terça-feira, 29 de abril de 2008

Isabella: Protagonista da violência doméstica

As cenas são reais, dolorosas, mas comuns de serem ouvidas na clínica psicológica: são adultos que lembram com detalhes das vezes em que foram espancados quando criança; são recordações do pavor diante do cinto do pai e da dor provocada pelas sucessivas chibatadas pela força de um homem diante de uma criança indefesa; são lembranças, muitas vezes, do conivente silêncio da mãe; ou então, a lembrança da violência da mãe aliada à ausência paterna, ou a violência de irmãos diante da ausência de ambos os pais, ou a solidão de terem sido deixados sozinhos em casa, cuidando de irmãos menores.

Fatos reais que, como inúmeros outros que acontecem em tantas “famílias” de crianças indefesas, não resultaram em manchetes de jornal. Permitiram à vítima o direito à vida, mas uma vida marcada pelo estupro psicológico no próprio lar. Após anos, as cenas são relembradas, processadas, permitindo a cura da ferida emocional através da psicoterapia.

Cenas comuns na clínica psicológica, que povoam a lembrança, principalmente, de adultos jovens (nascidos na década de 70/80), são as cenas em supermercados. A criança, levada às compras pelos pais, exposta às guloseimas que os pais, ou por falta de dinheiro não podem comprar, ou por consciência da necessidade de uma boa alimentação não o fazem, pede, insiste, chora, irritando o adulto, que perde a paciência. Talvez, receosos do curioso e acusador olhar alheio, os pais adiem o momento do castigo.

Outras cenas, igualmente relembradas nos processos de psicoterapia de adultos, são as cenas no interior do carro: os irmãos brigam entre si, disputando o amor e atenção dos pais, que aplicam ali mesmo um castigo físico. Ouvi esse relato mais de uma vez.

O caso Isabella traz à tona a realidade oculta pela vergonha de pais que, impacientes com seus filhos, projetam nos inocentes suas frustrações, deslocam para eles sua raiva. A raiva, muitas vezes, porque a existência daquela criança, que não pediu para nascer, veio “atrapalhar” planos de vida traçados pelo desejo de satisfazer as exigências de uma sociedade cujos valores incentivam o consumo exagerado e o status perseguido e nem sempre alcançado.

Mas há também aqueles analisandos que confessam as culpas recentes de, no papel de pais, perderem a paciência com seus filhos e, mesmo sabendo do prejuízo emocional e risco de espancarem a criança, o fizeram, pelo seu próprio descontrole emocional.

Sem defender nem justificar os atos bárbaros praticados, ao ler as notícias sobre o caso Isabella, e aos assistir nos telejornais a fúria de populares que desejam linchar os jovens, pai e madrasta da vítima, não posso deixar de me perguntar se esta fúria não seria um deslocamento da raiva contida contra os seus próprios filhos que, quando crianças também os irritava, ou contra seus próprios pais que os espancavam também...

Quem vai saber? O fato é que é inadmissível o que aconteceu. Isabella é protagonista da violência que existe em tantos lares brasileiros. Ela se foi, mas sua morte servirá como sacrifício vivo, trazendo à tona a realidade do risco pelo qual passam todos os dias tantas crianças indefesas!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

UMA PARÁBOLA SOBRE OS PARADOXOS DA VIDA CONTEMPORÃNEA

O sol brilhava naquela manhã de domingo. Nosso personagem, cansado de uma exaustiva semana de trabalho, abriu a janela deixando os raios solares aquecerem o seu rosto e sua pele, ao mesmo tempo em que a fresca brisa os acariciava.

Era um dia perfeito para ir ao clube, nadar, tomar sol, rever os amigos. Preparou-se como de costume, não esquecendo o protetor solar e seus óculos de natação. No caminho, enquanto dirigia, antecipava o prazer de pular na água fria, refrescando seu corpo e sua alma.

Mas, qual não foi sua surpresa, o clube estava fechado! Uma placa explicava o motivo: “Por decisão da direção do clube, não mais abriremos aos domingos, permitindo, assim, o justo descanso semanal de nossos funcionários”.

Indignado com tal situação e meio confuso com a paradoxal decisão, resolveu mudar seus planos: não poderia nadar, mas poderia caminhar no parque. Dirigiu até lá, da mesma forma antecipando o prazer ao imaginar como seria sua caminhada, com a brisa batendo em seu rosto, observando as árvores plantadas no caminho, ouvindo o suave canto dos pássaros... Ah! Nada como uma boa caminhada no parque em uma bela manhã de domingo!

Mas, ao chegar ao parque, também encontrou seus portões fechados. Meio confuso, sem acreditar no que estava acontecendo, leu o aviso: “Fechado nos fins de semana para limpeza”.

Mais uma vez, frustrado em seu desejo, já começava a pensar que algo estava conspirando contra ele.

Conformado, já que se aproximava a hora do almoço, decidiu então almoçar mais cedo. Iria ao seu restaurante favorito. Nas proximidades, estranhou a facilidade de achar estacionamento. Ao chegar ao restaurante, qual não foi sua surpresa: mais uma placa, desta feita explicando que o restaurante estava fechado para horário de almoço. Ficou muito bravo. “Ora vejam só... não volto mais aqui” – pensou.

Conformado com a tripla frustração, já que era meio “Pollyana” e sempre via o lado positivo das situações desfavoráveis, resolveu ir para casa, aquecer a sobra do almoço do dia anterior. Poderia dormir após o almoço, apesar de lembrar-se de que não poderia ligar o ar condicionado, pois a vizinha reclamava do barulho.

À tarde, após sua tentativa frustrada de dormir com aquele calor todo, lembrou-se que poderia ao menos ir ao cinema, para não terminar aquele domingo tão frustrado. Estava passando um filme que ele queria assistir. Chegando lá, no entanto, novamente ficou frustrado ao ler a placa: “Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira”.

Confuso, com a certeza agora de que algo conspirava contra ele, mas beliscando-se para ter a certeza de que tudo aquilo não passava de um pesadelo, lembrou-se dos seus tempos de criança. Do tempo em que o domingo era um sagrado dia. Dia de ir à igreja. Lembrou-se do cuidado que sua mãe tinha ao levá-lo todos os domingos à igreja. Sentiu saudade daqueles velhos tempos.

Começou a achar então que tudo o que estava passando naquele funesto domingo talvez fosse uma estratégia divina para mostrar-lhe a importância e necessidade de voltar para a Igreja. Decidido, deu meia volta e dirigiu até a igreja. Qual não foi a sua surpresa, quando chegando lá, ao invés do ritual coletivo que nos leva ao Sagrado, estava acontecendo uma reunião administrativa.

Esta parábola pode parecer absurda e longe da realidade de muitas pessoas, mas na verdade fazemos isso o tempo todo.

As organizações perdem o tempo que deveriam investir em sua atividade principal em longas reuniões para decidirem assuntos de funcionamento interno.

Os casais, ao invés de realizarem juntos atividades que lhes dêem prazer, gastam seu tempo e sua energia “discutindo a relação” e acusando-se mutuamente de sua insatisfações.

Há pessoas que matriculam os seus filhos nas melhores escolas, mesmo que elas sejam longe de casa, desperdiçando tanto tempo no trajeto, que não lhes sobra tempo para estudarem.

Esmeram-se tanto organizando e arrumando a casa para que aquele seja o local de aconchego familiar, que um simples vestuário fora de “seu lugar” é motivo para discussões e brigas.

Gasta-se tempo e dinheiro para embelezar-se, na busca de ser aceito e amado pelo outro, ao invés de investir o tempo para conversar e estar junto.

Busca-se tanto “qualidade de vida”, e gasta-se tanto tempo trabalhando demasiadamente para ganhar o dinheiro necessário para construir a casa dos sonhos, que não sobra tempo para usufruir deste espaço.

Gasta-se tanto tempo para ganhar dinheiro, que não sobra tempo para gastá-lo.

São todas decisões paradoxais, onde os meios substituem os fins.

Voltar-se para si mesmo!

Escutar o coração e a alma!

Buscar aquilo que realmente satisfaz!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

SER MULHER

Com alegria ela me contou que a filha ficara “mocinha”.

Fato marcante na vida de uma mulher madura, mãe de filha púbere, é a menarca de sua filha.

É a filha que, em tese, torna-se também mulher. A filha que, deixando as bonecas e os brinquedos, ingressa nesse nosso complicado e maravilhoso mundo feminino.


Mundo de cólicas, TPMs e desconfortos, prenúncios de tudo que vamos passar como mães, mas um mundo maravilhoso e fascinante, que é o de SER MULHER!

Ser mulher é estar sempre apaixonada: pelo primeiro olhar do "menino" que a gente gosta, pelo garoto do primeiro beijo, pelo rapaz dos nossos sonhos, pelo companheiro para toda a vida, pelo pai dos nossos filhos, pelos nossos filhos!


Ser mulher é estar apaixonada pela vida e pela beleza de procriar. Como coadjuvante da Criação, também os nossos filhos criar.

Há aquelas que adotam outros “filhos”: o namorado, as amigas, os sobrinhos, os seus pais, os afilhados, os alunos, os “peludos”, ou até mesmo uma plantinha: mulher que é mulher, sempre gosta de cuidar, de ser um pouco mãe de todo mundo.

Ser mulher é estar sempre ocupada com pequenas coisas e com grandes causas! É esquecer as próprias causas e abraçar as causas de quem amamos. É ocupar-se ao mesmo tempo com o fútil e com o profundo, com o almoço e com o Sagrado. É ser ao mesmo tempo Marta e Maria!

Na maturidade, quando os filhos buscam o seu próprio caminho e, muitas vezes, o companheiro também se vai, continuamos apaixonadas: pelo trabalho, por causas sociais, pelas amigas, pela ginástica, pela possibilidade de um novo amor!

Nós, mulheres, somos assim: sempre apaixonadas – pelo mundo, pelas pessoas, por nós mesmas!

Mas há aquelas mulheres, especiais, que geram os filhos da alma! E estes, mais do que privilegiados, são criaturas especiais, por terem sido escolhidas por mulheres que transcendem o seu amor maternal. São mulheres divinas!


Minha homenagem à... pela sua entrada triunfante e gloriosa neste maravilhoso mundo das mulheres, e à sua querida mãe, minha amiga!


É claro que não vou dizer a quem se destina esta homenagem, cúmplices que somos, nós mulheres, de nossos mais íntimos segredos!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O “DONO DA VERDADE”

- “Minha irmã é crente!”.
- “Que tipo de crente?”
- “O pior possível”.
- “O pior é aquele que fica tentando convencer a gente!”

Ouvi esta conversa e fiquei com pena dos tais “crentes”... achei que eles deveriam ouvir estas palavras. Por isso a eles e a todas as pessoas que tentam convencer os outros de suas crenças dedico a crônica de hoje.

O que faz uma pessoa querer convencer o outro de que o seu caminho, as suas idéias, as suas crenças são as mais certas?

Sem entrar na questão daqueles que, por motivos inescrupulosos, tentam e conseguem enriquecer, trago aqui algumas reflexões.

Não se aplica somente aos “crentes” evangélicos, mas também aos “crentes políticos”, aos “crentes torcedores de futebol”, aos “crentes intelectuais”, aos “crentes no Deus consumismo” e a todos aqueles que acreditam que o seu grupo, as suas crenças e seus valores são os certos, são os melhores.

O que é melhor? O que é certo? Existe alguma coisa que é certa para todas as pessoas?

Convido-os para uma viagem de desconstrução de pensamentos. Se você se ofendeu com a introdução a esta crônica e seu impulso foi parar de lê-la (o que você não fez se estiver lendo este parágrafo), talvez seja melhor mesmo parar por aqui, pois o que vem adiante é para as pessoas que estão abertas a ouvir. São para as pessoas que acreditam que o outro tenha algo a lhes acrescentar. São para as pessoas que acreditam que não são donas da verdade.

E aqui proponho o primeiro paradoxo: Se você chegou até aqui nesta leitura, demonstra que está aberto a ouvir o outro e, portanto, não se enquadra no grupo que deveria ler esta crônica, pois são justamente aqueles que tentam sempre convencer o outro de que somente eles estão certos em suas idéias, valores e crenças, a quem eu gostaria de dizer estas palavras.

E por que eu me daria ao trabalho de escrever uma crônica para alguém que eu sei que não vai lê-la? Porque eu também estaria convencida de que eu é que estou certa. Segundo paradoxo!

Todos temos nossas idéias próprias, valores e crenças. São crenças adquiridas no decorrer de nossa vida, através dos grupos aos quais pertencemos: a família, a escola, a igreja, os amigos da adolescência, os colegas do trabalho, o time de futebol.

Somos influenciados a participar das idéias do grupo ao qual estamos inseridos, porque esta é a maneira de nos sentirmos incluídos, de nos sentirmos aceitos, nos sentirmos reconhecidos, nos sentirmos amados.

E aí está uma afirmação, penso eu, em que todos concordamos: nós temos a necessidade de sermos amados. Mesmo aqueles que pensam que podem viver sozinhos, sem pertencer a nenhum grupo, pois existe também o grupo das pessoas que não “pertencem a nenhum grupo”. Terceiro paradoxo!

Há pessoas que se isolam, não porque não tenham a necessidade de serem amadas, mas porque, sendo sua necessidade tão grande, o seu temor de serem rejeitadas as impede de correrem o risco de, ao se exporem à situação que lhes possibilitem serem amadas, não se sentirem assim. Ou seja, receberem o golpe fatal ao ver confirmada a sua crença de que não lhes é possível serem merecedoras do amor.

Desta forma, tanto aqueles que tentam convencer os outros de que só eles estão certos, como aqueles que se isolam por medo de serem rejeitados, são pessoas que querem e necessitam desesperadamente de serem amadas.

Só que, tanto umas como outras, acabam sendo rejeitadas. As primeiras porque passam a ser inconvenientes, tentando sempre convencer o outro. As segundas porque, ao se isolarem do grupo, deixam de ter a oportunidade de aprenderem a conviver em grupo.

Concluindo, na minha opinião:

- Os “crentes” “pregam o Evangelho” não necessariamente porque “amam o próximo”;
- Os políticos nem sempre querem vencer as eleições para fazer o melhor pelo povo;
- Os intelectuais nem sempre querem convencer o outro com o objetivo de contribuir para a construção e compartilhamento do conhecimento;
- Os torcedores de futebol nem sempre estão convencidos de que os seus times realmente são os melhores;
- Os que consomem produtos de marca nem sempre o fazem por acreditarem que aqueles são os produtos de melhor qualidade.

Mas todos eles desejam profundamente serem amados, através do reconhecimento do grupo ao qual pertencem.

Mas isto também pode ser questionado, pois, afinal, eu também não sou dona da verdade!

Obrigada por ler esta crônica! Como todas as pessoas, inclusive você, eu também tenho necessidade de ser ouvida, de ser reconhecida, de ser amada!