quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ritos e Mitos – Dando espaço para o NOVO

Aproxima-se o final de mais um ano. É a passagem de um novo tempo. É a época em que as pessoas ao redor do mundo se preparam com seus ritos e seus mitos.

Ritos de usar determinados tipos de roupa e participar de festas e cultos. Todos buscam, de alguma forma, exteriorizar o mito de que o ano novo trará realizações a partir do que estiverem fazendo ou do lugar onde estiverem, ou da roupa que vestirem.

Desde o tempo em que eu trabalhava em um Banco, tenho um ritual de final de ano. Na época, contaminados pelo clima de “Balanço Geral” da contabilidade, limpávamos as gavetas, resolvendo pendências, jogando fora os papéis de que não precisávamos, e encerrávamos o ano com uma copiosa e tradicional chuva de papéis picados, atirados através das janelas dos altos andares dos edifícios no Setor Bancário.

Até hoje gosto desse ritual: limpar as gavetas, jogar fora papéis, doar roupas, calçados e objetos que não uso mais. Com isso, com a casa mais “clean”, abro espaço para coisas novas.

Esse é um rito. Mas é um rito de coisas externas, que não são essenciais.

Mais importante do que limpar as gavetas de casa é limpar “nossas gavetas” internas. A passagem de ano é um tempo útil para a reflexão sobre a nossa vida, nossos sentimentos, nossas feridas emocionais e nossos projetos de vida.

Nesta época, criamos a expectativa de que novas oportunidades surgirão em nossas vidas e de que realizaremos as propostas feitas, sempre renovadas, mas nem sempre alcançadas. É comum planejarmos a mudança de alguns aspectos da vida familiar, do trabalho, e dos cuidados com a saúde. No entanto, nem sempre conseguimos. Quando chega o mês de agosto, percebemos que o ano já caminha para o seu final e que não conseguimos cumprir as metas estabelecidas em seu início.

Por que não conseguimos? Por que nossas expectativas são frustradas?

Para colocar coisas novas em nossas gavetas, precisamos, antes, desocupá-las. Se não nos desfizermos das coisas antigas que não nos servem mais, não sobrará espaço para as coisas novas que desejamos adquirir.

Isto também se aplica aos nossos relacionamentos afetivos. Se guardamos mágoas, não abrimos espaço para um novo amor. Podemos guardar as lembranças felizes de quem já não pode, ou não quer mais estar ao nosso lado. Há uma “gaveta” especial para isso. Mas, se colocarmos essas lembranças na “gaveta” principal, viveremos presos ao passado, deixando de usufruir o momento presente, deixando de perceber que há novas oportunidades, que há outras pessoas que poderiam nos fazer companhia na jornada da vida.

É preciso desapegar-se do passado, deixá-lo para trás. As boas lembranças devem ser guardadas, como alimento para a nossa alma, e as lembranças tristes devem ser processadas e transformadas em crescimento para o nosso espírito, na certeza de que poderemos ter novos momentos e novos relacionamentos.

As águas dos rios sempre correm para o mar, e o mesmo trecho de um rio é renovado a cada segundo. Água parada faz adoecer, água corrente purifica e renova.

Deixar para traz o antigo, dar espaço para o NOVO!

sábado, 22 de dezembro de 2007

VOLTE PARA CASA – Mensagem de Natal

The return of the prodigal sonc. 1662 (210 Kb); Oil on canvas, 262 x 206 cm; The Hermitage, St. Petersburg



Aldo Fagundes





Tenho um amigo, homem ilustre, que quando é atingido por algum problema grave, volta para a casa paterna, para ali chorar sua tristeza। A casa onde ele mora é ampla e confortável. A casa paterna é simples, humildemente perdida em uma vila de periferia. Mas é a casa paterna.



Lembro-me que eu e meus irmãos muitas vezes nos socorremos do Velho Euclides e da Dona Mocita, vendo neles os sábios, com palavras sempre prontas e soluções para todos os problemas। Sim, dentro de nós é muito forte a voz que ressoa: volte para casa!






Os psicólogos entendem e ensinam sobre esse sentimento de aconchego e segurança da casa paterna।




Por isso já vi pessoas maduras, talvez 50 ou 60 anos de vida, desesperarem-se com a morte do pai ou da mãe porque, simbolicamente, para eles isto representou a perda da casa paterna। Ficaram órfãos. Não tem mais para onde voltar.




A fé cristã tem na casa a base de muitos dos seus ensinamentos। Por exemplo: construir a casa sobre a rocha ou construí-la sobre a areia, na belíssima metáfora de encerramento do Sermão do Monte.




Mas em se tratando de apelo de volta para a casa, nenhum texto bíblico é mais significativo do que a Parábola do Filho Pródigo। A narrativa aponta o filho, andrajoso e triste, com fome e só. No meio do sofrimento, marcado pela angústia, teve um lampejo de lucidez e disse: "Vou voltar para casa...".




A casa que é segurança।




A casa que é paz।




O Natal é o mais eloqüente convite de Deus a todos os seus filhos e a todas as suas filhas: "Volte para casa..."।




Antes, o convite fora feito pelos patriarcas e pelos profetas, mas na plenitude dos tempos Deus nos falou "por um que é o seu próprio Filho"।




É assim que compreendo o Natal: O mistério da Encarnação।




Na gruta de Belém está o Deus-Menino, o badalo do sino de Natal desperta consciências, na lembrança do eterno convite। E a estrela que orientou os Magos é até hoje luz, que ilumina o caminho: "Volte para casa".




E o convite é para todos. É universal. Todas as raças. Todos os povos. "Na casa do meu Pai há muitas moradas...", que assim interpreto: há lugar para todos. Aproprie-se da mensagem de Natal. Reconcilie-se com Deus, confie no seu amor e, sem medo, "Volte para casa".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MENSAGEM DE NATAL

Alguns amigos, leitores assíduos do Blog, estranharam meu silêncio. O que estaria acontecendo?

Mais do que ninguém, essa era a perguntava que eu me fazia.

No último mês estive e ainda estou mais introspectiva, mais reflexiva, um pouco triste, enlutada. Tudo o que eu escrevia achava muito pesado para publicar. Não queria transmitir tristeza para os leitores. Mas não consigo escrever aquilo que não sinto. A última tentativa foi o texto que publico em parte, a seguir. Em parte, porque é um texto inacabado. O final que eu havia escrito não tinha nada a ver com o início do texto. Fiz duas tentativas. A realidade é que eu não sabia como terminar o texto, já que eu mesma não tinha essa resposta। Eu mesma não conseguia elaborar o que ।Ontem pela manhã, recebi o texto "VOLTE PARA CASA", escrito por Aldo Fagundes, homem sábio e temente a Deus। Coincidência, sincronicidade ou ação de Deus... Podem chamar como quiserem, mas o fato é que o texto trouxe-me a resposta para a angústia que eu retratava no meu texto. A mensagem calou no fundo do meu coração, suavizou o meu caminho. Com sensibilidade, o autor toca em um tema muito delicado, com sabedoria e amor.

Para mim é um privilégio publicar o texto "VOLTE PARA CASA" no final deste ano, 2007. Este foi um ano marcado pela minha "volta para a casa", e seu autor, Aldo Fagundes, meu professor na Escola Dominical da Igreja Metodista, contribuiu para esse retorno.

Publico a seguir os dois textos. Apesar de esta postagem ter ficado extensa, acho importante que leiam integralmente até o final. As respostas às minhas reflexões e à minha angústia (que são comuns às pessoas da minha faixa etária), encontram-se no texto de Aldo Fagundes. A ele, meu agradecimento por esta pérola! Obrigada por me ajudar a "voltar para casa"!

Bom proveito a todos. Esta é a minha mensagem de Natal!

NOSSOS MORTOS, NOSSA VIDA!

Dulcinéa Cassis

Um a um, vamos enterrando os corpos de nossos pais! Com estas palavras, há cerca de um mês, iniciei um texto que não tive coragem de publicar. Foi quando voltava do velório de uma mãe. Uma mãe que já era muito mais que mãe, era avó e bisavó. Era a passagem de uma pessoa de referência, uma matriarca que deixava sua marca nesta vida. O enterro era só do corpo, pois tudo continuava muito vivo, através de seus descendentes e das lições de sabedoria que deixara.

De lá para cá, nesse período de um mês, foram-se mais dois "pais de amigos".

Enterro de pessoas idosas geralmente é assim: um evento no qual (apesar de sempre triste, entre comentários conformados), revemos amigos e refletimos sobre nossa própria vida. Nesses momentos é que percebemos que, aquele que se foi, já não era há muito tempo o "pai" ou a "mãe". Nosso espírito paternal ou maternal, invertendo os papéis, já acolhera aqueles que no fim da vida nos dão a oportunidade de retribuir seu carinho, cuidando deles.

Mesmo que não tenhamos muita afinidade com o morto, sempre nos emocionamos. Choramos pela família enlutada. Choramos lembrando de nossos pais. Choramos porque pensamos em nossa própria possibilidade de morte.

É uma oportunidade para refletir sobre nossa própria vida. Lembramos do tempo em que nossos pais tinham a nossa idade e nós tínhamos a idade de nossos filhos। É uma oportunidade para inverter os papéis, entender seus motivos, perdoá-los pelas falhas que tiveram tentando fazer o melhor por nós. É a fase de vida em que ficamos órfãos de “Patriarcas” e “Matriarcas” e nos tornamos um referencial para a nossa descendência.

Deparo-me nessa hora com a necessidade de buscar e integrar a minha própria sabedoria interna. A cada vez, temos menos pessoas “mais experientes do que nós” a quem podemos recorrer para buscar um padrão de conduta, de costumes, de sabedoria. Só nos resta buscar em nós mesmos, recorrer às nossas figuras internas, ao nosso Deus interior. É a hora de deixar arquétipo doPuer” imaturo, de deixar a ousadia do “Herói”, e nos tornarmos referências para os mais jovens, integrando a “Sophia” e o “Velho Sábio”.

Ao tempo que essa nova fase me estimula pelo seu desafio, atemoriza-me também pela responsabilidade। Cada vez mais pessoas têm me falado o quanto têm se espelhado em mim, o quanto as minhas falas, os meus textos, as minhas ações têm sido, de alguma forma, um referencial para elas। Sinto-me grata aos que me percebem assim, mas, na realidade, sinto-me apenas uma tela que possibilita o reflexo das projeções de cada um. Sei que não sou quem esperam que eu seja. Sei que não é de mim que vem a inspiração...






VOLTE PARA CASA

(Mensagem de Natal)

Aldo Fagundes

Tenho um amigo, homem ilustre, que quando é atingido por algum problema grave, volta para a casa paterna, para ali chorar sua tristeza. A casa onde ele mora é ampla e confortável. A casa paterna é simples, humildemente perdida em uma vila de periferia. Mas é a casa paterna.

Lembro-me que eu e meus irmãos muitas vezes nos socorremos do Velho Euclides e da Dona Mocita, vendo neles os sábios, com palavras sempre prontas e soluções para todos os problemas। Sim, dentro de nós é muito forte a voz que ressoa: volte para casa!

Os psicólogos entendem e ensinam sobre esse sentimento de aconchego e segurança da casa paterna.

Por isso já vi pessoas maduras, talvez 50 ou 60 anos de vida, desesperarem-se com a morte do pai ou da mãe porque, simbolicamente, para eles isto representou a perda da casa paterna. Ficaram órfãos. Não tem mais para onde voltar.

A fé cristã tem na casa a base de muitos dos seus ensinamentos. Por exemplo: construir a casa sobre a rocha ou construí-la sobre a areia, na belíssima metáfora de encerramento do Sermão do Monte.

Mas em se tratando de apelo de volta para a casa, nenhum texto bíblico é mais significativo do que a Parábola do Filho Pródigo. A narrativa aponta o filho, andrajoso e triste, com fome e só. No meio do sofrimento, marcado pela angústia, teve um lampejo de lucidez e disse: "Vou voltar para casa...".

A casa que é segurança.

A casa que é paz.

O Natal é o mais eloqüente convite de Deus a todos os seus filhos e a todas as suas filhas: "Volte para casa...".

Antes, o convite fora feito pelos patriarcas e pelos profetas, mas na plenitude dos tempos Deus nos falou "por um que é o seu próprio Filho".

É assim que compreendo o Natal: O mistério da Encarnação.

Na gruta de Belém está o Deus-Menino, o badalo do sino de Natal desperta consciências, na lembrança do eterno convite. E a estrela que orientou os Magos é até hoje luz, que ilumina o caminho: "Volte para casa".

E o convite é para todos. É universal. Todas as raças. Todos os povos. "Na casa do meu Pai há muitas moradas...", que assim interpreto: há lugar para todos. Aproprie-se da mensagem de Natal. Reconcilie-se com Deus, confie no seu amor e, sem medo, "Volte para casa".

domingo, 2 de dezembro de 2007

A coragem de amar em tempos do Cólera

Brasília acolheu, na noite desta sexta-feira, a abertura do IX Festival Internacional de Cinema de Brasília, no Cine Academia de Tênis. O filme exibido foi a versão para o cinema do romance de Gabriel García Márquez, "O Amor nos Tempos do Cólera", do diretor britânico Michael Newell. No sábado, voltei lá para assistir "A Coragem de Amar", do diretor francês Claude Lelouch.

Saí de ambos os filmes com uma sensação de estranheza. Interessei-me pelo primeiro principalmente porque, confesso, não havia lido o romance de Gabriel Garcia Marques. A sensação de estranheza do primeiro veio por atores latinos falando em inglês. O fato também foi comentado por outras pessoas. Parecia algo irreal, mecânico, artificial. Os personagens pareciam não viver intensamente as falas.

O outro filme me atraiu pelo autor, e pelo nome. Gosto de filmes que falem de amor! Saí meio decepcionada. Achei "A coragem de amar" um filme monótono. Um melodrama, onde duas irmãs gêmeas, preocupadas com o futuro (a ponto de consultarem uma iridóloga), depois de idas e vindas, acabam se casando como num conto de fadas. Uma delas, que antes era garçonete, casa-se com um cantor que alcança o sucesso, após ter sido desprezado por uma namorada. A moça o "salvara" do seu caos emocional. A outra gêmea, que era empregada num castelo, acaba se casando com o rico empresário dono do castelo, também desiludido e "recuperado" por ela. Eu não tinha gostado desse paralelismo melodramático. De onde Lelouch tirara essa idéia irreal? Ele disse à imprensa que estava retratando pessoas comuns...

Meio frustrada, pois não conseguira nenhuma idéia para um artigo, fui dormir. Acordei lembrando dos dois filmes... as histórias se misturaram na minha cabeça e comecei a achar que a Fernanda Montenegro era atriz de A coragem de Amar... Daí, “matei a charada” entendi (suponho), o objetivo de Newell. Ele utiliza ironicamente a "atores latinos falando inglês". Nada soa mais falso. Foi a forma encontrada para retratar a história de Garcia Marques, a antítese Amor e Doença. Um homem que espera por seu "grande amor" por mais de 51 anos (e ele sabe exatamente quantos dias a mais). Newell ironiza a história com pitadas de humor sutil e refinado. Também ironiza, trazendo a interpretação belíssima de Fernanda Montenegro, que, mesmo na vida real, fala coisas sérias com um tom naturalmente cômico. Fernanda tem humor no tom de voz, na cadência de suas frases. É como se estivesse sempre rindo da vida, mesmo nos momentos de dor, como, por exemplo, no filme "A Central do Brasil".

Lelouch, por sua vez, ironiza a vida e a idéia romântica do "felizes para sempre". Faz um filme monótono, como são os casamentos alicerçados no amor romântico e na fantasia de felicidade eterna. A decepção inicial mostra a realidade que é viver e construir uma vida em conjunto.

Tem razão Jung quando diz: "Se encontrar sua alma fora de você, vire a primeira esquina". Ele se referiu ao arquétipo Anima/Animus. O lado feminino do homem e o lado masculino da mulher, introvertidos, buscam em figuras fora de si, sua identificação. O eterno desejo de encontrar a "alma gêmea". Um processo que, a partir das próprias desilusões, leva o indivíduo a enfrentar a realidade de que somos pessoas solitárias em nosso processo de individuação. As paixões nos servem para, projetando nossa própria alma no outro, internalizá-la e integrá-la à nossa personalidade. Aí sim, poderemos compartilhar a vida com o outro, não esperando dele a complementação ideal para a nossa felicidade, mas um caminhar juntos, sem expectativas projetadas no outro.

Não sei se os dois diretores fizeram propositalmente, mas, na minha interpretação, os dois filmes têm esse ponto em comum. O conto de fadas desmascarado. Pretendo assistir ao filme "Deu a louca na Cinderela". Quem sabe esse é mais realista?