sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

COMEÇAR DE NOVO



Cada ano que finda é mais uma página virada em nossas vidas!

É um tempo em que se aproveita para fazer reflexões sobre o que se passou. É tempo de fazer promessas que nem sempre serão cumpridas. É tempo de avaliar, reavaliar, repensar, planejar.

É tempo de pensar quão depressa passa a vida.É tempo de fazer contas, ou não... é tempo de viajar, de tirar férias. É tempo de festa e de comilança....

É tempo de ritual: branco ou outras cores que signifiquem aquilo que se quer realizar. É tempo de tomar banho de cheiro, de arruda – para dar sorte –, de comer lentilha, para ganhar dinheiro.

Cresci, como neta de libaneses, tomando uma tradicional sopa de lentilhas. Receita de família. Receita da minha avó! Um dia a família ficou sabendo que comer lentilha na passagem de ano trazia sorte e dinheiro.... Como nós já gostávamos mesmo da tal sopa de lentilhas, a família passou a comemorar sempre com a sopa. Virou tradição! Se desse mesmo certo, acho que eu e todos da família já estaríamos ricos....Acontece que, como muitos outros rituais e sugestões, tudo não passa de superstição.

Mas tem um ritual... esse eu recomendo. Dou garantias de que dá certo!

Pegue um papel em branco e uma caneta. Faça uma lista de tudo o que você viveu e não gostou. Liste as mágoas e rancores que você guarda em seu coração. Em seguida, medite sobre cada um desses itens de sua lista. Reflita sobre o motivo que gerou aquela insatisfação. Pense na sua responsabilidade sobre o que aconteceu. É fácil imputar sempre a culpa no outro... mas para que esse ritual dê certo, é preciso ser honesto e pensar: qual a minha parte de culpa pelo que ocorreu?

Em seguida, pegue um outro papel em branco. Da primeira lista, pense, para cada um dos itens da lista anterior, como você pode mudar a situação. O que você pode mudar no seu jeito de ser e de agir para evitar outras situações semelhantes, ou transformar o que aconteceu. Dessa reflexão, vá listando o que você pode fazer para ser, no ano que se inicia, uma pessoa diferente. Uma pessoa mais feliz.

Para finalizar, queime o primeiro papel. O papel da lista com as coisas que você não quer mais para sua vida. Mas QUEIME mesmo!!!! Cuidado para não botar fogo na casa.... mas, queime! E enquanto a chama apaga tudo aquilo que você não quer mais, acompanhe com os olhos a fumaça que leva para o alto, como um ritual de entrega, de sacrifício, tudo aquilo que você quer deixar. Parece fácil, mas não é não...

Em seguida, depois de queimadas as coisas que você não quer mais, pegue o segundo papel. Aquele em que você escreveu suas propostas de mudança. Leia-as novamente. Aproprie-se delas. Agradeça pelas mudanças que já estão ocorrendo em sua vida. Guarde o papel num lugar em que você vai sempre vê-lo. Um livro, por exemplo, ou o espelho do banheiro, ou qualquer outro lugar visível. Guarde-as, principalmente, em sua mente e em seu coração!

Cumprindo esse ritual com sinceridade, com verdade e com vontade de mudar, tenha certeza de que as mudanças começam a acontecer mesmo antes de você perceber. Tenha certeza de que no próximo ano, quando for repetir o ritual, você perceberá o quanto mudou, mesmo sem perceber. Você, durante o ano, vai começar a perceber que as pessoas o vêem diferente, mesmo que não se manifestem a esse respeito. Você vai perceber que novos relacionamentos vão surgir na sua vida. Haverá, certamente, relacionamentos que irão... sendo uma pessoa diferente, você vai atrair pessoas e relacionamentos diferentes também.

Pode ser que você ache isso tudo que falei uma grande bobagem e nem consiga acreditar na proposta.... fazer o quê?

O ritual de mudança só dá certo para quem quer mudar! Para quem deseja se aperfeiçoar! Para quem tem a coragem de olhar para si mesmo e, humildemente, ver o que precisa mudar. Para quem tem vontade e persistência!

O ritual só dá certo para quem acredita! Não só na proposta, mas principalmente para quem acredita em si mesmo e na sua capacidade de mudar!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ainda, o NATAL!

Hoje é NATAL!
Recebi ontem esta linda mensagem de Natal do amigo Aldo Fagundes, que autorizou a sua publicação. Muitos leitores até hoje comentam pessoalmente a mensagem do mesmo autor, publicada no Natal de 2007. Que esta possa mais uma vez nos inspirar!

NATAL

Natal é o tema desta hora. A gruta de Belém. A Manjedoura. O momento especial onde Deus invadiu a História, ao nascer como uma criança.

Dos textos bíblicos reacionados com o Natal, destaco dois: Isaias 11 e Lucas 2. Tão bonitos, na singeleza, na simplicidade, na ingenuidade até da descrição. O Profeta fala de um renovo que há de vicejar de um tronco.Tudo se foi ou tudo passou. Está só o tronco, mas do que sobrou Deus faz nascer um renovo, como um sopro de primavera, cheio de vida e de flores.

Este renovo, na palavra do Evangelista é a Encarnação. O Menino de Belém é a gloriosa Promessa. É a misericórdia de Deus. É a compaixão de Deus. é a oblata de Deus.

Neste final de ano, com gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas, procurei uma palavra-síntese, para com seu enunciado apresentar a mensagem de Natal. Encontrei-a no Apóstolo Paulo. A palavra é esta: Reconciliação. Escreveu o Apóstolo, na segunda Carta aos Coríntios: "...Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo... Em nome de Cristo, pois rogamos que vos reconcilieis com Deus". (II Cor.5.19 e 20)

Esta é a mensagem: Reconciliação!

Reconciliação de cada um consigo mesmo, superados, em Deus, os temores, as angústias, as incertezas e as perplexidades quanto ao futuro. Reconciliação com o próximo, na família e no lar, na comunidade e no trabalho - um gesto de tolerância e paz. Reconciliação com Deus, o único Senhor, aquele que, na Encarnação, tomou a iniciativa na pessoa de seu próprio Filho. Aquele que é sempre perdão e amor.

Deus é por nós. Por isso, aquele raio de luz da Mangedoura de Belém não apenas invadiu a História. Aquele raio de luz até hoje ilumina a nossa caminhada na busca da vida eterna.

Feliz Natal e que Deus nos abençoe.



Aldo Fagundes foi deputado federal por quatro legislaturas e assessor especial do PMDB por 4 anos. Encerrou sua brilhante carreira pública como Presidente do Superior Tribunal Militar. Hoje, além de outras atividades, é professor da classe de adultos na Escola Dominical da Igreja Metodista da Asa Sul, em Brasília.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O MENINO-DEUS



Poderia ser uma mulher como outra qualquer... Poderia ser uma cidade como outra qualquer... Poderia ser um berço qualquer...

Mas foi de uma mulher escolhida por Deus, em condições especiais, que nasceu um menino diferente!

O Menino-Deus!

Deus que se fez humano, que habitou entre nós!

Que mesmo sendo Deus, viveu como homem!

Um homem comum, como outro qualquer!

Com os mesmos desejos e medos. Com as mesmas emoções!

Ele veio com uma missão especial: nasceu para morrer! Morreu para renascer... e fazer nascer dentro de cada um de nós, a possibilidade de nos eternizar!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O MELHOR PRESENTE DE NATAL

Mais uma vez, chegou o Natal!

O Natal tão comemorado pelas crianças! O Natal tão comemorado nas famílias e nas igrejas!

Mas quem mais comemora atualmente o Natal é o comércio!

Natal é tempo de festa, de alegria!

Mas também é tempo de luto e de tristeza...

O que para muitos é alegria, é reunião de família, é troca de presentes, para muitos outros também é motivo de tristeza, é motivo para entrar em contato mais profundo com a amarga solidão.

É tempo de lembrar as pessoas queridas que se foram. È tempo dos casais separados disputarem a presença dos filhos em suas comemorações. É tempo de casais discutirem sobre a agenda das festas. A agenda vai virando um eterno motivo de conflitos.

Os casais “têm que” dar atenção para a família de ambos. E aí família não significa a família nuclear (pai, mãe e irmãos) de cada um dos cônjuges. Família de Natal é a grande família: inclui avós, tios e primos de ambos. A agenda fica cheia.

Pior ainda quando o casal se separa, pois os filhos são solicitados, obrigados, chantageados, para cumprirem a agenda de Natal. As crianças exercem papel especial nessa disputa. Natal sem criança não tem graça! “O bom do Natal” é ver aquela bagunça de presentes abertos, brinquedos que os adultos gostariam de ter ou de ter tido. Quem já não presenciou a cena de pais disputando o privilégio de brincar com os brinquedos dos filhos?

Além dos conflitos de agenda das família, há a tristeza de quem não tem família perto, e de quem vive o luto. Vive a tristeza de lembrar que outrora a família se reunia com a presença de alguém que já se foi.

Por tudo isso é que o Natal, tão apregoado como festa pela alegria do Nascimento de Jesus Cristo, pela Encarnação de Deus, acaba sendo motivo de brigas, confusões, disputas, tristezas.

O que deveria unir família, muitas vezes afasta pessoas que gostariam de estar sempre juntas.

A data escolhida para o Natal, ao contrário do que muitos pensam, nada tem a ver com a data de Nascimento de Jesus. Antes já existia uma festa pagã nessa época. “Segundo certos eruditos, o dia 25 de dezembro foi adotado para que a data coincidisse com a festividade romana dedicada ao "nascimento do deus sol invencível", que comemorava o solstício do Inverno. No mundo romano, a Saturnália, festividade em honra ao deus Saturno, era comemorada de 17 a 22 de dezembro; era um período de alegria e troca de presentes. O dia 25 de dezembro era tido também como o do nascimento do misterioso deus persa Mitra, o Sol da Virtude. Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, a Igreja forneceu-lhes um novo significado, e uma linguagem cristã” (Wikipédia).Para distrair a atenção do povo pagão, e trazê-los para o Cristianismo, a tal festa foi transformada em Natal, nascimento de Cristo. Já que não dava para competir, a Igreja resolveu se aliar. Aproveitar a antiga data e oferecer outro motivo.

O disfarce parece que deu certo... até um certo ponto!

Acontece que o novo argumento, a Encarnação, não dissipou o jeito antigo e pagão de comemorar. Daí é que o nascimento de Cristo, que foi humilde, simples, despojado, passa a ser comemorado com esbanjação, com exageros de presentes e de comida. Com falsas alegrias, com fingimentos de estar feliz.

Minhas reflexões podem parecer pessimistas... e talvez você se pergunte: afinal, porque falar de tristeza nas vésperas do Natal?

Perdoem-me... minha intenção não é essa.

O que desejo é que neste Natal, você possa comemorar, não a origem do Natal, mas origem do novo motivo escolhido para o Natal: O nascimento de alguém que veio trazer uma proposta diferente para nossas vidas.

Que o Natal não seja apenas a lembrança histórica do nascimento de um menino que nasceu em Belém.

Que, quem sabe... você possa começar a ver diferente!

Que o Natal para você não seja ceia, comilança, reuniões, presentes nem gastanças exageradas.

