sábado, 28 de junho de 2008

QUANDO UM NÃO QUER, DOIS NÃO VIVEM EM PAZ

Quem não gosta de receber jóias de presente? Brincos, pulseiras, correntes, anéis. Sempre de ouro! Amarelo ou branco, não importa! E mais valiosas ainda, com pedras preciosas.

As pedras preciosas desde sempre são valiosas, símbolos de riqueza e perpetuidade. Quem as ganha ou adquire, guarda-as em cofres e em seus corações. Pedras preciosas são cobiçadas e por isso temos que cuidar para não serem roubadas.

Mas tem gente que gosta de guardar outras pedras. As pedras que servem para apedrejar, machucar as pessoas. Tem gente que mantém sempre um estoque delas. Basta alguém contrariá-lo, lá vem pedrada!

A coleção de pedras de machucar geralmente é formada pelas pedras que foram recebidas e por outras que se encontram pelo caminho. Como aqueles que gostam de catar conchinhas na praia, que são leves e servem para enfeitar, tem gente que gosta de sair por aí catando pedras para a ocasião em que precisarem jogar em alguém. Vivem cansados, sobrecarregados de tanto carregarem peso.

Mas tem gente que, mesmo que receba pedras não-preciosas, examina essas pedras, lapida e as transforma em pedras preciosas. São pessoas que têm o dom de ver no outro o que ele tem de bom. São pessoas que conseguem entender que o outro atira pedras porque quer se defender, embora essa não seja a melhor estratégia para sobreviver. São pessoas que aproveitam as pedradas, mesmo que elas sejam dolorosas, para tirar algum aprendizado da situação, crescerem e se transformarem em pessoas melhores.

Mesmo que as pedras recebidas não sejam possíveis de serem lapidadas, quem entende de transformação de pedras não as joga de volta, mas as deposita tranqüilamente no caminho e segue adiante a sua viagem.

Quem entende de pedras sabe também que muitas vezes não adianta enfrentar aqueles que gostam de atirar pedras para machucar.

Nesses casos, é melhor evitar. Não precisa atirar as pedras de volta. Não precisa guardar, mas também não precisa se deixar machucar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

RECICLAR É POSSÍVEL!

Tem gente que gosta de guardar coisas antigas... sempre tem um armário, uma caixa, um baú para guardar aquelas coisas que lembram o passado. Que lembram de um tempo que já não é mais...

Guarda o sapatinho do filho marmanjo, a chupetinha da filha que é quase avó. Guarda bilhetinhos do primeiro amor, guarda pétalas secas da primeira flor. Tem gente que guarda coisas boas, que lembram os bons momentos.

Mas tem gente que gosta de guardar lixo. Coisas que lembram momentos ruins. Esses não se guardam em caixas, nem em baús. Esses se guardam no coração. Mesmo dizendo e repetindo (talvez para se convencer a si mesmo) que não guarda mágoa de ninguém... mas aí, vira e mexe, vem à tona alguma coisa para espinhar aquele que não lhe fez bem.

Aí fica guardando tanta coisa... tanto lixo, tanta fruta podre, que acaba contaminando as coisas boas que se guardou também. Que nem laranja podre, que quando está com as outras frutas acaba fazendo todas elas apodrecerem.

Tem gente que quer ir para a frente, viver novos momentos... mas carrega uma mala tão cheia que não consegue sair do lugar. E vai levando a mala cheia de coisas, achando que vai precisar delas algum dia, mas são coisas que ocupam tanto espaço que não sobra espaço para nada mais entrar em sua vida. São coisas tão pesadas que fica difícil de serem carregadas.

E aí fica em casa, não sai, não vai a nenhum lugar. Ou então fica sempre pedindo para os outros carregarem as coisas do seu passado. É só encontrar alguém disposto a papear, que logo começa a desfiar a sua dor, os seus desencantamentos, as suas doenças. Fala mal do ex-marido, fala mal dos irmãos, fala mal do vizinho, do filho, do pai e da mãe. Fala mal de todas as pessoas que, apesar de não parecer, o querem ou já lhe quiseram bem.

Tem gente que gosta tanto de guardar lixo que o cheiro de podre não deixa aparecer o perfume que insiste em usar.

Mas para isso tem uma solução. Virou moda reciclar. Reciclar lixo é a solução.

Primeiro separe o que pode ser aproveitado: as lembranças boas que você tem, mesmo dos relacionamentos que não foram tão bons assim. Lembre-se das qualidades das pessoas que lhe fizeram mal (que às vezes nem sabem que isso aconteceu). Valorize os momentos que serviram para algum aprendizado.

O lixo orgânico, ou seja, aquele que em princípio não teria proveito, esse pode ser transformado. Você coloca numa caixa com “capim seco” e deixa aberta. Não pode fechar. Se fechar gera mau cheiro. Deixa ali, tomando ar e sol – jogue luz, tente entender a situação, colocando-se no lugar do outro, entendendo seus motivos, seu ponto de vista, suas dificuldades. De vez em quando remexe e mistura – elabora alguma dor. Aos poucos, as mágoas antigas vão secando e se transformando. Quando você menos esperar, tudo aquilo se transformará em adubo e servirá para alimentar novas experiências, novos relacionamentos. O que você deixar morrer dentro de si vai servir para alimentar o que virá adiante. São os aprendizados que temos a partir das experiências dolorosas. Ao final, todo aquele lixo pode ser reaproveitado. O que for reciclável é reciclado, e o que não for pode ser transformado. Tudo isso vai servir para que você possa transformar sua vida, seus relacionamentos, seu modo de ser.

Tudo isso é possível!

Mas depende de você querer!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O GRANDE AMOR

Ela estava preocupada com o que as pessoas poderiam estar pensando a seu respeito, mas também não queria deixar de viver tudo aquilo que estava vivendo naquele momento.

Tendo ficado viúva, estava se permitindo recomeçar a sua vida. Foram anos de dedicação ao marido e ao casamento. Mas agora ele se foi. Ela transformou a aliança de casamento em um anel que manteve no dedo anular da mão esquerda. O símbolo continuava ali. Não um símbolo de fidelidade eterna, mas um símbolo da possibilidade de renovação e reconstrução de sua vida.

Esse fato lembrou-me a cena do filme “Um Lugar na Platéia”. O personagem, cujo nome não lembro, ficara viúvo após um casamento "de uma vida inteira". Durante o casamento, foi construindo, com a esposa, uma preciosa coleção de objetos de arte. Com a morte da esposa, resolveu se desfazer dos objetos preciosos, símbolos de conservação do passado. Era um ritual: ao leiloar os antigos objetos, aos poucos conseguia se desapegar de seu passado. Não o esquecer. Isso seria impossível! Mas reservar-lhe o lugar mais sagrado em sua lembrança. Ao se desfazer dos antigos objetos, deixava espaço emocional para novas experiências entrarem em sua vida. Permitiu-se, dessa forma, reiniciar sua vida afetiva, ao lado de uma jovem e bonita mulher. Com o novo relacionamento de seu pai, o filho, adulto, mostrou-se preocupado, julgando que seria um namoro por interesse. Como se riqueza, juventude e beleza anulassem todas as outras qualidades e atrativos de ambos.

Ainda quanto ao filme: a cena que desejo destacar é a resposta que o personagem em questão deu ao seu filho, ao dizer: - “Sua mãe foi o grande amor de minha vida! Ela nunca será substituída por nenhuma outra mulher. Mas ela se foi e eu desejo e tenho o direito a ter alguém que me faça companhia.”

O argumento inverte valores vigentes e presentes no inconsciente de nossa sociedade, ao mesmo tempo romântica e consumista: O amor romântico dá lugar ao amor realidade: “se eu não posso estar com o ‘grande amor da vida’, posso estar com alguém em cuja companhia posso ser feliz”.

Muitas pessoas passam a vida toda buscando "um grande amor". Às vezes acham que o encontraram... até casarem e perceberem que se enganaram! O que é isso, então? Não existem "grandes amores"?

Gosto de uma metáfora utilizada por J. Pierrakos em seu livro “Energética da Essência”. Ele compara a força erótica ao primeiro estágio de um projétil, lançado ao espaço para tentar vencer o campo gravitacional da Terra e ser colocado em órbita, o segundo estágio. Passada a paixão inicial que aproxima, envolve e compromete os parceiros, prevalece o amor que nutre, acolhe, cuida e faz companhia.

Lembro também as palavras que circularam na internet, com autoria atribuída ao Dalai Lama. Não lembro exatamente, mas o sentido da frase é o seguinte: “quando for escolher alguém para casar, escolha alguém com quem goste de conversar, pois vai chegar um tempo em que isso será o mais importante no casamento”.

O psicólogo C.G. Jung interpreta as paixões como a busca da sua própria alma no outro. O homem projeta a sua Anima e a mulher o seu Animus. Na medida em que o processo de individuação acontece, com a Anima e o Animus mais integrados ao psiquismo consciente, diminui a necessidade de se apaixonar. “Parece que a vida fica até meio sem graça - relatam alguns - pois não consigo mais me apaixonar como antigamente...”. E aí as pessoas que não percebem o que está acontecendo consigo mesmas passam a achar que não precisam mais do outro, que é melhor viverem sozinhas. Ou então buscam incessantemente alguém por quem se apaixonar e isso não mais acontece, pois a pessoa não mais projeta sua alma no outro, não mais projeta sua necessidade de se completar, por sentir-se mais completo, íntegro.

Mas, mesmo assim, mesmo achando que não se vai encontrar mais “o grande amor”, a grande paixão, a alma gêmea, a outra metade da laranja... por que não cair na realidade, e aceitar que é bom estar com o outro? Que apesar de já estar acostumado a viver sozinho, de não precisar dividir despesas, nem espaço, de ter experimentado essa deliciosa sensação de liberdade, por que não experimentar novamente estar junto ao outro? Mas agora de uma forma diferente: estar com o outro, não porque PRECISA dele, mas estar com o outro porque É BOM viver em sua companhia. Estar com o outro, não por não saber viver só. Aprende-se, sim, a viver só, mas isso não impede que se permita “não viver só”!

Pessoas e momentos são insubstituíveis! O amor na maturidade já não se faz de paixões, expectativas e ilusões. O amor maduro se faz da realidade e do desejo de estar junto, de compartilhar os momentos de alegria e prazer. De ter um ombro amigo para chorar nas horas das dores inevitáveis da vida. O amor maduro se faz mais de carinho do que de sexo, mais de compreensão do que de disputas. Faz-se mais do “eu amo você” do que do “eu quero você”. O amor na maturidade transcende o prazer!

O amor da juventude acaba ou se transforma. Há quem busque eternamente o amor da juventude. Essas pessoas, na maturidade, não conseguem se comprometer numa relação duradoura. Buscam o seu próprio prazer, o seu próprio interesse. O que na juventude era a fórmula adequada, passa a ser, na maturidade, a forma inadequada, insatisfatória. O que antes fazia crescer, construir, na maturidade destrói e nada acrescenta.

Esse é o grande desafio para homens e mulheres maduros, que já tiveram o seu tempo de estar junto ao outro, e hoje, separados, divorciados ou viúvos, vivem sozinhos, com medo de viverem uma nova relação que não seja equivalente ao “grande amor” de sua vida.

Aquele, se existiu, por ser único, só acontece uma vez!