segunda-feira, 31 de março de 2008

Caminhos TanGENTES


VIVÊNCIA TERAPÊUTICA

11 e 12 de abril de 2008 - Brasília - DF


Os relacionamentos afetivos interrompidos por separação, divórcio ou morte de um dos parceiros, muitas vezes são vistos como "fracassos".

O objetivo desta vivência é analisar estas experiências transformando a dor do rompimento em oportunidade de crescimento pessoal e de abertura para um novo relacionamento.

Assim como as linhas que se tocam e seguem seus caminhos, os relacionamentos afetivos também podem ser tangenciais.


Facilitadora: Dulcinéa Ramos Cassis – Psicóloga, CRP 01-3713. Psicodramatista e Analista Junguiana. Possui 25 anos de experiência como psicoterapeuta.

DATA
11 de abril das 19h30 às 22h (sexta-feira)
12 de abril, das 09 às 12 horas e das 14 às 17 horas (sábado)

LOCAL
SCN Centro Empresarial Liberty Mall, Torre B, sala 205

INVESTIMENTO
2 parcelas de R$ 125,00 ou R$ 225,00 à vista.

VAGAS LIMITADAS

INSCRIÇÕES

dcassis@gmail.com ou 61 8145-0700 , 61 3326-1857

quinta-feira, 27 de março de 2008

ANTES TARDE, DO QUE NUNCA!


"Mãe! Porque você não fala nada???"

Essa expressão, de um protagonista em uma cena de psicodrama, não é só de uma pessoa. É uma fala comum nos processos de psicoterapia. No psicodrama, a partir das situações vividas no presente, as cenas antigas que marcaram a vida e, principalmente, a infância, vêm à tona, possibilitando o seu reprocessamento, de forma a não mais influenciar os sentimentos e comportamentos presentes.


Na cena especifica, o protagonista recebia um castigo do pai. A mãe, presente à cena, tornou-se ausente pela sua não interferência no processo. Omitiu-se, talvez por medo também, ao não enfrentar, ao não defender a criança. Tornou-se cúmplice da violência imposta.
São muitas as cenas que tenho presenciado na clínica. Ora são cenas de violência física, ora são cenas de violência psicológica (através de castigos desproporcionais), ora através do ignorar os apelos da criança, talvez a maior de todas as violências.


As cenas vêm à lembrança acompanhadas de muita raiva. A raiva que não pôde ser expressa pela condição de indefensibilidade da criança. Na adolescência, época propícia ao desligamento emocional, essa emoção pode vir na forma de revolta desproporcional, de adesão do adolescente aos seus grupos ou de refúgio nas drogas.


Mas há aquelas crianças que nem na adolescência conseguiram expressar a raiva decorrente da frustração vivenciada. São as crianças "boazinhas" que, através de seu comportamento, tentam agradar aos pais, buscando o amor não expressado e/ou não sentido. Estas talvez sejam as que mais carregam por sua vida os efeitos funestos da violência a que foram submetidas. Violência, cabe ressaltar, nem sempre física, mas principalmente psicológica. Estas, ao levarem para a idade adulta esse sentimento e posição existencial, tornam-se adultos dependentes da constante aprovação do outro, quer seja o cônjuge, os colegas de trabalho, a própria família de origem, e até mesmo seus filhos, buscando através do comportamento, inverso ao recebido, agradá-los a ponto de tornarem-se seus reféns.


Sempre é tempo de conscientizar-se desse processo e reformular o padrão de sentimentos consigo e com o outro. Esse processo acontece através da elaboração desse conteúdo, até então inconsciente, permitindo-se entrar em contato com a raiva reprimida e expressá-la. O psicodrama e, nas terapias verbais, a fala permitem a expressão dessa raiva sem necessariamente direcioná-la para o sujeito que a provocou ou para outras pessoas inocentes a esse processo, como é comum acontecer. Dessa forma é possível "separar-se" do outro, processo que acontece muitas vezes tardiamente.


Tenho acompanhado, na clínica, pessoas que aos 20, 30, 40, 50 e até mais de 60 anos, conseguem fazer essa separação, necessária ao processo de individuação. É necessário separar-se do outro para buscar o seu próprio caminho de desenvolvimento pessoal! Separar-se do padrão recebido, evitando a repetição de sua própria história.

Não é o ideal, mas... "antes tarde, do que nunca!"

quinta-feira, 20 de março de 2008

PÁSCOA É ENCONTRO[1]



Páscoa é uma comemoração judaico-cristã. Foi instituída muito antes de Cristo, na época em que o povo de Israel era escravo no Egito. No Cristianismo, tornou-se data magna, já que a base da doutrina Cristã é a Graça de Deus.


Para o povo judeu, era necessário o sacrifício de animais para a remissão dos pecados. Para o Cristianismo, Cristo foi dado como o “Cordeiro de Deus”. Tornou-se desnecessário o sacrifício de animais para que haja perdão pelos pecados, pois o próprio Cristo foi sacrificado.


No ritual judaico, o sangue do animal era aspergido sobre o povo para a remissão de seus pecados. O animal era assado e a fumaça subia (para chegar ao céu), simbolizando o oferecimento a Deus (“que está no céu”) e o povo comia o assado. Com o sacrifício de Cristo já não é mais a fumaça que sobe aos céus, mas quem sobe é o próprio Cristo. Os cristãos comem o pão e bebem o vinho, simbolizando o corpo e o sangue de Cristo.


Temos em ambos os rituais (o judaico e o cristão), os símbolos de transformação estudados pela antiga Alquimia(2): morte (mortificatio); fogo, cruz (calcinatio); fumaça, preces (sublimatio); sangue, “lavar as mãos” (solutio); comer (coagulatio). Representam também os elementos da natureza: fogo, ar, água e terra.



O FOGO queima, purifica, transforma em cinzas. A combustão produz a fumaça, o elemento AR. As cinzas transformam-se em TERRA e a adubam, permitindo a renovação que será propiciada ao ser regada a terra pela ÁGUA.



É o ciclo da MORTE e VIDA! Para renascer é preciso morrer.



Este ciclo acontece também em nosso processo de desenvolvimento pessoal, na Individuação[3]. Passamos por momentos de morte (separatio): a perda de um ente querido, uma separação, a saída de um filho de casa (mesmo que seja por um bom motivo), a saída de um emprego (mesmo que seja pela aposentadoria), a mudança de casa ou de cidade, o afastamento de um amigo, a não concretização de um sonho etc. Nesses momentos de morte que vivenciamos, algo dentro de nós morre também. Não é apenas o outro que morre, mas ele morre também dentro de mim. E isso é o que é mais difícil de aceitar. Essa é a maior dor! Lutamos contra esse sentimento. Não queremos deixar que essa parte de nós morra também. Não queremos fazer essa separação.



Cristo, no Getsemani, estava angustiado diante da morte que ele já sabia que iria acontecer. Ele também não queria se deixar morrer. Havia um conflito: “Se for possível, passa de mim esse cálice”. O cálice da transformação. O cálice que simboliza a cuba alquímica do processo de transformação. Mas, por fim, Ele se rende e ora: “Faça-se, porém, a Tua vontade”. A vontade de Deus é a nossa própria vontade: não é a vontade de nosso Ego, mas a vontade do nosso Self, de nossa alma, de nossa essência: a parte Divina em nós.




Entre o Ego e o Self há o conflito. O ego não quer deixar morrer. O Self sabe que é necessária a morte para que haja a transformação, a transmutação dos elementos. É preciso deixar-se morrer! É preciso entregar-se à morte de nosso ego. É preciso passar pelo “vale da sombra da morte”. São momentos de dor emocional. Mas são momentos de preciosa transformação. Para que o nosso processo de Individuação aconteça é preciso deixar-se morrer. Nessa hora de dor, nossas lágrimas regam a terra que se prepara para uma nova vida que surgirá. Quando menos se espera, eis que da terra adubada, surge o verde, a esperança, a nova VIDA!



Para o Cristianismo, Cristo subiu aos céus e foi encontrar-se com o Pai É o Encontro do Filho com o Pai. Na descida do Espírito Santo há o Encontro de Deus conosco. São símbolos da coniunctio, o “casamento sagrado”.



Para a Psicologia Profunda, ao revivermos o ciclo alquímico, quer pela experiência pessoal, quer pela celebração da Páscoa, estamos possibilitando o processo de individuação, o encontro conosco, com o nosso próprio Self.



Pelo FOGO, a MORTE!


Pela MORTE, a SEPARAÇÃO!


Pela SEPARAÇÂO, as LÁGRIMAS!


Pelas LÁGRIMAS, a PRECE!


Pela PRECE, a COMUNHÃO!


Pela COMUNHÃO,


O ENCONTRO!



1. Neste texto apresento uma análise da Páscoa judaico-cristã, como metáfora do processo de transformação pessoal, com base na Psicologia Profunda.

2. A alquimia era a química da Idade Média e da Renascença, que buscava a pedra filosofal através da transformação dos metais em metais nobres. Jung estabeleceu paralelismos entre a Alquimia e a psicologia analítica, entendendo a transformação alquímica como o emblema da transformação psicológica.

3. Individuação – "Conceito central da psicologia analítica com o qual se entende genericamente o devir da personalidade, e em particular o processo de transformação contínua de uma individualidade”. Dicionário Junguiano – Editora Vozes e Paulus.


Gravura: Rembrandt Van Rijn
A Ressurreição, 1639, óleo sobre tela, 92 x 67 cm. Alte Pinakothek de Munique - Alemanha:


domingo, 16 de março de 2008

ALÉM DO BOJADOR

"Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal!”
Fernando Pessoa
Há momentos na vida em que temos a sensação de que vamos nos esvair nas lágrimas que correm de nossos olhos, que vamos nos afogar no mar salgado, que vamos nos diluir.
São momentos de extrema dor. Aquilo que queríamos que fosse, não é. O que se tinha, se foi, o que se quer, não chegou.
Entramos nesse mar (tal qual o povo cativo na marcha para a Terra Prometida), por não ter outra saída. Entramos no mar e marchamos, caminhamos adentrando o mar. Mas, somente quando as águas nos chegam no limite, o mar se abre e conseguimos atravessá-lo em terra seca.
O processo de psicoterapia se inicia muitas vezes nessa fase. O choro é abundante. Escuto aquela pessoa, à minha frente, angustiada, imersa em sua dor. Nada posso fazer. Apenas estar ali. Ela confessa suas angústias, seus descaminhos, seu infortúnio e chora, e chora, e chora! No choro, a angústia se dissolve. Tal qual após um temporal, a terra viceja, os raios de sol surgem, iluminando o caminho.

Para ir além, é preciso olhar para si mesmo. E não é fácil olhar-se no espelho. Enxergar a própria alma, que não nos parece tão bela quanto gostaríamos que parecesse, mas que, em sua essência, resplandece.
"Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas deixaram de casar, para que fosses nosso, ó mar!"
Quantas vezes pensamos que rezamos em vão? Parece-nos que nossas preces não passam do teto. Parece-nos que não somos merecedores de sermos atendidos em nossos desejos. Quantas vezes, tal quais as noivas portuguesas, fazemos planos que não conseguimos realizar?
Fernando Pessoa, através da metáfora, nos fala do processo de transformação iniciado no mar. Mar de lágrimas, onde se dissolvem nossas esperanças e nossos planos.
Valeu a pena?” Pergunta o poeta. Valeu a pena tanto sacrifício para as conquistas portuguesas? Tudo vale a pena, responde. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena!”
A alma pequena não entende o significado do sofrimento. A alma pequena não transcende o sofrimento. A alma pequena não alcança a dimensão maior da realização.

”Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.”
A alma pequena contenta-se em ficar aquém do Bojador.
O Cabo do Bojador, até o século XV, representava para os portugueses o maior desafio para se alcançar novos mares, novos continentes. As embarcações que tentavam contorná-lo desapareciam, o que criou o mito da existência de monstros marinhos e da intransponibilidade do Bojador. Até que, em 1434, Gil Eanes conseguiu ultrapassar o cabo. Para essa proeza foram necessárias coragem e estratégia. Ao invés de tentar contornar o cabo próximo ao continente, Eanes afastou-se da costa, evitando as correntes marítimas que dificultavam a passagem.
Muitas vezes não acreditamos que conseguiremos ultrapassar o "nosso Bojador", pois acreditamos que é impossível e que existem "monstros marinhos", que são os nossos próprios monstros do inconsciente. É a nossa própria sombra que nos impede de enxergar a luz.
Nossos medos também nos impedem de "passar além do Bojador", pois nos apegamos aos problemas. Quando nos afastamos, tomamos distância, conseguimos enxergá-los em suas dimensões adequadas. Nos afastamos do campo de tensão e conseguimos encontrar soluções. Quando vemos de longe, tudo fica menor. Para encontrar alternativas é preciso tomar distância, assim como fez Eanes, afastando-se da costa do continente africano, para passar "Além do Bojador".
E o Poeta nos brinda ao final com uma preciosa pérola da Verdade mais antiga e profunda:
"Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu."
Somente enfrentado o perigo e o abismo do mar (que simboliza nosso inconsciente), e tendo a coragem de ir fundo em nossas dúvidas, medos e angústias, é que conseguiremos “chegar ao céu”. Enxergar o céu espelhado no mar significa estar mais próximo do nosso Self, do nosso “Si Mesmo”, da nossa Centelha Divina. Aproximando-nos da nossa essência, podemos viver a plenitude de nossas vidas.