Que neste Natal você possa se propor a ter relacionamentos mais verdadeiros. Que as reuniões gerem intimidade. Que se possa falar a verdade e viver a realidade.

Um festa em que o Amor Verdadeiro seja o melhor presente!

domingo, 14 de dezembro de 2008

QUE LIVRO É ESSE?


“Tem Bíblia com cantor?”

A pergunta foi feita por uma senhora que acabara de entrar na loja da Sociedade Bíblica, onde eu trabalhava. Era o ano de 1973. A loja ficava no Edifício da Bíblia, um gracioso prédio na avenida L2 norte, em Brasília.

Aquele era praticamente o meu primeiro emprego entre os 18 e 19 anos de idade. Eu gostava de receber as pessoas que iam lá comprar Bíblias e outras publicações da SBB. Eu gostava de identificar, pela forma de se vestirem, pela linguagem que utilizavam, pelo “jeito da pessoa”, qual a igreja que freqüentavam.

A senhora que perguntara sobre a “Bíblia com Cantor,” estava à procura da Bíblia em que tinha acoplado o Hinário Cantor Cristão. Provavelmente ela era da Igreja Batista, que utiliza até hoje esse hinário. Havia também aqueles que procuravam a Bíblia com Harpa Cristã. Esses se vestiam com roupas mais comportadas e as mulheres tinham o cabelo comprido. Eram da Assembléia de Deus.

Além de gostar de vender Bíblias, eu gostava de conversar com aqueles irmãos e irmãs. Gostava muito de trabalhar lá. Hoje, como psicóloga, posso avaliar que foi a empresa com o melhor “clima organizacional” em que trabalhei. Começávamos o expediente com uma devocional, dirigida pelo então Secretário Regional em Brasília, Rev. Valdir Soares.

São lembranças que alimentam a minha alma. São lembranças de um tempo importante para mim. Um tempo de muita aprendizagem profissional, além de um tempo de uma preciosa aprendizagem vivencial sobre relacionamento no trabalho e sobre o sentido de missão no trabalho.

Minha convivência com a Bíblia começou muito cedo. Desde sempre, em casa e na Escola Dominical, eu tinha acesso às histórias da Bíblia. Tenho uma foto, onde eu tinha uns dois a três anos, lendo uma revista. Hoje, com a tecnologia, escaneei e ampliei a foto. Tinha curiosidade para saber que revista era aquela que eu lia. Pude identificar o título da história: JESUS. Lembrei então da revista Nosso Amiguinho, publicada pela Igreja Adventista, que contava histórias bíblicas. Assim cresci gostando de ler a Bíblia.

Quando criança, eu lia as histórias do Antigo e do Novo Testamento. Gostava das histórias com crianças, como a de Davi e Golias e de Samuel, que ouvira a voz de Deus. Gostava da história (ou seria estória?) de Jonas na barriga da baleia. A história de Zaqueu, que subiu na árvore, e a da menina que Jesus ressuscitou. Histórias bem mais interessantes do que essas que habitam nas mentes das crianças de hoje, empanturradas de televisão. Histórias que traziam o inacreditável em que se podia acreditar.

Depois, na adolescência, na idade de florescer as primeiras paixões, gostava de ler os Cânticos, a bela poesia ao amor. Nas horas de angústias, gostava de ler os Salmos. Eram a minha “terapia”. Eu procurava um Salmo que se identificava com aquele momento que eu estava passando. Na medida em que eu ia lendo e que o salmista ia melhorando o seu estado de espírito, eu pegava uma carona e melhorava o meu também.

Mas houve uma fase em que eu comecei a ver a Bíblia com outros olhos. Com olhos críticos, “científicos”, e comecei a questionar os fatos e analisar racionalmente os relatos. Alguns eram “difíceis de engolir”.

Mais tarde, quando passei a estudar Psicologia, comecei a perceber que muitos relatos que antes eu questionara, à luz da psicologia, faziam sentido, como por exemplo as curas que Jesus fazia. A psicossomática, que estuda a relação entre as doenças psíquicas e somáticas, traz alguma contribuição a essa compreensão. Há estudos sobre a energia do corpo humano que explicam a fala de Jesus, quando Ele disse que sentiu poder saindo de si, quando a mulher que o tocou ficou curada.

Estudando a Psicologia Analítica, que aprofunda o estudo do simbólico, encantei-me ainda mais com os escritos bíblicos, passando a considerar muitas passagens que, embora eu aceitasse pela fé, no fundo as achava meio absurdas. Passei a entender o caráter simbólico de muitos textos bíblicos. Embora eu não consiga entender praticamente nada de Física Quântica, já percebo também que há explicação científica para muitos outros relatos.

Essa ainda é uma caminhada longa... Se para mim, no início, a Bíblia era um livro de fé e religião, hoje descubro que é isso e muito mais. É um livro incrível, em que, cada vez mais, descobrimos novas verdades, novos parâmetros e é incrível como foi escrito há tantos anos atrás.

No segundo domingo de dezembro comemoramos o Dia da Bíblia. Nada mais justo! Merecida homenagem ao Livro dos Livros. Não foi à toa que foi o primeiro livro a ser impresso por Gutemberg. Pelo direito das pessoas comuns de terem acesso à sua leitura foi que Lutero a traduziu, e assim, sem que tivesse a intenção, nasceu a primeira Igreja Reformada.

A Bíblia é livro de cabeceira. Nos mistérios, que são insondáveis, ela mesma se explica: “Agora conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido”.

Sábios são os homens e as mulheres que a lêem e meditam em suas palavras!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O TEMPO VIROU...

Outro dia uma leitora do Blog comentou a crônica "E A PRIMA VERA SE FOI". Disse-me que gostou, mas achou o final triste, por eu ter escrito que "a primavera da minha vida se foi".

Achei interessante, mas ao mesmo tempo estranho ela ter feito esse comentário. Estranho porque para mim é natural a passagem do tempo e da vida. Disse a ela que, realmente, a primavera da minha vida se foi. Já não é mais tempo de desabrochar em flor. Já se foi o tempo do viço da juventude. Agora, disse-lhe, eu vivo um outro momento. O momento do outono. Outono é a época de se colher os frutos do que se plantou.

Compartilho essa experiência e esse pensamento porque tenho visto pessoas inconformadas com a passagem do tempo. O aparecimento das primeiras rugas já é motivo para usar botox. As segundas prenunciam o tempo de cair na realidade do tempo que passou. São pessoas que não viveram suficientemente o passado, a primavera e o verão de suas vidas. Não viveram talvez por pensar demasiadamente no futuro. Vivemos na juventude pressionados pela necessidade de investir na profissão, de construir família, de construir patrimônio. Quando acordamos percebemos que os filhos já cresceram e saíram de casa. Percebemos que o tempo passou.

Alguém já disse que a vida passa como as quatro estações: primavera, o florescer; verão, o tempo quente das paixões; outono, o tempo de colher os frutos do que se plantou; inverno, o tempo de se recolher.

Gosto de todas as estações!

A primavera é o tempo de florescer. Gosto quando surgem os primeiros ipês... depois vêm os flamboyans... o colorido das copas em pouco tempo colorem a grama! O vento espalha cor e alegria nas asas de seu frescor! Assim também, em nossa vida, a beleza do desabrochar perfuma o tempo e alegra a todos ao redor! O sorriso da criança abre nossos corações para contemplar a beleza desse amanhecer.

O verão é tempo de dias mais longos, de terminar o expediente à luz do sol, com tempo para caminhar. É tempo de férias, é tempo de sol e calor. É tempo de andar descalço na praia, de ficar à vontade de shorts e de maiôs...De vestir roupas coloridas, de se sentir, independentemente da idade, um pouco mais jovem também. No verão de nossas vidas, é o tempo quente das paixões. Não só as paixões do amor, mas também as paixões do trabalho, as paixões dos movimentos políticos e sociais, as paixões dos nobres ideais!

O outono é tempo de colher os frutos maduros que se plantou. Os frutos plantados por nós. Os frutos que o outro plantou. Quem trabalhou, investiu, pode agora apreciar o resultado de seu trabalho. É tempo de reconhecimento profissional. É tempo de ver os filhos crescidos, realizando os sonhos deles e os nossos de vê-los bem. É tempo de saber que os ideais e esperanças da juventude, mesmo que nem todos eles tenham sido realizados, foram importantes para termos chegado até aqui. Os sonhos impulsionaram as realizações, mesmo que não tenhamos realizado especificamente aquilo que queríamos. Por não sermos donos do mundo e não controlarmos todas as variáveis, nem sempre as coisas saem do jeito que desejávamos. Mas, mesmo assim, quando vivemos o outono de nossas vidas, sabemos que as coisas que não aconteceram, não aconteceram porque não tinham que acontecer. São como os frutos que não vingaram e não fizeram diferença, pois havia tantos outros, que não haveria mãos para colher.

Em Brasília há quem não goste do inverno. O inverno aqui é seco. O gramado, marca registrada daqui, fica cinzento. Havia um tempo em que eu não gostava do inverno de Brasília. Eu olhava para baixo, para a grama e pensava: como a grama está feia! Mas um dia, comecei a olhar para as árvores. Já reparou como as árvores no inverno de Brasília ficam bonitas? As folhas secas vão mudando a cor das copas, que ficam avermelhadas, refletindo o lindo pôr-de-sol desses tempos de seca. Quem olha sempre para baixo não gosta do inverno de Brasília. Quem olha sempre para baixo não gosta do inverno de suas vidas.


Inverno é tempo de recolher. Não recolher da vida. É tempo de recolher para apreciar tudo o que plantamos, tudo o que colhemos, tudo o que foi realizado. É tempo de sentir que a vida vale a pena! Antigamente era um tempo em que avós ficavam em casa esperando a visita de filhos e netos. Era tempo de ficar sentado na cadeira de balanço com óculos de leitura, fazendo crochê. Era tempo de sentar no sofá assistindo televisão. Hoje, não! As pessoas que antes eram "velhas", hoje são vigorosas, freqüentam academias, viajam e são presença freqüente nos programas culturais. Saem para dançar e aproveitam o tempo para namorar.

Hoje em dia, parece mesmo é que o tempo virou. E tudo o que era já não é mais. Parece que não existe mais primavera, verão, outono e inverno... Tem gente florescendo aos cinqüenta, tem gente malhando aos sessenta, tem gente estudando aos setenta e tem gente namorando aos oitenta.....

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

“EM TUDO DAI GRAÇAS”

Hoje é Dia de Ação de Graças!

Aqui no Brasil quase não se comemora o Dia de Ação de Graças! Seria por que o comércio não tem interesse?

Com o Natal é diferente. Quando termina a semana da criança, o comércio já prepara as vitrines para o Natal. Dessa forma ninguém se esquece, pois as crianças já começam a fazer suas listas com tudo aquilo que pensam que precisam.

Nos tempos de antigamente, sem querer ser saudosista, tudo era mais simples. Até os presentes que as crianças pediam eram mais baratos.

Hoje, com tantas atrações tecnológicas, fica difícil fugir do desejo de ter tudo aquilo que sai de novidade. Mal compramos um celular último tipo e é lançado um novo com mais recursos. São os brinquedos de gente grande: smartphones, notebooks, câmeras digitais, TVs LCD e por aí vai....

As necessidades passam a ser criadas a partir do desejo de obtê-las e não das condições para que elas serviriam. Quando queremos ter aquele "brinquedo novo", nós, adultos, muitas vezes, sem ter consciência disso, estamos compensando as nossas frustrações pelos brinquedos desejados que não ganhamos quando éramos crianças. E aí, como "agora eu posso", vão se presenteando com cada novidade que aparece.

Bom, se a renda permite, ótimo! Por que não? O problema é que existe uma grande parte da população de classe média que, não resistindo às tentações, recorre à "fada madrinha", ou ao "gênio da lâmpada": os cartões de crédito e os cheques pré-datados. E aí, entrando no cheque especial, ou sem conseguir quitar seu saldo mensal, vão deixando acumular dívidas, pagando juros altos e cada vez se enrolando mais. Chega a um ponto, quando se percebe que está completamente enrolado, para não enfrentar o problema de frente, nem fazem mais as contas e pensam assim: já que eu estou endividado mesmo, que diferença faz ficar mais endividado ainda?

Esse tem sido um mal que tem levado muita gente à depressão, aos conflitos familiares e às vezes até mesmo às separações. Pessoas que não conseguem controlar os seus orçamentos.

Quem sabe, então, ao invés de comemorarmos com tanta intensidade o Natal, passemos a enfatizar mais o Dia de Ação de Graças: vamos agradecer por tudo que temos!

Pela vida, pela saúde, pela natureza, pelos amigos. Pelo alimento a cada dia - quantos passam fome? - Pela nossa casa, mesmo não sendo aquela dos sonhos - quantos não tem teto? - Pelo carro, mesmo não sendo do ano nem o último modelo - quantos andam a pé? - Pelo celular, mesmo que não seja o modelo mais avançado - lembra de quando não existia celular? - Pelo computador, mesmo que seja lento - lembra do tempo da carta e da máquina de escrever? E assim podemos ir agradecendo cada uma das pequenas coisas que às vezes achamos que não são importantes....

Essa pode ser uma boa forma de começarmos a nos sentir mais satisfeitos. Um antídoto para os nossos desejos frustrados e a insatisfação que se traz desde a infância.

Quem sabe, dessa forma, se consiga comprar menos, endividar-se menos e, certamente, ser mais feliz!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

NADA ACONTECE POR ACASO...


A história começou assim: no início deste blog, um dia publiquei uma crônica intitulada "Cada um carregue (somente) sua mochila". Foi uma crônica que marcou. Muitos leitores comentam até hoje sobre a metáfora. Muita gente passou a ficar mais atenta a seu processo, a não ficar carregando aquilo que não é seu. Ou seja, a não ficar se preocupando com coisas com as quais não precisa se preocupar. Não ir além de seu papel. Quando fazemos mais do que nos cabe nesta vida, acabamos deixando o outro acomodado, tiramos a oportunidade do outro cuidar de suas próprias coisas. Impedimos o outro de crescer. Como eu utilizei o exemplo do Caminho de Santiago, pesquisei na web, encontrei e publiquei uma foto de um rapaz no tal Caminho, com a sua mochila nas costas.

Pois bem! Ontem recebi um e-mail que muito me alegrou: o dono da foto, navegando na internet encontrou no meu blog a foto que ele havia tirado quando fez a Caminhada. Ele me escreveu dizendo que ficou contente pela publicação. E eu, então, fiquei mais contente ainda... que mundo pequeno! Que mundo interligado, globalizado. Trocamos alguns e-mails e eu fiquei mais feliz ainda em conhecer a história do Marcio Gaziro, que é fotógrafo e mora em São Paulo. As fotos do Marcio são lindíssimas!!! Ele consegue fotografar a alma dos caminhos e monumentos, mostrando a vida que existe em pedras e construções, coisas que só vê quem entende dessas coisas.... E, como nada, nada mesmo, acontece por acaso, na troca de e-mails ele me contou a sua história, que publico aqui.

"Bom, Dulcinéa o personagem na fotografia não sou eu e sim meu amigo Carlos; vou enviar uma foto minha para vc me conhecer.


Dulcinéa, não sei explicar muito bem o que me levou a fazer o caminho em 1998, talvez o fato de ter perdido o meu emprego ou por estar querendo viajar, me aventurar, coisas assim (quando se tem 25 anos)... na verdade eu queria ir para Machu Picchu e acabei percorrendo o Caminho (eu fui sozinho).

Foi uma experiência fantástica; pude conhecer muitas pessoas de outras culturas, ver a história ao vivo, sentir todas as emoções que uma pessoa possa sentir, me divertir muito, muito mesmo, tomar muito vinho e cerveja e viajar leve, muito leve. Quando cheguei à cidade de Santiago senti algo estranho, era como se o meu corpo tivesse chegado e completado a jornada, mas minha alma ainda estivesse por vir; levei algum tempo para assimilar essa sensação, já no Brasil.

Depois do caminho comecei a fazer tudo que tinha vontade, fotografar, escalar montanhas íngremes etc... e realizei o que era meu sonho de criança: conhecer Machu Picchu.

Em 1999 fui trabalhar no Consulado Americano, que me deu boas condições financeiras;
acredito que em junho ou julho de 2000, não me lembro bem, o caminho de Santiago começou a aparecer para mim. Explico melhor: por onde eu ia sempre eu via algo
relacionado ao caminho (livros, setas amarelas, camisetas etc) ou alguém vinha me falar do caminho, e isso aconteceu por cerca de quatro meses, e quando eu decidi realizar o caminho novamente, os sinais pararam.

Eu conheci o Carlos (o cara da foto que vc publicou) em novembro de 2000, em uma escalada que eu realizei, e ele decidiu fazer o caminho comigo. Como iria viajar com o Carlos, tive que adiantar um dia no meu embarque para a Espanha; eu iria viajar em uma sexta à noite e acabei viajando no sábado à tarde, fato que mudou minha peregrinação.

Eu e o meu amigo começamos a caminhada em uma pequena cidade de nome Saint Jean Pied de Port e chegamos em Roncesvalles; em Roncesvalles conheci uma brasileira de nome Márri, que havia acabado de chegar de Pamplona. Se o Carlos não tivesse viajado comigo, eu não teria conhecido a bela Marri, porque eu estaria um dia à frente; caminhei com a Márri durante alguns dias, nós nos apaixonamos loucamente um pelo outro e nos entregamos intensamente a esse amor.

Então, Dulcinéa, eu não caminhei pelos campos de trigo da Espanha e sim flutuei pelo caminho, assim como ela; foi a experiência mais intensa que eu vivi, era como só existíssemos eu e ela no caminho e cada um carregava a sua própria mochila. Chegamos em Santiago juntos e eu voltei primeiro para São Paulo. A separação foi muito difícil, foi o dia mais difícil da minha vida; Márri voltou para o Brasil uma semana depois e nós nos encontramos, uma semana depois, a chama do nosso amor se acendeu novamente, e passados 7 anos eu e a bela Márri continuamos juntos e essa peregrina cada dia que passa fica mais linda.

Dulcinéa, você perguntou se o caminho fez diferença em minha vida? Em 1998 ele me trouxe a liberdade; em 2001, o Amor!"



Que linda história!!!!!

Obrigada, Marcio, por compartilhá-la conosco!

Os caminhos da alma são assim mesmo... as coisas acontecem do jeito que têm que acontecer....


Foto: Marcio Gaziro no Caminho de Santiago

A PRIMA VERA SE FOI

Outro dia, num desses almoços de família, minha mãe, que já passou dos 80, falou assim, na maior naturalidade, como se estivesse contando que a empregada foi lá na esquina: "a sua prima Vera morreu..."

A notícia bateu no meu estômago, quicou, foi até à cabeça, desceu, quicou no joelho e foi se alojar no meu coração. Meu coração não se conteve e pediu ajuda para os meus olhos que começaram a chorar...

Minha mãe, então, percebendo o impacto daquela notícia, que ela achava sem importância para mim, comentou: "ah!!! ela tinha a sua idade, né?"

Eu ando achando que, para quem já está no início da fila de entrada pro céu, essas notícias sobre morte vão ficando tão freqüentes que, de tão corriqueiras, vão ficando banais... "-Sabe quem morreu? Fulano..." - "Ah é?... de que?".... Bom, dependendo de quem deu a notícia, a explicação é detalhada, contando tim-tim-por-tim-tim desde os primeiros sintomas até a hora em que o coração parou de bater. Há um sentimento de comoção, sim, mas parece que de conformismo também. Parece até que essas pessoas que já estão se preparando para sua hora já sabem que não vai demorar muito para encontrarem os outros por lá....

Deixa eu "limpar a barra" da minha mãe, afinal ela não é tão insensível como poderia parecer! Acontece que eu e a prima Vera tivemos muito pouco contato. Eu não exagero se disser que nós duas, na realidade, só nos vimos no máximo alguns dias durante duas férias na casa dos nossos avós. E isso foi lá pelos nossos nove ou dez anos de idade. Depois dessa idade nunca mais a gente se viu. Nunca mais a gente se encontrou. Às vezes a minha mãe, quando ficava sabendo de alguma coisa, ia repassando as notícias da prima Vera para mim. Um dia que ela se casara, depois que se separou, acho que até tinha uma filha... mas, para ser sincera, às notícias da prima Vera adulta eu nunca prestei muita atenção. Era como se fosse uma pessoa desconhecida para mim.

Acontece, porém, que a prima Vera criança, essa sim ficou muito viva na minha vida. Até hoje, quando eu estouro pipocas, eu gosto de salpicá-las com molho inglês. Foi a prima Vera quem me ensinou essa dica. Fica uma delícia! Aí, então, sempre que estouro pipocas em casa e salpico com molho inglês, eu me lembro da prima Vera. Lembro das nossas demoradas voltas no quarteirão, lá na cidadezinha do interior de São Paulo... a gente ia "dar uma volta no quarteirão" para, longe das vistas das nossas mães, conversarmos sobre coisas que, naquela época, eram proibidas às crianças de dez anos conversarem e que, hoje em dia, as crianças de três anos já assistem nas novelas da televisão.

Era uma idade tão linda, na inocência da ilusão e da curiosidade! Um dia, eu me lembro, estávamos nós quatro: eu, a Vera, a Heleninha e a Cintia, priminhas um pouco mais novas, quando a Leninha perguntou: "a mãe de vocês já falou sobre o sutiã?". Eu, mais acanhada, fiquei calada, mas a prima Vera, que sabia das coisas, deu um sorriso maroto, que eu logo entendi... a gente, que já tinha dez anos, já sabia de mais coisas. A gente já sabia sobre menstruação: um "status" para as meninas de nosso tempo.

Mas... a prima Vera se foi!

Lembrei dessas histórias hoje, quando estava estourando pipocas para acompanhar um DVD. Peguei então o notebook e comecei a escrever essas minhas lembranças...

As lembranças da minha infância, da minha adolescência, da PRIMAVERA da minha vida que se foi...

FELICIDADE "AO QUADRADO"

Ao receber a notícia, ela chorou!

Não era um choro de tristeza! Não era um choro de alegria!

O filho anunciara que ia se casar.

Para ela, mais do que novidade, era um desejo. Já esperara muito por aquela notícia, mas naquele dia a notícia a surpreendeu.

Era um misto de surpresa pois, de tanto esperar, já havia desistido de esperar. Às vezes, quando a espera parece longa, é melhor parar de esperar. É melhor desistir daquilo que se espera. É melhor deixar o destino decidir.

O seu filho iria se casar! O filho adulto já saíra de casa há muitos anos... não era a separação o motivo do choro. Muitas mães, e não são poucas, ressentem-se ao se casarem os filhos homens. Esquecem-se que o cordão já se rompeu no parto e que há muito o leite secou. Daí, talvez, a folclórica implicância de sogras e noras, pela disputa do filho/homem. O filho, quando já é homem, precisa deixar o seio materno para se entregar ao seio da mulher amada. Não o seio do alimento, mas também o seio do prazer.

O choro daquela mãe, cujo filho anunciara que iria se casar, era um choro diferente de alegria ou tristeza: era um choro de felicidade!

Felicidade de saber que tudo ia bem! De ver o fruto amadurecer! O fruto da árvore que plantou!

É um sentimento de saber que as coisas acontecem como e quando têm que acontecer. De saber que tudo tem o seu tempo e a sua hora.

É um sentimento de completude e realização.

É a felicidade de saber que o outro está feliz!

Tem gente que não consegue ficar feliz porque o outro está feliz, mesmo que esse outro seja seu filho ou filha.

Existem mães e pais que sentem ciúmes da felicidade dos filhos. Por não conseguirem se realizar como pessoas, com seus próprios objetivos, às vezes projetam seus desejos nos filhos. Querem que seus filhos sejam felizes por eles.

Às vezes, e isso é pior, boicotam a felicidade dos filhos. Querem para si mais atenção do que lhes seria necessária. Querem exigir que seus filhos devolvam o amor recebido, como se amor fosse moeda de troca. "Eu amei você, eu cuidei de você, agora você TEM que cuidar de mim". Não deixam para os filhos o espaço necessário para viverem suas próprias vidas. E aí começa o ritual de obrigações familiares: tem o dia certo de almoçar na casa dos pais dele, outro dia, na casa dos pais dela... se os pais de ambos são separados, então, como fica? E Natal? Pode parecer simples, mas não é não... Na clínica psicológica, adivinha qual é o tema mais recorrente na semana de Natal? O que seria para ser festa e alegria passa a ser obrigação, disputa, desunião.

Amor de filhos adultos para com os pais é um amor diferente: é um amor de gratidão, de troca, de companheirismo! Tem que ser livre e solto, tem que dar espaço para a opção. Se vira obrigação, deixa de ter valor, deixa de ter alegria... perde a graça!

Mas há um sentimento difícil de explicar: é o de sentir-se feliz e realizado por si mesmo. Pela sua própria vida, independentemente da realização através dos filhos.

E aí, quando a pessoa se sente assim, feliz por si mesma, ao ver a felicidade dos filhos tem sua felicidade potencializada!

E isso não dá para descrever... só consegue entender e sentir quem consegue dessa forma viver!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

FELICIDADE

O que é felicidade para você?

A pergunta, dirigida a todos os presentes, aconteceu não em uma igreja, nem em uma sessão de terapia, muito menos em algum curso de auto-ajuda. Era um grupo de amigos que passavam juntos um fim de semana. Lá pelas tantas cervejas e algumas horas, o mais etílico de todos, emocionado com a alegria da convivência entre amigos, propôs aquele tipo de "dinâmica de grupo". Todos deveriam definir o que significava felicidade.

Para uns era a busca, para outros o encontro. Podia ser intenção, ou um estado permanente. Um momento? Ou a sequência de momentos? Seria estar só? Seria estar com os outros? Seria estar com pessoas que a gente gosta? Seria encontro por acaso? Seria um convite inesperado? Seria apenas uma idéia?

Enquanto as opiniões se sucediam, falando cada um de si, de como sentiam aquele momento que parecia mágico, meus pensamentos viajaram por minha vida, pelos inúmeros momentos que passei em companhia de amigos e pessoas queridas. Nas viagens que fiz, nas buscas que realizei. Pensei nos momentos de tristezas e de alegrias. Pensei nas situações de conquistas e de perdas. Pensei nas perdas de pessoas queridas e de como essas faltas repercutiam em mim. Pensei na minha própria vida e no meu desejo e busca de felicidade.

Lembrei que um dia alguém me disse: "Eu já não estou mais buscando...eu já encontrei!" Quando ouvi aquela afirmação, muitos anos atrás, senti um misto de inveja, de desejo e de incredulidade. Como alguém poderia afirmar que já encontrou nesta vida o que tantos procuram?

De repente, naquela noite, entre amigos, percebi que eu também já não estou mais buscando. Pode parecer até, para quem lê essas linhas, um pouco de presunção de minha parte. Assim como eu outrora não poderia acreditar no que ouvia.

Posso explicar: as pessoas confundem felicidade com alegria. Alegria é uma emoção! Ninguém é alegre o tempo todo. Existem também momentos de tristeza, de ansiedade e de angústia.
Mas, Felicidade, do jeito que eu entendo e sinto, é um estado permanente da alma.

Antigamente eu achava que ser feliz era estar alegre e contente o tempo todo. Hoje sei que isso é impossível, pois a felicidade é subproduto do amor. Não do amor romântico que vem e vai. Mas do Amor maior que flui da alma. O Amor que vem do Criador. O amor que transcende barreiras, que crê, que espera, que suporta.... como o apóstolo Paulo bem descreve.

Para ser feliz é preciso amar. E quem ama muitas vezes sofre pelo outro. Quem ama esse amor universal não fica alegre quando vê um mundo onde existe sofrimento.

Por isso, para mim, a felicidade está muito mais próxima da paz do que da alegria.

É possível estar em estado de permanente felicidade! Quando contemplo a beleza do universo, quando sinto o amor fluir de meu coração, quando vejo o sorriso de uma criança, algo lá dentro de mim me diz que isso é felicidade.

Quem é feliz às vezes pode viver momentos de tristeza. Mas, com certeza, vai viver muitos momentos de alegria. Porém o sentimento mais perene e constante é a paz. A paz interior, independente do que está acontecendo fora. Não importa se a bolsa cai, se o dólar sobe, se estou sozinho ou acompanhado. Não importa se o meu carro é o último modelo, ou se nem tenho carro. Não importa se as pessoas que se ama não são do jeito que se gostaria que fosse.

O que muda na vida de quem decide ser feliz, é como essa pessoa se sente em relação ao mundo e às outras pessoas. Mesmo que esse mundo e essas outras pessoas não mudem.

Não é fora de nós que vamos encontrar a tão sonhada Felicidade. Não é nas pessoas, não é nos bens materiais, não é no sucesso profissional, não é nas igrejas, não é na política, nem na economia mundial. Não é na maternidade, nem na paternidade, não é só na saúde, nem nas realizações.

Tudo isso pode ajudar. Mas só dentro da gente, em contato com nosso Eu mais profundo. Só em contato com o nosso Self, nossa Essência Divina, vamos sentir essa sensação interna que todos buscam: a Felicidade!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

“MALINTENDIDO”

Era uma aula de dança de salão. Ele já estava de olho nela. No seu jeito cândido de dançar. No seu jeito macio de rebolar. Naquele dia conseguiu se aproximar, apesar das tentativas evasivas que ele não percebera. Foi chegando perto, puxando-a para junto de si. Ela tentava manter a distância conveniente àquele contexto e lugar, mas ele parecia - ou queria – não perceber. Foi puxando uma conversa macia, dizendo como ele, que era mulato, gostava de mulheres loiras como ela. "E você? - perguntava ele - Gosta de mulato?". "Para mim não é isso que importa" - ela respondeu.

Para ela, a porta de entrada para um relacionamento mais íntimo não era necessariamente a atração física. Por isso, não era a aparência que contava. Podia ser branco ou negro, alto ou baixo, feio ou bonito. Para ela, o amor nasce na alma. O amor nasce de dentro e vai para fora. O amor nasce sem padrão nem explicação.

Ele, no entanto, entendeu aquela resposta ao seu próprio modo. Entendeu que ela estava querendo dizer que estava atraída por ele. Ele entendeu o que o seu desejo queria entender. Conversaram ainda mais um pouco e ele conseguiu descobrir que ela morava só. Para ele, uma mulher que mora só significa ser uma mulher disponível. Para ele, uma mulher que mora só é uma mulher "fácil", que se entrega no primeiro encontro.

Ao término da aula de dança, ela tentou inutilmente desvencilhar-se dele, que a acompanhou até o estacionamento, onde, na despedida, ofereceu-se para ser convidado a ir ao apartamento dela...

Nem preciso dizer o desfecho. Ou preciso? Qual a sua interpretação? Qual a sua opinião? Ela convidou ou não convidou?

Bom, esse pode ser um teste para você perceber se está percebendo certo os sinais Se você acha que ela realmente estava "dando bola" para ele, é bom ficar alerta, pois você pode estar saindo por aí confundindo os sinais, entendendo o que você quer entender, projetando no outro o seu próprio desejo.

Projeção: esse mecanismo de defesa, descrito inicialmente pela psicanálise, acontece todos os dias, a toda hora, na vida de todo mundo. A projeção consiste em atribuir a outro um desejo próprio, ou atribuir ao outro algo que justifique a própria ação. A projeção acontece quando atribuímos ao outro aquilo que nós mesmos sentimos.

O que gosta acha que é gostado, mas quem nunca conseguiu se sentir amado pensa que é rejeitado.

Quem confunde os sinais acaba fazendo a maior confusão nos relacionamentos.

Pensa que é gostado quando não é, invade o espaço do outro, torna-se inconveniente, antecipa-se na conquista, assustando o outro que, no seu devido tempo, até poderia vir a corresponder.

Pensando que não é gostado quando de fato o é, não demonstra seus sentimentos, não dá oportunidade para o outro se aproximar. Ou pior ainda: ao achar que o outro não gosta de si, muitas vezes, com ciúmes, provoca situações em que, de fato, acaba sendo rejeitado. E aí, nesses casos, a profecia se auto-realiza: "Eu me sinto não-amado. Passo a me comportar como uma pessoa rejeitada, agredindo e rejeitando o outro". O outro, que, em princípio, talvez até correspondesse aquele afeto, ao ser agredido e rejeitado, passa a rejeitar também. Isso vira uma bola-de-neve, um ciclo vicioso.

Para quebrar esse ciclo vicioso e torná-lo virtuoso só existe um caminho: o da comunicação aberta, franca, sincera.

É preciso ousar, arriscar e perguntar: Você gosta ou não gosta de mim?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

MINHA NEGA

Ele era o "sonho de consumo" dela. Era tudo o que ela queria e esperava de um homem: bonito, culto, erudito.

O convite não demorou a chegar. Eles já se conheciam há algum tempo e um certo clima já estava rolando desde o início. Parecia que a atração era mútua.

Apesar de interessada, ela, como já sabem as mulheres que assim é preciso fazer, não demonstrava seu entusiasmo para que ele não deixasse de se interessar. Apenas ficou na espera, como quem, caçando borboletas, fica imóvel, esperando que o objeto de seu desejo se aproxime de mansinho, sem medo de ser aprisionado.

Um dia ele ligou. Queria convidá-la para sair. Um dedo de prosa rápida ao telefone, com a desculpa de que, por telefone não dá pra se falar. Combinam hora e local. Na despedida, ele "entorna o caldo": "então tá, nega"...

O "nega" calou o tesão... não queria mais saber, não queria mais encontrar. Não sentiu desejo de beijar.

Para ela o "nega" lembrou mulher objeto. Mulher que se pega numa noite e depois não se quer mais. Uma palavra que reporta à intimidade que, no caso, não existiu.

Parece que hoje em dia o sentido sexual do verbo comer foi contaminado pelo fast: fast food, fast fo...

Não existe mais o romance, não existe mais a paquera, o jogo da sedução. Não existe mais o compromisso da alma. Mas parece que se diz: vamos "acabar logo" com isso...
E acaba mesmo: acaba na cama e acaba tudo por ali.

Aqui termina essa crônica. E se você acha que acabou sem acabar, na verdade acabou sem começar. Assim como acontece hoje em dia com aquilo que se gostaria que fosse e não foi.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

VOCÊ GOSTA DE AMORA?

Foi só na segunda volta na superquadra, em minha caminhada matinal, que percebi o pé de amora carregadinho de amoras bem pretinhas, no ponto de serem saboreadas.

Esqueci por um momento mágico todas as recomendações de médicos e educadores físicos e parei ali, prostrada diante daquele altar natural. A contemplação da natureza e de suas maravilhas nos faz estar mais perto de Deus e de nós mesmos.

No instante seguinte me vi colhendo e saboreando os pequenos frutos adocicados. Os frutos vermelhos, ainda ácidos para o meu paladar, eram visíveis, fáceis de serem encontrados. Mas para achar os frutos mais saborosos, era preciso atenção, pois confundiam-se com os galhos e se posicionavam estrategicamente nos lugares de mais difícil acesso, como que se protegendo das investidas de caminhantes ávidos como eu.

Mas eu insistia e, perseverante, os encontrava para o meu deleite. Quando em determinada posição não conseguia mais achá-los, bastava uma pequena mudança de ângulo e lá estavam eles à minha espera, como que, apesar da tentativa de se esconderem, contentes por premiarem o meu esforço e insistência em encontrá-los.

Era como se as pequenas amoras brincassem de esconder mas, ansiosas, estivessem à espera de que eu as encontrasse. Era como o jogo do amor, que se faz que não quer, quando se quer.

Aquele ciclo de busca, encontro e deleite me envolveu a ponto de, esquecendo a minha idade, esquecendo de quem passava por ali, subir nos galhos para assim, mais de perto, envolvida e abraçada pela árvore, provar o seu doce fruto.

Entendi então, naquele momento mágico de doce deleite, a antiga brincadeira da minha infância: "Você gosta de amora? Vou falar para o seu pai que você namora...."

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER

No meu tempo de adolescência - e olha que já se vão alguns anos - nós tínhamos um costume que hoje já não sei se existe ainda. As meninas apaixonadas, querendo saber se podiam nutrir esperanças, despetalavam uma flor. Como no sistema binário que hoje determina e facilita quase toda a comunicação virtual, alternavam-se as opções: mal-me-quer, bem-me-quer. Na época em que tudo era sonho e ilusão, só interessava saber se o "moço" a queria, ou não.

Hoje os tempos mudaram. Os meios de comunicação se sofisticaram, mas o jeito de amar parece que não mudou. Ainda há falas não faladas, gestos dúbios que deixam dúvidas sobre os seus significados. Fica o não dito, pelo dito.

É a ligação que não é atendida, o e-mail indireto, o fingir que nada está acontecendo. O olhar não olhado, a palavra vazia! O diálogo mudo, dúbio, de corpos que falam o que palavras não conseguem ou não querem dizer.

E não dizem para não se comprometer, pois palavra tem força de fazer acontecer! Palavra que nos tempos de outrora era honra, agora é comunicação direta. Não deixa dúvidas, não deixa a possibilidade de voltar atrás. Não deixa oportunidade para se arrepender.

Palavra também que, mesmo deixando a força de outrora, não quer dizer e desdizer. Não quer voltar atrás, não quer dizer que, na verdade, nada se sabe sobre nada.

Quem pode adivinhar se vou gostar para sempre? Quem pode dizer que não vou me arrepender? Por isso é mais fácil não dizer. E sem dizer também não se vive o que poderia ser. Poderia ser muito bom. Poderia ser triste ou alegre. Poderia ser por um momento. Poderia ser por um dia, poderia ser para sempre.

Mas sem dizer o que se sente, também não haverá o ouvir o sentir do outro. Também não haverá elo na cadeia de trocas que podem vir a ser beijos e abraços vazios. Mas também poderiam vir a ser a cumplicidade por um tempo que não somos nós que vamos determinar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O NÃO DITO, PELO DITO

Há um velho ditado: "O dito, pelo não dito", referindo-se àquelas coisas que dizemos e depois desmentimos.

Mas há também assuntos sobre os quais precisaríamos conversar e não o fazemos.

Não gostamos de falar sobre quem somos, pois isso ameaça o nosso desejo de sermos amados. Não gostamos de falar daquilo que pode fazer o outro pensar mal da gente: aspectos que revelam o que realmente somos e que não queríamos ser.

Não gostamos de falar a verdade. Temos medo de dizer o que o outro pode não gostar. Não queremos correr o risco do outro deixar de gostar da gente.

Não gostamos de falar de assuntos que podem causar confusão. Aquilo que pode desestabilizar a falsa harmonia dos grupos. Verdades ocultas que, vindo à tona, podem trazer desconforto nos relacionamentos acomodados e acostumados a não questionarem os porquês.

Não gostamos de falar sobre tudo aquilo que nos traz tristeza. Não gostamos de falar da morte.

Não gostamos de falar sobre coisas que, pensamos, podem nos trazer azar. E, se por acaso o fazemos, batemos três vezes na madeira, para "isolar".

E assim, não gostando de falar, deixamos de nos comunicar. Deixamos de compartilhar nossas verdades, nossos desafios, nossos desejos, nossos medos, nossas dores. Achamos que o outro deveria saber o que sentimos. Achamos que ele tem bola de cristal e adivinha nossos pensamentos e sentimentos. Achamos que o outro, pelo que deixamos de falar, entende o que não queríamos ou queríamos dizer.

E assim, pensando que o outro pensa o que pensamos, pensamos que pensamento é palavra fora da gente.

Pensamento só fica na cabeça da gente e, se não falar, de nada adianta só pensar.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Amor de avós "estraga" a criança?

Um dos comentários que sempre se ouve nas famílias é sobre os mimos que fazem os avós ao seus netos.

Tem coisa melhor do que casa de avós? Tem coisa melhor do que a expectativa de ir à casa dos avós ou sair com eles?

Só quem não conviveu com seus avós é que não sabe como isso é bom. Como essa convivência faz bem para a criança, quando ainda é criança, e para a criança que nós temos dentro de nós.

Eu, como muitos dos que vieram para Brasília quando crianças, deixei para trás minha cidade natal, onde moravam os meus avós. A oportunidade que eu tive de conviver com eles era quando, nas férias, nós os visitávamos.

Eu me lembro bem da casa de esquina numa rua da qual não sei o nome, em minha cidade natal, Catanduva, no interior de São Paulo. Meu avô ficava sentado no alpendre, um tipo de varanda daquela região, que não sei se ainda se constroem. Da calçada, subíamos alguns degraus e adentrávamos ao alpendre, antes da porta principal da casa. Era lá o local onde as pessoas chegavam e sentavam para conversar. Sentado no alpendre, meu avô ficava lá, cumprimentando toda gente que passava na calçada. Era de lá que eu ouvia o assobio do vendedor de picolé, avisando que estava passando por ali, chamando todas as crianças para aquela hora mágica, no meio do calor da tarde. Da minha avó, lembro da rosca doce que ela fazia e do momento em que ela soltava seus longos cabelos, que nunca viram tesoura. Lembro da cozinha, do quintal e até do cheiro característico da copa. Tudo isso guardo nas lembranças que alimentam a minha alma. Era um tempo de felicidade encontrar os primos nas férias, quando eu ia para a casa dos meus avós.

Mas hoje alguém inventou, baseado não sei em que, que avós fazem mal aos netos, pois dão muito carinho...

Será que existe excesso de carinho? Será que existe carinho demais?

Não sou especialista em psicologia infantil, mas, pelo que sei, carinho nunca é demais. Nem para criança nem para adulto. O que "estraga" a criança não é excesso de carinho... o que prejudica é falta de amor.

O que não pode faltar também, esse sim, é o limite necessário... mas esse não é papel dos avós!

domingo, 7 de setembro de 2008

Existem pessoas que amam demais?

Há pessoas que amam muito.
Não são pessoas que amam demais...
O amor nunca é demais!
O amor que se dá deveria ir e voltar.
Quem recebe amor deveria amar muito também.

Mas há pessoas que não sabem amar...
Há pessoas que não sabem receber amor!
São pessoas que, quanto mais recebem,
Mais elas querem receber.
São pessoas que, quanto mais são amadas,
Menos querem dar,
Menos querem amar.

O amor não nasce só na espontaneidade.
Amor nasce na intenção.
Nasce da vontade de amar.
O amor nasce na mente e no coração.

Eu diria, então,
Que não existem pessoas que amam demais.
Existem, sim, pessoas que não sabem ser amadas.
E existem outras pessoas que não sabem amar.
E ainda há aquelas que, mesmo sabendo, não querem amar.
Mas há, sim, aquelas que escolhem a pessoa errada para amar!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

UM ANO DE VIDA!

Hoje é dia de festa!

Este Blog está completando hoje, dia 02 de setembro, o seu primeiro ano de existência! É tempo de comemorar, mas também é tempo de avaliar!
A idéia deste blog começou a partir da minha experiência com grupos de terapia. Moreno, o criador do Psicodrama, trouxe ao campo da psicoterapia a possibilidade do compartilhar a si mesmo através da experiência em grupos. Iniciou com a arte: a arte cênica, o Teatro Espontâneo.

No Teatro Espontâneo, que acontecia em um auditório, encenavam-se as peças da vida. Não havia script pré-estabelecido. Havia uma atriz, a Bárbara, que sempre desempenhava papéis “ingênuos, heróicos e românticos”: o sonho de todo homem para sua esposa. Não demorou e encontrou quem por ela se apaixonasse. George, um poeta, assíduo freqüentador do Teatro Espontâneo, com ela se casou.

Tudo parecia que seria a realização de um sonho. Mas a convivência diária trouxe à tona a verdadeira personalidade de Bárbara, que não era nem tão meiga, nem tão angelical como parecera no Teatro Espontâneo. George então procurou Moreno para pedir-lhe ajuda. O que estava acontecendo? Sentia-se ludibriado, como quem "compra um produto" e, ao chegar em casa, descobre que foi vítima de propaganda enganosa.

Qualquer semelhança com as histórias que se vive até hoje não é mera coincidência. Uma das maiores buscas das pessoas é encontrar um parceiro com quem possa compartilhar sua vida em paz e harmonia. Mas a convivência do dia-a-dia encontra seus entraves nas histórias, hábitos, crenças e costumes que cada um leva para o casamento em sua bagagem.

Moreno, então, percebendo o que estava acontecendo, teve uma idéia: como diretor que era do Teatro Espontâneo, deu à Bárbara os papéis opostos ao que ela desempenhara até então. No palco Bárbara pôde viver sua própria personalidade: sua própria sombra, tendo oportunidade assim de integrá-la. Moreno, em sua obra PSICODRAMA, conta que Bárbara, ao se reconhecer nos papéis que representava, ria de si mesma. Em casa, o comportamento foi mudando e Bárbara assumiu o seu lado mais belo. Era o início do Teatro Terapêutico que deu origem ao Psicodrama e ao Sociodrama.

Com essa nova visão da psicoterapia, Moreno abre a possibilidade de, através da arte, trazer a cura. Na mesma obra, Moreno aponta para os caminhos futuros da psicoterapia, sugerindo a dança, a música, o cinema. Talvez, se vislumbrasse o que seria a WEB na atualidade, Moreno também teria sugerido a “BLOGTERAPIA”.

Foi assim que surgiu a idéia deste Blog. Proporcionar a um número ilimitado de pessoas o ver-se através da experiência compartilhada. Os temas inicialmente surgiram das questões trazidas e elaboradas pelos clientes na clínica psicológica. Nos grupos, após o aquecimento e a dramatização, há um momento de compartilhar as emoções vividas naquela seção e a elaboração do conteúdo vivenciado. A partir dos temas dessa elaboração surgiam as primeiras crônicas.

Imediatamente houve a reação dos leitores do Blog, tendo a oportunidade de elaborar melhor os seus conteúdos internos. A partir dos comentários que eram feitos tanto por escrito, no Blog, como no consultório, surgiam novas crônicas, num encadeamento de temas que aqueciam os processos de outros clientes também.

O universo dos leitores rapidamente foi crescendo, pois os próprios participantes desse processo, desejando compartilhar aqueles conteúdos com seus amigos, companheiros, filhos e demais pessoas envolvidas em sua vida, enviavam as crônicas para eles. A leitura das crônicas por essas pessoas facilitava a comunicação interpessoal. Podiam então falar a mesma linguagem, entender em conjunto o que estava acontecendo no relacionamento.

Hoje já não sei quantas pessoas lêem o Blog e as crônicas. A maioria não faz seus comentários por escrito, mas sempre que se encontram comigo comentam sobre seus conteúdos. Considero que a experiência está alcançando os objetivos propostos.

No início deste ano, desejosa de compartilhar as crônicas com pessoas que não acessam a internet, selecionei algumas crônicas e imprimi, para presenteá-las. Percebi então que praticamente já tinha um livro escrito. A partir dessa seleção inicial, e acrescentando crônicas inéditas, ainda não publicadas, formou-se o primeiro livro, que já está no prelo e em breve será publicado pela LGE Editora.

Neste primeiro ano de existência temos, portanto, muito a comemorar. O sucesso se faz pela participação de todos os leitores, principais incentivadores e alimentadores desse processo de grupo que extrapolou as paredes do consultório. Extrapolou os limites no tempo e no espaço. Realiza-se desta forma a proposta moreniana: "O nosso Encontro permanece a meta sem cadeias: o Lugar indeterminado, num tempo indeterminado, a palavra indeterminada para o Homem indeterminado".

Meu agradecimento aqui, em primeiro lugar, a Deus, que nos faz participantes de Sua criação através da criatividade com que nos presenteou! Aos meus pais, que, através dos livros a que tive acesso e das histórias que me contaram, ajudaram a desenvolver em mim o talento da expressão através da escrita. Aos meus filhos, que me ensinam mais do que eu os ensinei (inclusive as noções de informática que me possibilitaram utilizar a Web). Aos meus terapeutas, professores, supervisores e mestres, que me ajudaram a chegar até aqui e ser hoje quem sou. Aos amigos que me incentivaram a começar a escrever e a mostrar o que eu já escrevia. A todos os leitores que sempre manifestaram seu carinho e incentivo através de comentários escritos ou pessoais. A todas as pessoas que, através do nosso Encontro, me ajudaram a ser uma pessoa melhor!

A todos vocês, minha homenagem nesta data! A todos vocês, minha gratidão e meu afetuoso abraço!



Só temos a comemorar! Todos estão convidados para um brinde!
Sábado, dia 06 de setembro, a partir das 12 horas no restaurante Flor de Lótus, na 102 sul.
o Flor de Lótus é um restaurante natural com opção de peixes, no sistema de self-service a quilo. Aos sábados é servido um delicioso bacalhau! Cada um será responsável pelo seu consumo, mas o vinho será por nossa conta.
Venha brindar conosco!
Confirme sua presença até quinta à noite, pelo e-mail dcassis@gmail.com


Vale lembrar e publicar novamente a primeira postagem, onde
eu expunha o objetivo do Blog.

A idéia deste blog começou a partir da minha experiência com grupos de terapia.

O processo de psicoterapia em grupo é potencializado pelo compartilhamento entre seus membros das suas angústias, medos e dificuldades de relacionamento e no espelho que o grupo proporciona para a iluminação do caminho de cada pessoa. Ao compartilhar o seu processo, cada membro do grupo proporciona aos outros a oportunidade também de se ver, de encontrar as suas próprias soluções. A grande "mágica" dos grupos de terapia é que você pode "entrar mudo e sair calado", como tenho dito àquelas pessoas temerosas de participar de um grupo de terapia, mas com certeza sairá diferente.

Com o advento da tecnologia, dos novos tempos da web, podemos compartilhar idéias e experiências com internautas pelo mundo inteiro. O objetivo da criação deste blog é que, através do compartilhar de minhas reflexões, você, leitor possa também estar refletindo sobre sua própria existência, suas dificuldades, seus medos e angústias, elaborando e construindo novos caminhos.

Nosso encontro acontece no espaço virtual e atemporal, na medida em que para cada leitor o mesmo texto torna-se uma experiência única, pois só haverá significado real a partir das reflexões de suas próprias experiências.

É a minha contribuição, uma gota de água na construção de um mundo melhor.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O DIA EM QUE MEU IRMÃO SAIU DE CASA

As lembranças são meio nebulosas para mim. Lembro-me de uma cena: em meio a panfletos impressos no mimeógrafo a álcool, meu irmão mais velho, ansioso, andava de um lado para outro.
Depois ele sumiu e nunca mais voltou. Voltou para Brasília, voltou para a vida fora da clandestinidade. Mas nunca mais voltou para a minha vida de adolescente. Ele era meu irmão mais velho; hoje eu sei que de velho não tinha nada. Mas para quem é irmã mais nova, oito anos mais nova, ele era como um herói. Brigava com outros rapazes, se algum mexia comigo, me levava ao cinema livre, quando os mais velhos não queriam assistir "filme de criança".
Depois fiquei sabendo que ele não era só o meu herói. Ele foi herói da luta contra a ditadura. Ele foi herói do Brasil!
Hoje faz quarenta anos que a UnB foi invadida! Não foi só a UnB que foi invadida. Os lares foram invadidos, a privacidade das pessoas foi invadida. A minha alma foi invadida e de lá arrancaram a alegria, a inocência e a esperança.
Ficou uma cicatriz que de vez em quando ainda se abre e dói. Não uma dor tão dolorida como a de outrora, mas uma dor de lembrança da dor. Uma dor pela criança ferida. Uma dor pelo tempo perdido. Uma dor pela inconformidade da violência sofrida. Não só a minha dor, mas a dor que fez chorarem tantas mães, tantos pais, tantos filhos, cônjuges, amigos e, como eu, irmãos. Uma dor que fez chorar o Brasil.
Uma dor pelos outros povos que choram também. Uma dor pelos tempos de guerra, mesmo que não sejam aqui. Uma dor pelo autoritarismo mascarado pela festa. Uma dor pela perseguição das diferenças. Uma dor causada por quem se acha melhor dos que os outros e com mais direito de ter mais. Por quem acha que pode tirar do outro o que é de todos. Por quem pensa que é dono de tudo, dono da verdade, dono do mundo!
Que a lembrança da história triste possa transformar as mentes e os corações, possa trazer consciência universal. Possa trazer Amor e Paz!
Minha homenagem, nesta data, a todos os estudantes que foram perseguidos na ocupação pelos militares da Universidade de Brasília, em 29.08.1968. Mas, especialmente, minha homenagem póstuma ao meu irmão, Paulo Sérgio Ramos Cassis (1946 – 2005), um dos sete estudantes que estavam sendo “caçados” naquele dia.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ALMAS GEMEAS

Um dos desejos mais freqüentes e universais é a busca do encontrar a “Alma Gêmea”. Não faltam livros escritos sobre o assunto. É um desejo que está arraigado no inconsciente das pessoas.

Há pessoas que acreditam realmente que as almas percorrem várias vidas e reencontram sua alma gêmea. Até já houve uma novela com este argumento.

Mas a grande maioria, mesmo sem ter consciência, procura alguém que preencha totalmente todos os requisitos em relação aos seus gostos, preferências, costumes, crenças, raça, lazer, objetivos de vida etc.

De fato, é muito mais fácil conviver com pessoas com quem nos identificamos. Um atleta, por exemplo, teria, em princípio, dificuldades em conviver com uma pessoa que detestasse esportes. Uma pessoa muito religiosa teria dificuldades em conviver com um agnóstico. Pessoas muito apegadas a sua própria religião, se pertencerem a grupos religiosos diferentes, teriam dificuldades também de convivência em comum. Uma pessoa que não dispense semanalmente o churrasco regado a cerveja, encontraria problemas em compartilhar o restaurante preferido com seu companheiro (a) vegetariano radical. Em relação à posição política, uma pessoa de extrema esquerda encontraria obstáculos na convivência com uma pessoa de extrema direita.

Outro desejo é encontrar a “outra metade da laranja”. É aquela sensação de ser uma pessoa incompleta, que necessita completar-se com a presença e convivência de outra. É a certeza de que não somos pessoas completas e só seríamos felizes se estivermos casados com outra pessoa que nos complete.

O que existe de mito e realidade nessas buscas e sentimentos?

Este é um assunto controverso, mas proponho uma reflexão à luz da psicologia analítica.

Quando falamos em Almas Gêmeas, estamos falando em afinidades. Quando nos referimos à “outra metade da laranja”, estamos nos referindo a perfis complementares.

Jung propõe um modelo de perfil psicológico, baseado em quatro funções e duas atitudes. São as atitudes: introvertida e extrovertida. E as funções: Pensamento X Sentimento e Intuição X Sensação. Não vou entrar em detalhes sobre a tipologia de Jung. Ao leitor que desejar aprofundar-se no assunto existe bibliografia a respeito. O que desejo ressaltar é que se busca inconscientemente o seu par naquele que é diferente, naquele que tem uma atitude e funções opostas à sua. Por exemplo, Uma pessoa que seja extrovertida e cuja função principal seja sentimento, tenderá a se sentir atraída por uma pessoa introvertida, cuja função principal seja pensamento.

