e uma de suas perpendiculares, a travessa Dom Bosco, formando um asfalto em forma de cruz. O presidente Juscelino, em pessoa, veio inaugurar. Acho que JK gostava mesmo de cruz... talvez para pedir a proteção de Nosso Senhor. Ou, quem sabe, quando pensava na tremenda responsabilidade que era um investimento de tamanha envergadura, como foi construir no meio do mato, no cerrado do Centro-Oeste, uma cidade que hoje está do tamanho que está. Fico imaginando JK fazendo o sinal da cruz e rezando todas as vezes que pensava no que, para muitos, era loucura total.


Mas foi lá, no meio da cruz de asfalto, que JK desfilou de trator. O povo de então, candangos ou não, foi lá para ver. Era um acontecimento e tanto: inaugurar o asfalto da Cidade Livre!


O então presidente JK, num gesto bem humorado, típico do “Nonô”, juntou as palmas das mãos e fingiu que ia mergulhar no asfalto. Fazia do trator o seu trampolim.

Com esse gesto, juntando as palmas das mãos e se inclinando, ao mesmo tempo fingia mergulhar e fazia um gesto de reverência à grandiosidade da Nova Capital que, em adiantado estado de gestação, estava se preparando, ansiosa, para nascer!

Mal sabia ela o que mais tarde tantas coisas iriam por aqui acontecer...


Foto: Cidade Livre , Avenida Central, antes do asfalto. Copiada do site: