terça-feira, 27 de novembro de 2007

AMOR REAL

Gostar da própria companhia é o primeiro passo para construir relações saudáveis

"Há uma frase de que gosto muito diz: "o casamento dá certo para quem não precisa de casamento". Normalmente, a compulsão de casar e de viver junto nascem de uma dependência. As pessoas esperam um complemento. Essa não é a função de um relacionamento, o outro não vai preencher uma lacuna, mas sim, ajudar a desenvolver o que elas não têm. Infelizmente, a maior parte das pessoas odeia sua própria companhia e vê no outro uma forma de 'salvação'."

Leia artigo completo de
Roberto Shinyashiki

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Fandango no Céu


Hoje tem fandango no céu!
Prepara o chimarão e vem dançar, o gaiteiro chegou.
Anjinhos, deixem suas harpas,
Venham ouvir a “Vaneirinha do vovô”.
Respeitem os “oito baixo” do Edgar!

Homenagem a Edgar Fagundes, avô de meus filhos!

Ouça a gaita de Edgar Fagundes

Leia artigo de Antonio Augusto Fagundes, publicado no Zero Hora

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS –Uma análise junguiana do filme


MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs, França/ Itália, 2006), filme dirigido por Alain Resnais, parece, à primeira vista, um filme despretencioso sobre o tema da solidão. Mas se atentarmos para os detalhes e as cenas sutilmente sugestivas, vamos descobrir um argumento que trata de um dos mais importantes aspectos de nossa personalidade.

Os personagens apresentados têm suas histórias entrecruzadas. São eles:

- Nicole (Laura Morante) – está noiva de Dan (Lambert Wilson) e procura um apartamento para alugar;
- Thierry (André Dussollier) – corretor de imóveis, irmão de Gaëlle, tenta alugar um apartamento para Nicole e seu noivo, Dan; Thierry trabalha com Charlotte (Sabine Azéma);
- Dan – desempregado, justifica-se de muitas maneiras, mas ao invés de procurar emprego, está sempre no bar onde Lionel (Pierre Arditi) trabalha;
- Lionel – mora e cuida do pai acamado e rabugento;
- Charlote – mostra-se uma pessoa recatada e religiosa, tentando esconder sua forte sensualidade; além de trabalhar na imobiliária, trabalha à noite como enfermeira, cuidando do pai de Lionel;
- Gaëlle (Isabelle Carré) – é irmã de Thierry e procura um namorado pela internet.

Não quero entrar em muitos detalhes, para não tirar o prazer do leitor de assistir à Medos Privados em Lugares Públicos, mas vale ressaltar um aspecto, que pode passar despercebido a muitos dos expectadores, e será objeto de nossa análise.

Vou discorrer sobre a personagem Charlote, que, a meu ver, é a protagonista do filme. Charlote trabalha com Thierry na imobiliária durante o dia e, à noite, como cuidadora do idoso e demente pai de Lionel. A personagem mostra um lado religioso e puritano em seus dois trabalhos. Para Thierry, empresta fitas de vídeo de um programa religioso, que ela mesmo havia gravado, e insiste que ele deveria assisti-lo. Ao cuidar do pai de Lionel, ela suporta todas as rabugices e agressões do idoso. Ao chegar em casa, Lionel sempre a encontra lendo a Bíblia, enquanto o pai, que sempre dera trabalho a todas as outras cuidadoras, dorme tranqüilo.

Acontece que, tal como na vida real, e como todas as pessoas, Charlote não tem apenas esse lado luminoso que apresentava. Todos nós temos o nosso lado sombrio (medos privados), que, quanto mais negado e inconsciente estiver, mais força terá em nossa personalidade e em nosso comportamento (lugares públicos).

Charlote grava, em uma fita de vídeo, o programa religioso por cima da gravação de cenas de extrema sedução. Intencionalmente, para uns, mas na minha análise, descuidadamente, a gravação do programa não cobre totalmente a fita original, deixando aparecer as cenas provocantes, estimulando o desejo de Thierry.

A fita gravada com o programa religioso simboliza a tentativa de esconder os aspectos sombrios de nossa personalidade (medos privados), mostrando nosso lado luminoso, mas que acaba sendo percebido, denunciando a verdadeira natureza de todo ser humano (lugares públicos). A fita simboliza o que muitas vezes tentamos fazer: apresentar somente os nossos aspectos desejáveis e esperados pela sociedade (lugares públicos), tentando esconder os desejos e comportamentos por ela condenáveis (medos privados). Só que, como na vida real, a "gravação" deixou pistas mostrando a verdadeira natureza de Charlote (lugares públicos), uma mulher bonita e sensual. Charlote tenta ocultar seu lado mais bonito e criativo (mas muitas vezes condenado), e só consegue extravasá-lo com um objetivo “nobre”, acalmar um velho doente, preso a uma cama.

O filme retrata o medo de tornar pública nossa verdadeira natureza, de mostrar-nos tal como somos. O tema aparece também em outros personagens que tentam esconder os aspectos de sua personalidade que nem sempre são aceitos pela sociedade. Dan tenta esconder a sua dependência de álcool e as situações dela decorrentes. Thierry assiste, escondido de sua irmã, as fitas que mostram a sensualidade de Charlote. Lionel fala muitas coisas sobre si, mas não consegue falar de sua homossexualidade. Gaëlle tenta esconder o desejo de ser amada e Nicole, sentindo-se culpada por ter rompido com Dan, tenta “fechar a história de forma civilizada”, para não assumir o papel de quem rejeita o outro.

Todos nós tentamos, de alguma forma, pelos nossos MEDOS PRIVADOS, esconder os aspectos de nossa personalidade que não queremos aceitar, mas tal a gravação feita em cima de outro conteúdo, basta um descuido para a verdadeira natureza vir à tona nos LUGARES PÚBLICOS.

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS - Em Brasília, no Embracine CasaPark

sábado, 17 de novembro de 2007

A IGREJA QUE ABRAÇA O INFINITO


No vértice dos 90 graus de seus braços, a Cruz se ergue imponente para o Céu, abraçando a pequena congregação e apontando para o infinito de suas possibilidades. Em perfeita harmonia, as linhas retas e curvas traduzem beleza, flexibilidade e firmeza.

Imponente, não por gemas incrustadas em ouro, mas pela simplicidade de suas formas e detalhes de seu acabamento. O piso branco e fresco de cerâmica nos convida a, descalços, apresentar-nos diante do Criador. O combogó (que lembra a infância inocente de seu projetista), vermelho, na cor do fogo, aquece os corações, e permite passar o vento que acaricia o corpo e refresca também a alma. No andar de cima, a vista que alcança o horizonte, próximo ao lago Paranoá, oferece e nos remete à beleza da Criação.

A madeira em suas cores naturais forma o altar para oferecimento, não do sacrifício, mas do Amor de quem abriu a porta da sua casa, de quem abriu mão de um sonho, de quem acreditou, de quem insistiu, de quem reuniu. Amor de todos os que colocaram cada um dos tijolos do pequeno e singelo templo, símbolo da manifestação da Graça de Deus.

Confesso que fui à consagração do Templo da congregação da Igreja Metodista do Paranoá mais pela proximidade que tenho com seu projetista e construtor. Fiquei encantada com o templo e emocionada com o culto!

Foi um daqueles cultos que me inspiram e tocam: com direito a hinos tradicionais, canto de corais, consagração de ofertas no altar, testemunhos da história da formação da congregação e construção do templo, coroados pela palavra simples e inspirada trazida pelo Bispo.

O aconchego da construção permitiu ao povo reunido a proximidade do abraço, a comunhão informal na simplicidade do amor fraterno. Fiquei tocada, emocionada, com vontade de abraçar a todos.

Minhas lembranças viajaram pela história da Igreja Metodista das quais participei. A igrejinha da 412 sul, a inauguração do templo da Asa Sul, com seu piso retalhado, de cimento vermelhão, feito pelos próprios irmãos. Lembrei-me das histórias da Invasão do IAPI, da construção da Ceilândia e das minhas próprias histórias de infância e mocidade na Igreja Metodista.

A consagração de um templo não é um mero ritual! Mas um ritual e uma manifestação de fé e amor do povo reunido, em que nasce a força propulsora que influencia, encaminha e determina o que há de vir. A congregação da Igreja Metodista no Paranoá não vai “para no A”: Ela irá muito além. Tal qual os braços de sua cruz, a Igreja abraça o infinito!

Minha homenagem a todos os que colocaram cada um dos tijolos de amor nesse projeto, mas, especialmente, permitam-me, ao Carlinhos, meu Baby, meu irmão, que trocou o sonho de trocar de carro, pelo sonho de construir uma Igreja!

sábado, 10 de novembro de 2007

QUEM NÃO SE COMUNICA....

E nosso fórum???

Para o analista, não só o que se diz tem um significado. O silêncio às vezes fala mais alto. O silêncio denuncia o assunto que é difícil de falar. E quais foram os temas que caíram no vazio? Que ficaram sem respostas?

"O que vocês acham da colocação da Nélia? É comum acontecer esse afastamento, essa dificuldade de manifestar o afeto por palavras e por carinhos físicos? Por que será que isso acontece? Como fazer para reverter essa situação? É necessário dizer mesmo ‘eu te amo’? Só demonstrar o amor já não basta? Alguém tem alguma experiência nesse sentido para compartilhar?" (postado em 05/11/2007)

"Alguns assuntos passam a ser ‘proibidos’ de se falar. Quando o casal percebe, já existe uma grande distância entre os dois. Fica difícil conversar porque ‘nem tudo pode ser conversado’. O que vocês acham? Concordam com esse meu comentário?" (postado em 01/11/2007)

"O que vocês acham da proposta da Amparo? Concordam com a Tania, que talvez possa ser um sonho? Esse tipo de relação que ainda não consegue ser definida (paradoxalmente, não daria para defini-la, pois, se for definida, deixa de ser a proposta original), já tem sido tentada e praticada? Será que a Amparo ‘escorregou maionese’, como ela pergunta? Ou a proposta já não é tão nova assim? Será que daria certo? Quem já teve ou tem esse tipo de experiência?" (postado em 1º/11/2007)

"Já tivemos comentários sobre finanças, educação de filhos, organização da casa, gerenciamento de serviços, harmonia do casal. E a sexualidade? Para estimular a discussão, fica a sugestão sobre o ‘problema da toalha molhada’: deixar a toalha no banheiro... pode ser bastante estimulante... (ou não!). O que você acha?" (postado em 31/10/2007)


Resumindo, os temas que caíram no silêncio:

- Sexualidade;
- Desinibição;
- Conversa franca e aberta;
- Outras formas de amor;
- Manifestação do afeto, por palavras e carícias físicas.

O Fórum apenas retrata o que acontece na vida real. Não nas "novelas das oito", nas quais se espelha um mundo onde se conversa sobre tudo, sem inibição, e outras formas de amor acontecem com naturalidade. Ou como no seriado que vem antes da "novela das seis", onde os pais e professores são liberais, conversam sobre todos os assuntos com seus filhos. Parece que o Fórum está mais para a "novela das seis", para romances "de época". Época em que havia recato.

Em nosso Fórum, pude constatar o que observo todos os dias no consultório, que existe dificuldade de se falar da sexualidade, mesmo que já não se considere um tabu. Que há bloqueios que impedem a manifestação do afeto, por palavras, o toque físico, o "olho no olho".

A ausência de comunicação tem sido a maior chaga dos relacionamentos. Não falamos o que sentimos, o que queremos, o que achamos que poderia ser diferente. É comum achar que o "outro já sabe", ou que "deveria saber", tanto pelo lado positivo, como pelo lado negativo. "Ele deve saber que o amo, pois faço com carinho"; ou “ela deve saber que a amo, pois trabalho tanto para que nada falte em casa"; ou ainda, "ele/ela devia ter desconfiado que não gostei, pela cara que fiz...".

Dessa forma, cria-se um ciclo, que vai se transformando num emaranhado de fios embaraçados, difícil de saber onde está a ponta. E quando achamos a ponta dos fios embaraçados, se puxarmos sem o devido cuidado, o emaranhado de fios embaraça-se ainda mais. Como sair "dessa"?

A "solução caseira" é a metacomunicação. Significa comunicar sobre a comunicação. Ou seja, distanciar-se da emoção gerada, para falar de forma franca e aberta sobre o que está acontecendo. Sobre a forma como o casal está se relacionando, ou seja, como está se comunicando. Essa proposta foi popularizada com a expressão "discutir a relação". Não gosto muito do termo, pois a palavra "discutir" nos remete a "continuar brigando". Talvez seja por isso que a prática seja evitada.

Há casais, quando a situação ainda não está muito comprometida, que possuem vínculos fortes e saudáveis e conseguem estabelecer esse diálogo. Mas há casos onde é necessária a ajuda profissional, através da terapia familiar ou do casal. A terapia familiar e a terapia de casal são diferentes da terapia pessoal. Nas primeiras trabalha-se diretamente a comunicação entre as pessoas. Na terapia pessoal, que pode ser feita individualmente, ou participando de um grupo de terapia (os problemas geralmente são parecidos), trabalham-se os conteúdos internos de cada um, que podem estar dificultando a prática da comunicação do casal. A terapia em grupo, nesses casos de relacionamento interpessoal, é muito eficaz, pois propicia a oportunidade da prática de comunicação. Pessoas que possuem dificuldade de falar sobre sentimentos e intimidades com seus parceiros, têm, no grupo de terapia, oportunidade de praticar a comunicação transparente e verdadeira, incorporando essa prática em todas as esferas de sua vida.

Mas, infelizmente, ainda existe muita resistência em se procurar ajuda profissional nessa área. Como uma doença sorrateira, se o diagnóstico não for feito a tempo e a ajuda terapêutica não for procurada, a solução pode ser buscar outro tipo de profissional: o advogado!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O CÉU DE MUITAS CORES – Reflexões sobre o filme “Vermelho como o Céu”

Sábado assisti “Vermelho como o céu”, do cineasta italiano Cristiano Bortone. O filme é de tal beleza, que nos emociona e nos dá a oportunidade de colocar o choro em dia. Para mim o cinema é um espaço terapêutico. Por isso sempre recomendo filmes específicos para ajudar na elaboração de alguns conteúdos que estão sendo trabalhados em terapia. É como se fosse um remédio, já que, não sendo médica, não os prescrevo. Dessa forma, por exemplo, para “as mulheres que amam demais”, eu receitaria “O Passado”. Não julguem, os mais acadêmicos, que seria uma terapia de pouco embasamento. No psicodrama, uma das técnicas mais eficazes é o “espelho”. Na dramatização das cenas, olhar-se “de fora”, com o “eu observador”, e isso tem um efeito catalisador: é um momento de importantes insights e percepções sobre si mesmo.

A película conta a história de Mirco Mencacci, que, desde criança, adorava cinema. Mas aos dez anos um acidente tira sua visão e, para dar continuidade à sua educação, seus pais foram obrigados a encaminhá-lo para uma instituição especializada na educação de portadores de deficiência visual. Naquele tempo eram chamados de “CEGOS”. Mas o filme nos mostra que cegos são alguns dos personagens retratados. Apesar de a história ter se passado na década de 70, e os acontecimentos retratados no filme terem contribuído para a mudança na forma de conduzir a educação de portadores de necessidades especiais, ainda nos entristece presenciar atitudes desta natureza: a discriminação da diferença do outro e a auto discriminação por ser diferente. Felizmente, na história de Mirco Mencacci existiu um educador sensível e consciente que assumiu corajosamente os riscos de enfrentar a estrutura vigente, dando oportunidade para as crianças daquela escola desenvolverem plenamente seus potenciais. Mirco Mencacci, adulto, tornou-se músico, compositor e um reconhecido editor de som do cinema italiano.

O filme é rico em personagens interessantes, do ponto de vista de análises do comportamento humano. Por isso, no meu “bulário”, ele teria diversas indicações, como, por exemplo: segurança doméstica, rigidez de pensamento, preconceitos, educação de filhos, desenvolvimento do próprio potencial, desenvolvimento da sensibilidade, trabalho em equipe, resistência a mudanças, auto-estima, a força do coletivo etc. Hoje desejo ressaltar o aspecto da permissão ao desenvolvimento do potencial.

O diretor da escola especializada para portadores de deficiência visual, ao receber Mirco como aluno da escola, falava orgulhosamente da profissionalização oferecida pela escola àqueles meninos “cegos”. Orgulhava-se da possibilidade de fazê-los excelentes telefonistas e tecelões. Essa era a visão limitada daquele diretor, igualmente portador de deficiência visual.

Observando a cena, nossa primeira reação é criticá-lo pela visão limitada. A clientela daquela escola teria, em nossa opinião, muitas outras possibilidades de inserção no mercado de trabalho, como hoje acontece, e a própria história de Mirco Mencacci comprovou.

Mas, trazendo para a nossa realidade: também não fazemos assim com nossos filhos? Em Brasília, principalmente, como existem inúmeras oportunidades de inserção no serviço público, é atitude comum aos pais direcionarem a carreira profissional dos filhos para algum concurso público. Não importa qual: “o importante é passar em concurso”. Entristeço-me com essa tendência. As insatisfações e as doenças geradas pelo stress de trabalhar naquilo para o que não se tem vocação acabam desaguando na clínica psicológica.

Considero nobre a vocação de colocar-se a serviço da sociedade, trabalhando no serviço público. Mas é importante que exista consciência do valor do trabalho e do diferencial que ele acrescenta à sociedade. O problema não é o Serviço Público, a questão é “por que estou no Serviço Público?”, “identifico-me com a atividade que exerço?”.

Há, também, aqueles que preferem a segurança de uma colocação no Serviço Público, visando garantir certa segurança financeira para dedicar-se a outro tipo de realização, seja artística, filantrópica, ou mesmo durante o tempo que se preparam para alçar vôo em profissões que exigem maior investimento em tempo, estudo e finanças. Essa atitude é compreensível, realista e saudável, já que garante a realização da vocação.

A psicologia do trabalho há muito tem estudado a relação Trabalho e Saúde Mental. Dejours¹, pesquisador francês, estudou o prejuízo do trabalho taylorizado na saúde bio-psico-social. No Brasil, pesquisadores também se dedicam ao assunto. Codo² traz a noção de “trabalho vazio”, referindo-se ao trabalho dos bancários, pois não existe a percepção do resultado de seu trabalho.

Lembro-me da grande lição que me ensinou meu filho, hoje adulto e profissional realizado, quando criança. Ele desejava ser cientista. Era década de 80 e vivíamos a realidade de amigos que abandonavam a pesquisa científica, após longo investimento acadêmico, por falta de investimentos governamentais nessa área. Cuidadosa e preocupada com o seu futuro, expliquei-lhe que não era uma área muito valorizada no Brasil, o que poderia acarretar sacrifícios financeiros, ao que ele respondeu-me: “quem disse que precisa ser no Brasil?”. Não cabe aos pais determinarem o que seja, onde seja e como seja. Ouvir, perceber, ajudar o jovem a descobrir e desenvolver sua vocação, é diferente de direcionar a partir da projeção de nossos próprios desejos, medos e frustrações.

O diretor da Escola de Mirco Mencacci subestimava o potencial daqueles meninos, restringindo-os à apenas sua limitada visão, influenciada pelo seu próprio autopreconceito. Mirco lutou e provou que o potencial dele e de todas as pessoas é inesgotável. Mas é preciso acreditar e dar espaço para que ele se realize.

Se perguntarmos qual a cor do céu, a maioria das pessoas vai responder que é azul. Para Mirco Mencacci, o céu era de várias cores, inclusive vermelho, ao pôr-do-sol.




[1] DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho. Cortez, 2003.

[2] CODO, Wanderley/JACQUES, Maria da Graça Correa. Saúde Mental

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Fórum – Novo Comentário. Vamos participar!

Após o feriado prolongado, vamos continuar nosso fórum, que já não é só sobre “pré-casamento”. Ele já se ampliou, abrangendo formas alternativas de relacionamento.

Nelia, a leitora que inicialmente sugeriu o fórum, disse...
“Outro dia ouvi, em um programa de TV, de um casal com problemas com filhos, que eles não sabiam elogiar os filhos e nem mesmo um ao outro. A princípio fiquei ‘chocada’, mas depois refleti sobre a situação e cheguei à conclusão de que um dos contratos mais difíceis de serem perenes em um casamento é o emocional. Com o decorrer do tempo, com a rotina do dia-a-dia, nos afastamos de afagos básicos e, se não cuidarmos, com o tempo passamos a crer que não é necessário verbalizar o amor que sentimos com os filhos e com o companheiro... Com os filhos, ainda crianças, são abundantes os carinhos físicos e verbais, já na adolescência, por vezes os filhos rejeitam e, se não ficamos atentos, passa a fase "rebelde" e o afastamento é quase inevitável. Acho importante praticarmos, diariamente, o "eu te amo", mesmo sendo considerado piegas.”
1º de novembro de 2007 10h57


Obrigada, Nélia, por mais esta contribuição!

O que vocês acham da colocação da Nélia? É comum acontecer esse afastamento, essa dificuldade de manifestar o afeto por palavras e por carinhos físicos? Por que será que isso acontece? Como fazer para reverter essa situação? É necessário dizer mesmo “eu te amo”? Só demonstrar o amor já não basta? Alguém tem alguma experiência nesse sentido para compartilhar?

Estou publicando também mais um texto, “O passado mais que presente”, com análises inspiradas no filme “O Passado”, de Hector Babenco. Acredito que o filme nos traz também vários aspectos para refletirmos sobre a relação de casamento.

Enviem seus comentários. Sua participação é importante. Se preferir, para ficar mais à vontade, não é necessário se identificar.

O PASSADO MAIS QUE PRESENTE

O filme “O Passado” estreou na semana passada e já tem sido motivo de várias análises de críticos de cinema e, tratando-se de um conflito típico das relações afetivas contemporâneas, também tem sido objeto de análise de estudiosos do comportamento humano.
Segundo a Folha Ilustrada ,
“O Passado, novo filme do cineasta Hector Babenco, baseia-se no romance homônimo do escritor argentino Alan Pauls (Cosac Naify) e também numa certeza do diretor: ‘Quem manda na relação é a mulher. Por mais que o homem seja agressivo nos negócios, por mais que ele seja autodeterminado nas atitudes empresariais e comportamentais, o vetor da relação é a mulher’.”

E a crítica da Folha continua: “No caso de ‘O Passado’, a mulher continua mandando, mesmo após o fim da relação. Sofía (Analía Couceyro) não desiste de ter um papel na vida de Rímini (Gael García Bernal), com quem viveu um romance de 12 anos, ainda que ele se case pela segunda ou terceira vez”.


Assisti ao filme na semana passada. É desses filmes que “ficam”! Passei a semana refletindo sobre ele, fazendo anotações, elaborando aos poucos este texto. Sugiro que os leitores assistam ao filme, antes de ler minhas análises.
Apresento uma leitura dos riquíssimos simbolismos apresentados na película. Vale lembrar que toda interpretação é subjetiva e influenciada pelas referências pessoais do analista, que, enquanto sujeito, também é objeto da análise de um cotidiano comum a todos nós.

Na minha visão, o filme tem, em seu argumento, mais do que a relação homem-mulher e sua disputa pelo poder de comando dessa relação, ele traça um perfil do poder que o passado exerce no presente da vida das pessoas.

O filme retrata um homem controlado por sua ex-mulher, que o perseguia e influenciava seus relacionamentos posteriores (ou uma mulher controlada pela atitude de indiferença com que era tratada por seu ex-marido?). Rimini tentou seguir a sua vida. Sofia parou sua vida em função da dependência que tinha de Rimini. Na leitura que faço, perseguindo e infernizando a vida de Rimini, Sofia controlava, mas também era controlada pela doentia paixão que cultivava.

Rimini saiu de casa, mas levou consigo uma única foto de Sofia, num porta-retrato, simbolicamente utilizado para o ritual substituto da ligação simbiótica. Ironicamente, Rimini deixou para trás todas as suas fotos, as de infância e as do casal. Na despedida, Sofia lembrou: "Precisamos separar as fotos".
As fotos de um casal são os registros das alegrias que viveram juntos (ninguém tira fotos de momentos ruins). Nos dias e meses subseqüentes, Sofia lembrou-lhe, em vão: "Você tem uma pendência comigo: precisamos separar as fotos".

No desenrolar da estória, Rimini relaciona-se com mais três mulheres. Com a primeira conectou-se a partir da atração física e da identificação mútua pelo similar momento emocional (ambos acabavam de separar-se). A segunda atraiu-lhe pela afinidade intelectual e a segurança proporcionada (segurança financeira, nascimento do filho, o início da “família”). A terceira, pelo instinto, pelo qual acabou sendo traído (o instinto o leva ao intercurso sexual sem compromisso, mas a falta de compromisso da mulher traz à tona a raiva instintiva, não somente por aquela mulher, mas ao que ela representava naquele momento em sua vida).

Mas o passado continuou a perseguir Rimini. E a roda da roca das Moiras que tecem os fios do destino, o levou de volta para casa, para finalizar a sua história com Sofia, através do ritual de separação das fotos e de suas histórias.

No entanto, Sofia, que a princípio foi quem propôs o ritual, dele não participou. E após um vingativo ato de “estupro consentido”, Rimini sai de casa e da relação, levando consigo suas fotos e deixando o seu passado para trás.

A história teria terminado para ambos? Na minha opinião, talvez Rimini, tendo entrado em contato com seu lado sombrio, tenha conseguido naquele momento fechar sua história de dependência afetiva de Sofia e de todas as mulheres por ela representada. Quanto a ela, tenho minhas dúvidas. Não assumiu seu lado sombrio e manipulador. A inconsciência dos motivos que perpetuavam a sua obsessão por Rimini, criara a ilusão de que o tinha de volta. Mas foi frustrada em sua expectativa de tê-lo ao seu lado.

De qualquer forma, ambos ficam com a memória dos momentos vividos. Independente da maneira com que essas lembranças determinem e influenciem os relacionamentos posteriores, elas deixam suas marcas na vida de cada um.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

MEUS NOVOS JOVENS AMIGOS

Eu andava meio “carente de amigos”. Estava difícil conseguir me encontrar com eles, com tempo para conversar, bater um papo sem tempo para acabar. Todos sempre muito ocupados, trabalhando muito. O pouco tempo disponível da turma da minha idade é dedicado para encontrar os filhos, na maioria recém-casados.

Quando acontece de nos encontrarmos, o assunto acaba me deixando “pra baixo”... gira em torno da inconformidade com a política, os calores da menopausa, os casamentos desfeitos, os amores não correspondidos, as cirurgias plásticas (e outras novidades estéticas), as grifes e os “carrões”. Isso quando não falam de doenças, exames médicos e tratamentos. O trabalho com o cuidado exigido com os pais idosos, a preocupação com a carreira profissional e a despesa da festa de casamento dos filhos, a vontade de ter netos, o orçamento apertado...

Mas agora está sendo diferente. Resolvi investir na amizade com pessoas mais jovens. Tem um grupo com quem almoço no restaurante natural. É um grupo muito divertido e alegre. Tudo é motivo para riso e piada. Ninguém tem pressa nem horário.

Na igreja também resolvi freqüentar a turma dos mais jovens. É uma delícia ouvir o humor inteligente e refinado do nosso jovem professor, que incentiva a participação de todos nas acaloradas discussões sobre os mais diversos assuntos que permeiam a espiritualidade.

E, recentemente, estou me aproximando do grupo de colegas da UnB. Sábado encontrei duas delas no cinema. Depois do filme, tomamos um café, acompanhado de uma conversa gostosa e divertida. Parecia que já nos conhecíamos há anos. Outro dia, na aula, uma delas me convidou para jantar na sua casa. Convites de última hora são atitudes de jovens.

A reunião foi ótima! Não vi o tempo passar. Rapidamente me senti incluída no grupo. Os assuntos giravam em torno de festas, viagens, saídas para dançar, esportes praticados etc. Tudo “alto astral”! Havia um casal que estava comemorando o quarto ano de casamento e uma jovem que contava as peripécias de sua última festa de aniversário. Pena que eu não fui, pois ainda não era tão próxima desse grupo. Mas ela promete que a próxima festa, daqui a dois anos, vai ser melhor ainda. Essa eu não falto por nada... ela vai completar 90 anos.

O grupo de “colegas da UnB” fazem parte do GEPAFI (Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos). O grupo do almoço tem idade de 13 a 7... (sabe que nem sei?). E o grupo da igreja vai dos vinte e poucos até oitenta e alguma coisa. O “jovem professor”, apesar de aparentar bem menos, já passou dos 70 anos.


A grande lição que tenho aprendido com meus novos amigos, é que ser jovem não tem nada a ver com idade cronológica. Ser jovem é ter espírito jovem. E para saber sentir-se sempre jovem é preciso ter a sabedoria que se adquire com o passar dos anos... ou... aprender com quem já passou por eles.

Queridos amigos da minha idade, por favor, não se sintam rejeitados. Vocês moram no meu coração! Vamos aprender a ser jovens também!


GEPAFI
As atividades dos Programas de Atividade Física para Idosos (A PARTIR DOS 50 ANOS)
Musculação de Segunda a Sexta de 08h00 ás 10h00
Dança de Salão Segundas e Quartas de 10h00 ás 11h00
Ioga Terças e Quintas de 10h00 ás 11h00
Tai Chi Chuan Terças e Quintas de 08h00 ás 09h00
Funciona no Centro Olímpico da UnB
Telefone de contato: 3307-2698 Ramal: 261 Pela manhã
Participe!

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

E o nosso fórum continua....

Nosso "Fórum Pré-casamento" continua e o tema já está sendo ampliado para discutir outras formas de "casamento".

Cláudia Ziller Faria disse...

"Meu pai, como o da Neca, me deu um conselho sábio na hora de sairmos para a Igreja. 'Nunca discuta enquanto estiver com raiva. Espere a raiva passar para conversar, porque muitas vezes dizemos coisas na hora da raiva. Coisas que ferem demais, não deveriam ser ditas. As palavras ditas não são retiradas. Permanecem para sempre. Pode haver perdão, mas a lembrança continua.' Conselho que sigo até hoje e tem dado muito certo."

31 de outubro de 2007 18h22


Parabéns ao pai da Cláudia, pela preocupação em aconselhar a filha! Sábio conselho! Mas, atenção ao detalhe: "Espere a raiva passar para conversar", é diferente de deixar de falar aquilo que precisa ser dito (mesmo que seja em um outro momento). A base da comunicação profunda e verdadeira implica falar o que pensamos e sentimos. Se há discordância e desconforto na convivência, é importante que o casal converse com calma sobre o assunto. O comportamento de "tentar esquecer" ou "deixar para lá", pode acumular pendências e mágoas que contaminam o relacionamento. Ao invés de unir, esta atitude afasta as pessoas. Alguns assuntos passam a ser "proibidos" de se falar. Quando o casal percebe, já existe uma grande distância entre os dois. Fica difícil conversar porque "nem tudo pode ser conversado". O que vocês acham? Concordam com esse meu comentário?

O outro comentário é da Amparo, uma interessante proposta menos tradicional de relacionamento.


Amparo disse...

"Muito interessante tudo que foi dito até agora. Mas, como estou ficando cada dia mais ousada, e assim, irreverente talvez, ouso dizer que os tempos já nos permitem pensar em um tipo de 'não contrato de amor'. O que seria isso? Amor livre? Não! 'Não amar'? Não! Não apostar? Não! 'Não compromisso'? Não! Não confiar? Não!
Para mim, o 'não contrato de amor', é um conceito que me ocorreu agora, e que, sem sombra de dúvida, pode ser reformulado, pois o que conta é a idéia, que venho amadurecendo há algum tempo. Pois bem, o 'não contrato de amor' seria uma espécie de esforço mútuo para manter um 'encontro' de amor. Aquele Encontro de Moreno, sabe? Onde as pessoas tivessem o prazer de 'uma enxergar o outro com os olhos do outro', e vice-versa. Não é aceitar de qualquer jeito, pois a gente não se aceita de qualquer jeito... mas no fundo, somos bastante ponderados com a gente mesmo. Ponderação! Deu para entender? E para isso não haveria a necessidade de morar na mesma casa, nem dividir despesas ou bens materiais. A missão maior do casal seria se esforçar em compartilhar e alimentar continuamente a relação de amor, com amor, de forma a estender o prazer dessa união pelo maior tempo possível, e, se possível, pela vida inteira. E nessa relação, ingredientes indispensáveis, seriam, além da ponderação, o respeito mútuo e a cumplicidade. Há outros ingredientes que podem variar de acordo com a receita de cada casal, não se esquecendo nunca de acrescentar uns temperinhos mais picantes também. Eu ainda não consegui, mas entendam... estou evoluindo.Viajei? Escorreguei na maionese?
Beijo."

31 de outubro de 2007 19h17



Tania disse...
“Querida Dulcinea, o fórum está ótimo. Parabéns!
Gostei do comentário da Amparo. Sonho? Talvez.
1 de novembro de 2007 08h07


Parabéns, Amparo, pela ousadia! Obrigada, também querida Tania!

O que vocês acham da proposta da Amparo? Concordam com a Tania, que talvez possa ser um sonho? Esse tipo de relação que ainda não consegue ser definida (paradoxalmente, não daria para defini-la, pois, se for definida, deixa de ser a proposta original), já tem sido tentada e praticada? Será que a Amparo "escorregou maionese", como ela pergunta? Ou a proposta já não é tão nova assim? Será que daria certo? Quem já teve ou tem esse tipo de experiência?


Participem contando suas experiências, expondo suas dúvidas, suas concordâncias e discordâncias. Lembro que não é necessário identificar-se. Basta postar seu comentário como "Anônimo". Ou, se preferir, para facilitar a continuidade de sua participação, você pode usar um pseudônimo. O importante para a nossa proposta é que as participações possam expressar o real sentimento e o pensamento de cada um.