Com o processo de individuação, vamos desenvolvendo as funções opostas e tendemos a inverter a atitude (de introvertida para extrovertida e vice-versa). Esse processo nos faz pessoas mais completas, diminuindo a necessidade de buscar o outro como um complemento de si mesmo. Da mesma forma ocorre com os arquétipos Animus e Anima. A alma do homem, para a psicologia analítica, é feminina – anima, enquanto a alma da mulher é masculina – animus. Também com o processo de individuação, a integração de animus/anima diminui a necessidade de buscar no outro o nosso lado feminino/masculino.

Quanto à “Alma Gêmea”, que reflete o nosso desejo de estar com quem nos identificamos pelos nossos interesses, gostos e afinidades, é uma forma de buscar um/uma companheiro/a. Nossos interesses nos falam dos nossos objetivos de vida, objetivos existenciais. A religião, a posição política e os valores éticos e morais, eu incluiria nesta categoria. Na minha opinião, é importante para o casal a identificação de interesses. Os interesses nos levam à definição dos grupos sociais a que pertencemos. Geralmente as pessoas se incluem nos grupos sociais e participam das atividades sociais ligadas à religião, à profissão, ao partido político, aos grupos ativistas etc. Nada mais desagradável do que sentir-se obrigado a participar de um evento social onde não nos sentimos incluídos. Onde se conversam sobre assuntos de que não gostamos ou dos quais não entendemos.

Em relação ao lazer, eu incluiria a participação em eventos culturais, a gastronomia, o encontro com os amigos. Tudo aquilo que nos dá prazer. Tudo aquilo que eu chamaria de “brincadeira de criança grande”. Assim como, quando éramos crianças, gostávamos de brincar com quem gostava das mesmas brincadeiras, enquanto adultos gostamos de estar, nos momentos de lazer, com quem gosta das mesmas atividades de que gostamos. Nenhuma criança brinca daquilo com o que não gosta de brincar. Brincamos sem obrigação. Brincamos por brincar, porque é gostoso, porque queremos nos alegrar.

Mas acima de tudo isso, existe algo inexplicável até agora. Algo que a ciência tenta, mas não consegue explicar. Algo que simplesmente atraem duas pessoas, que se olham nos olhos e querem estar juntos. Sentem atração mútua. Sentem atração sexual. É aquilo que se diz, “uma coisa de pele, de alma”. E quando isso acontece... não importa o gênero, não importa a raça, não importa a nacionalidade, nem religião, nem partido, nem profissão, nem interesses.... Isso não dá para explicar. Não se encontra com a razão. Mas se encontra com o coração. Daí é que se diz que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

CICLO JUNGUIANO DE PALESTRAS



SETEMBRO

Mesa Redonda

O FENÔMENO RELIGIOSO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Palestrantes: Itamar R. Paulino e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 20.09.2008 <> 09:30-12:00


ITAMAR RODRIGUES PAULINO - LP 9601707/ DEMEC - MG
- Graduado em Pedagogia
- Graduado em Filosofia
- Graduado em Teologia
- Mestre em Filosofia

MOACIR RODRIGUES DOS SANTOS - CRP 01/0220
- Especialista em Psicologia Clínica
- Graduado em Teologia - Pós-graduado em Psicologia Superior
- Psicoterapeuta didata pela SOBRAP
- Professor de psicologia do UniCEUB



OUTUBRO

Tema: O DIÁLOGO MÍTICO ENTRE O ORIENTE E O OCIDENTE

Palestrantes: Vitor Borges e Itamar Paulino

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 18.10.2008 <> 09:30-12:00

NOVEMBRO

Tema: PSICOLOGIA DO ENVELHECER

Palestrantes: Vera Lúcia Amaral da Silveira e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderador: Itamar Paulino

Data: 22.11.2008 <> 09:30-12:00

DEZEMBRO

Tema: UM OLHAR SOBRE AS IDÉIAS DE SCHOPENHAUER NA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Itamar Paulino

Data: 06.12.2008 <> 09:30-12:00


LOCAL:

Paulus Livraria.

Setor Comercial Sul - Quadra 01 - Bloco I - Ed. Central

Asa Sul - Brasília- DF

Fone: 61 – 3225 – 9847


Organização:

Editora Paulus

Instituto Aion (3326-8695 / 9814-2810)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

VELHAS ÁRVORES

Existe uma tendência no mundo ocidental para a competitividade, para a novidade, para a renovação.

O mundo consumista nos leva a trocar as coisas velhas pelas novas. Não se pode usar um sapato velho, mesmo que seja o mais confortável. Não se pode continuar usando aquela roupa preferida, que sempre gostamos de usar, que parece até que já se moldou ao nosso corpo. Não se pode guardar aquela xícara antiga, herança da nossa avó. Tudo isso é execrado pela sociedade de consumo, que incentiva a sempre trocar o velho pelo novo, para obviamente vender novas mercadorias.

Nada contra isso, pois a movimentação do mercado leva à criação de novas oportunidades de trabalho. O problema é quando a tendência à renovação de material de consumo se estende para as pessoas, para o conhecimento, para a tradição.

Não queremos mais o velho. A palavra “velho” passou a ser palavra feia. Eu não acho: “velho”, para mim, é palavra bonita. É palavra que lembra coisa querida. É palavra que lembra carinho, conforto. É palavra que lembra experiência.

Experiência é feita de aprendizado contínuo. É não precisar reinventar a roda. É aprender com o passado, para criar a partir dali novos conhecimentos e novas experiências.

Mas com esta tendência do mundo ocidental, contaminado pela sociedade consumista, perde-se esse conhecimento adquirido. Perde-se a experiência.

Na década de 90 houve uma onda de “renovação” nas empresas. Chegou-se a criar um termo para isso: era a “reengenharia”. O mote era desconstruir as estruturas tradicionais para estabelecer novas formas. Muitos profissionais experientes foram demitidos naquela época. Pessoas na faixa dos quarenta passaram a ser considerados profissionais ultrapassados.

A moda logo mostrou o seu lado de prejuízo para as empresas. Além do enorme problema social gerado, ao demitirem seus antigos funcionários descartou-se também o que hoje é considerado um dos maiores ativos de qualquer organização: o conhecimento. A experiência, que é o conhecimento adquirido e repassado no contato uns com os outros. Experiência que não se aprende nos livros, mas se faz pessoa a pessoa.

Mesmo com a nova tendência de educação a distância, o contato pessoa a pessoa se faz nos encontros presenciais, ou mesmo nas teleconferências. Mas hoje já se sabe que não se pode esquecer o que a história nos ensinou.

Por outro lado, ficar sempre preso ao passado também não é bom. É preciso arejar as idéias, estar aberto sempre ao novo.

Gosto da excelente combinação que acontece no relacionamento entre avós e netos. É uma relação de equilíbrio, de mútua aprendizagem. Muitas vezes os netos conseguem mudar opiniões e padrões dos avós – o que os seus próprios pais, filhos de seus avós, não conseguiram.

Pular uma geração faz bem no processo de construção da experiência coletiva. É como se fizéssemos uma pausa para pensar, para respirar.

O desejo que se tem de ter netos, talvez seja para possibilitar, com a experiência, fazer diferente do que se fez com os filhos. Sabemos que nem sempre acertamos com nossos filhos e queremos acertar com os netos.

Daí se diz que os avós mimam seus netos. Os avós aprenderam que amor em excesso não estraga ninguém. O que estraga é falta de amor e falta de limite. A “regra” para a educação, se é que existem regras, é o limite necessário e muito amor.

Olavo Bilac escreveu sobre as velhas arvores, que nos dão sombra, que nos dão alimento e nos acolhem. E é nas sombras das velhas árvores que as novas sementes encontram o frescor necessário para se tornarem brotos. É na combinação da terra fértil com a força e o potencial da semente nova que nasce uma grande árvore!

Sob as árvores velhas, com as folhas que caem, o solo fica enriquecido. A sombra deixa a terra suficientemente úmida: o terreno propício para nascerem novos brotos. Sabemos o prejuízo que ocorre com desmatamentos, que empobrecem o solo e interferem em todo o clima do planeta.

Mas, “nada em excesso”, sabedoria antiga registrada no portal de Delphos. O sol, quando em excesso, seca e mata os novos brotos. O excesso de sombra não permite também o desenvolvimento dos novos brotos.

Por isso, preservemos as velhas árvores: ouçamos as pessoas mais velhas. Temos a aprender com os jovens também, cheios de entusiasmo, energia e novas idéias. Mas eles terão, em tese, mais tempo conosco.

Sábio é o jovem que ouve e respeita a experiência do velho, contextualiza para sua realidade e faz acontecer, transformando verdades antigas em preciosidades para a atualidade.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

NÃO DÁ PRA COLHER ABACAXI EM BANANEIRA

Foi uma luta suada. Literalmente suada! De quimono azul, o brasileiro lutava com todas as suas forças para conquistar um lugar na final. Lutou muito, mas não conseguiu chegar lá. Eduardo Santos deu adeus ao sonho da medalha olímpica.

O que mais me chamou a atenção não foi a luta corporal do atleta. Foi a sua luta interna entre o tentar e o não conseguir agradar aos pais. Foi a reação do atleta, demonstrada em sua fala. Era uma fala inconformada, triste, onde pedia perdão aos pais por não ter conseguido conquistar a medalha.

Longe de querer analisar os motivos desse comportamento e sentimento, peço licença para utilizar esse exemplo para abordar um tema delicado: a expectativa que muitos pais têm no sucesso do filho e a necessidade correspondida dos filhos atenderem à expectativa dos pais.

Outro dia, em uma palestra sobre relacionamento entre pais e filhos, a preletora fez a pergunta: Quais os motivos de conflitos nas relações entre pais e filhos?

Fiquei pensando sobre o que eu poderia responder, enquanto os participantes rapidamente respondiam à pergunta. Pergunta de fácil resposta, para quem é pai, mãe ou filho. Quem não sabe os motivos dos conflitos entre pais e filhos? Basta recorrer à sua experiência diária...

Mas a resposta foi difícil para mim. Durante o breve tempo passaram pela minha mente as várias situações trazidas à clínica psicológica. São tantos os tipos de conflitos existentes, que foi difícil resumir, assim, naquela hora, em poucas palavras.

Assistindo ao depoimento de Eduardo Santos, fico pensando em um dos principais motivos de conflitos: a expectativa de que os filhos sejam aquilo que não fomos. Ora, cada pessoa tem características próprias e singulares. Cada qual tem uma vocação. Não dá para colher abacaxi em bananeira, nem cravos em roseiras. Não dá para apressar o tempo da colheita. Não dá para aguar demais o cactos. Mas, se a jabuticabeira não for bem regada, sabemos que não iremos nos deliciar com suas jabuticabas. Cada um tem o seu jeito de ser, possui uma vocação e precisa ser educado e tratado tendo em vista o desenvolvimento dos seus dons para frutificar no tempo certo.

Gosto de pensar que quando chegamos nesta vida, trazemos na bagagem um “kit construção”, como o daquele tipo de móveis que adquirimos para montar em casa. Está tudo ali, basta seguir as instruções. O problema é que, em nosso caso, o manual não é claro e requer sensibilidade e sabedoria para fazer das sementes recebidas a árvore a que ela veio ser.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

DIA DOS “PÃES”

Lembro-me de uma cena que aconteceu em minha família. Tenho dois filhos, um menino e uma menina, hoje adultos, mas quando o fato ocorreu, tinham cinco e três anos, respectivamente. Em meio às brincadeiras de criança, os dois disputavam entre si uma boneca. O brinquedo era da menina, que ganhara da avó. Não era uma boneca qualquer, era um bebê daqueles que parecem de verdade, de tamanho real.



O pai, como a grande maioria dos homens naquela época, ainda trazia as influências de um antigo modelo educacional. Não gostou muito da idéia de ver o filho "brincando de boneca" e logo advertiu: "boneca é brinquedo de menina". O garoto nem pensou muito e respondeu de imediato: "mas pai, quando eu era pequeno, você também cuidava de mim". Apesar das palavras, mesmo sem perceber, o pai passara para o filho um modelo de pai amoroso e cuidador.

Gosto destes tempos, em que os homens podem, finalmente, demonstrar todo o afeto que têm. Já vai longe o tempo do "homem não chora", "homem não faz isso ou aquilo".


Homens hoje podem cuidar dos filhos e gostam de fazê-lo. Com a mulher tendo entrado para o mercado de trabalho e sendo fundamental a sua participação na economia, tanto familiar como da Nação, não houve outra alternativa senão dividir em casa, além das responsabilidades orçamentárias, as responsabilidades de administração do lar e cuidado com os filhos. E quem ainda não aderiu a esse modelo, além de enfrentar sérios problemas de relacionamento conjugal, está demodé; não está in, está out. Para ser mais clara: “está por fora”!


Não dá mais para admitir que a mulher trabalhe fora, algumas vezes contribuindo até com a maior parte das despesas domésticas, e não tenha com quem dividir o trabalho em casa. Mais do que necessidade e obrigação, o que mais aprecio é o prazer com que os homens têm assumido essa responsabilidade, que passa a ser prazer e alegria.


Não sou teóloga, mas penso que essa história de comparar Deus com Pai foi decorrente dos tempos do patriarcado. Se fosse nos tempos do matriarcado, talvez, eu penso, Ele seria comparado com Mãe. Pensando em Deus como a figura de pai que conhecemos tradicionalmente, parece que fica faltando algo, já que Deus, sendo Amor, precisa também de uma figura feminina para representá-lo. O pai, tradicionalmente, provê e protege. A mãe, tradicionalmente, nutre e cuida. Por isso, eu penso que a Igreja Católica adotou a Nossa Senhora e a Igreja Protestante adotou a figura da Igreja como o lado feminino de Deus. Mas eu ouvi de um teólogo, certa vez, que, no original, a palavra Pai na Bíblia tem o sentido de pai e mãe. O que, para mim, faz sentido e reflete o pensamento de uma grande parcela de cristãos.


Nada mais justo e adequado, pois hoje, tempos de conciliação e equilíbrio do masculino e feminino, todos nós somos um pouco pai e mãe de nossos filhos, de nossos amigos, de nossos companheiros, de nossos pais idosos, de nós mesmos.


Os jovens, rapazes e moças de hoje, buscam seu espaço profissional, mas ambos se permitem emocionar-se, chorar, cuidar, cozinhar. Não existem mais papéis definidos e isso é muito bom!


Portanto, nesta semana, quando lembramos de demonstrar carinho pelos pais, usemos de fato o significado da palavra no plural: Pai e Mãe. Há mães que criam sozinhas os seus filhos! Há pais que merecem serem lembrados também no Dia das Mães!


Quem sabe a idéia pega... e aí teremos não só um dia, mas dois por ano, quando serão homenageados os Pais: Pai e Mãe!

Minha homenagem aos meus pais, ao pai dos meus filhos, e a todos os pais e mães, que fazem dos seus filhos, frutos do seu amor!

VERDADEIROS CAMPEÕES

Ninguém gosta de perder. O atleta não quer perder a competição. No trabalho, não queremos perder nossa posição. Não queremos que nosso candidato perca as eleições, nem que o nosso time perca o campeonato. Nos Jogos Olímpicos, não queremos que os atletas brasileiros percam as competições; na Fórmula 1, não queremos que os brasileiros percam a corrida; na Copa do Mundo, não queremos que o Brasil perca nenhuma das partidas. Ele precisa ser sempre o campeão!

Desejamos que os nossos filhos tenham sucesso. Desejamos nos realizar através deles. Desejamos nos realizar através de todos os nossos ídolos; por isso não queremos que eles percam.

Não queremos perder pessoas queridas, não queremos perder objetos de valor afetivo, não queremos perder dinheiro e propriedades.

Todos nós, em maior ou menor grau, somos apegados. Podemos ser apegados às pessoas, aos bens materiais, às idéias, às preferências, à nossa produção artística ou intelectual, aos nossos costumes, ao nosso espaço... e aí vai a lista de possibilidades de apego.

As religiões nos falam sobre as conseqüências do apego em nossa vida. Segundo o budismo, a origem do sofrimento é o apego. No Cristianismo este também é um tema constante. "Deixar pai e mãe", "ofertas e dízimos", o apego às riquezas, são exemplos que não cabem ser aprofundados aqui. Nas outras religiões, pelo menos nas que estudei a respeito, sempre há alguma doutrina ou orientação nesse sentido. Faz parte do tema religioso em geral desapegar-se das coisas terrenas para alcançar um grau de espiritualidade desejável.

Do ponto de vista psicológico, o desapegar-se exige muito trabalho interior. Muitas vezes achamos que estamos desapegados, mas pode ser um "disfarce" de nosso inconsciente, pois somos tão apegados que não suportamos a idéia de perder aquele/aquilo que amamos. E aí, quando os perdemos, o baque é muito maior, manifestando-se muitas vezes além de fortes depressões, em doenças físicas. Reconhecer nossos apegos, ao invés de negá-los, faz parte de nosso caminho de individuação.

Individuação não é a mesma coisa que individualismo. Individuação é o processo de desenvolvimento interior através do auto-conhecimento, que nos faz cada vez mais próximos de nossa verdadeira essência. É voltar a ser o que realmente somos.Quando estamos "longe de nós mesmos", daquilo que realmente somos, ou não nos aceitamos como somos é que necessitamos sempre ganhar o jogo da vida.

Quando somos o que somos, sabemos que não precisamos provar nada a ninguém, pois já provamos a nós mesmos que somos verdadeiros campeões!

CICLO DE JUNGUIANO DE PALESTRAS 2008/2

Tema: ALQUIMIA NA VISÃO DA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Moacir Rodrigues dos Santos*

Data: 16.08.2008 (sábado) 09:30-12:00

*Psicológo, Especialista em Psicologia Clínica, Graduado em Teologia, Pós-graduado em Psicologia Superior, Psicoterapeuta didata pela SOBRAP,
Professor de psicologia do UniCEUB


SETEMBRO

Tema: O FENÔMENO RELIGIOSO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Palestrantes: Itamar Paulino e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 20.09.2008 <> 09:30-12:00

OUTUBRO

Tema: O DIÁLOGO MÍTICO ENTRE O ORIENTE E O OCIDENTE

Palestrantes: Vitor Borges e Itamar Paulino

Moderadora: Dulcinéa Ramos Cassis

Data: 18.10.2008 <> 09:30-12:00

NOVEMBRO

Tema: PSICOLOGIA DO ENVELHECER

Palestrantes: Vera Lúcia Amaral da Silveira e Moacir Rodrigues dos Santos

Moderador: Itamar Paulino

Data: 22.11.2008 <> 09:30-12:00

DEZEMBRO

Tema: UM OLHAR SOBRE AS IDÉIAS DE SCHOPENHAUER NA PSICOLOGIA PROFUNDA

Palestrante: Itamar Paulino

Data: 06.12.2008 <> 09:30-12:00


LOCAL:

Paulus Livraria.

Setor Comercial Sul - Quadra 01 - Bloco I - Ed. Central

Asa Sul - Brasília- DF

Fone: 61 – 3225 – 9847


Organização:

Editora Paulus

Instituto Aion (3326-8695 / 9814-2810)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O MERGULHO NO ASFALTO


Essa história, que faz parte da nossa história de Brasília, quem me contou foi meu amigo Moacir, leitor do Blog. Ao ler as crônicas que escrevi sobre Brasília, As esquinas de Brasília e O Frio de Brasília, ele lembrou daqueles tempos, quando tudo começou por aqui.


Era o ano de 1958. Brasília era poeira por todos os lados, onde começavam a nascer prédios construídos com cimento à vontade, que despontavam da terra vermelha, como os primeiros dentinhos de leite de criança.


O fato aconteceu no Núcleo Bandeirante, que no início era Cidade Livre. Eu, que morava na 114 sul e raramente saia de lá, ouvia falar de uma tal cidade livre e ficava imaginando como seria. Diziam que lá podia construir do jeito que quisesse e não precisava ser tudo certinho como a superquadra onde eu morava. Ninguém precisava pagar impostos, nem precisava de alvará para abrir um novo negócio. Eu ficava imaginando, quando ouvia falar, como seria morar numa "cidade livre".


Eu viajava em minhas fantasias infantis, permeadas pelas imagens de filmes de faroeste e ficava pensando como seria a tal Cidade Livre. Eu imaginava que chegavam cowboys armados, chutando com suas botas as portas vai-e-vem, entrando bar adentro, ostentando poder.

Podia não ser daquele jeito, mas é certo que a ostentação de poder ainda habita por essas bandas até hoje.


Lá na Cidade Livre tudo era pó e as casas eram de madeira. Mas eram casas de madeira feitas “no capricho”. As madeiras, em ripas finas, eram colocadas horizontalmente, sobrepostas umas às outras como ainda podemos ver ao visitar algumas daquelas construções que resistiram ao tempo e ao fogo, que de vez em quando apareciam por lá.


Foi lá, em 58, que inauguraram o asfalto. Meu amigo me contou que asfaltaram a Avenida Central e uma de suas perpendiculares, a travessa Dom Bosco, formando um asfalto em forma de cruz. O presidente Juscelino, em pessoa, veio inaugurar. Acho que JK gostava mesmo de cruz... talvez para pedir a proteção de Nosso Senhor. Ou, quem sabe, quando pensava na tremenda responsabilidade que era um investimento de tamanha envergadura, como foi construir no meio do mato, no cerrado do Centro-Oeste, uma cidade que hoje está do tamanho que está. Fico imaginando JK fazendo o sinal da cruz e rezando todas as vezes que pensava no que, para muitos, era loucura total.


Mas foi lá, no meio da cruz de asfalto, que JK desfilou de trator. O povo de então, candangos ou não, foi lá para ver. Era um acontecimento e tanto: inaugurar o asfalto da Cidade Livre!


O então presidente JK, num gesto bem humorado, típico do “Nonô”, juntou as palmas das mãos e fingiu que ia mergulhar no asfalto. Fazia do trator o seu trampolim.

Com esse gesto, juntando as palmas das mãos e se inclinando, ao mesmo tempo fingia mergulhar e fazia um gesto de reverência à grandiosidade da Nova Capital que, em adiantado estado de gestação, estava se preparando, ansiosa, para nascer!

Mal sabia ela o que mais tarde tantas coisas iriam por aqui acontecer...


Foto: Cidade Livre , Avenida Central, antes do asfalto. Copiada do site: