quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ritos e Mitos – Dando espaço para o NOVO

Aproxima-se o final de mais um ano. É a passagem de um novo tempo. É a época em que as pessoas ao redor do mundo se preparam com seus ritos e seus mitos.

Ritos de usar determinados tipos de roupa e participar de festas e cultos. Todos buscam, de alguma forma, exteriorizar o mito de que o ano novo trará realizações a partir do que estiverem fazendo ou do lugar onde estiverem, ou da roupa que vestirem.

Desde o tempo em que eu trabalhava em um Banco, tenho um ritual de final de ano. Na época, contaminados pelo clima de “Balanço Geral” da contabilidade, limpávamos as gavetas, resolvendo pendências, jogando fora os papéis de que não precisávamos, e encerrávamos o ano com uma copiosa e tradicional chuva de papéis picados, atirados através das janelas dos altos andares dos edifícios no Setor Bancário.

Até hoje gosto desse ritual: limpar as gavetas, jogar fora papéis, doar roupas, calçados e objetos que não uso mais. Com isso, com a casa mais “clean”, abro espaço para coisas novas.

Esse é um rito. Mas é um rito de coisas externas, que não são essenciais.

Mais importante do que limpar as gavetas de casa é limpar “nossas gavetas” internas. A passagem de ano é um tempo útil para a reflexão sobre a nossa vida, nossos sentimentos, nossas feridas emocionais e nossos projetos de vida.

Nesta época, criamos a expectativa de que novas oportunidades surgirão em nossas vidas e de que realizaremos as propostas feitas, sempre renovadas, mas nem sempre alcançadas. É comum planejarmos a mudança de alguns aspectos da vida familiar, do trabalho, e dos cuidados com a saúde. No entanto, nem sempre conseguimos. Quando chega o mês de agosto, percebemos que o ano já caminha para o seu final e que não conseguimos cumprir as metas estabelecidas em seu início.

Por que não conseguimos? Por que nossas expectativas são frustradas?

Para colocar coisas novas em nossas gavetas, precisamos, antes, desocupá-las. Se não nos desfizermos das coisas antigas que não nos servem mais, não sobrará espaço para as coisas novas que desejamos adquirir.

Isto também se aplica aos nossos relacionamentos afetivos. Se guardamos mágoas, não abrimos espaço para um novo amor. Podemos guardar as lembranças felizes de quem já não pode, ou não quer mais estar ao nosso lado. Há uma “gaveta” especial para isso. Mas, se colocarmos essas lembranças na “gaveta” principal, viveremos presos ao passado, deixando de usufruir o momento presente, deixando de perceber que há novas oportunidades, que há outras pessoas que poderiam nos fazer companhia na jornada da vida.

É preciso desapegar-se do passado, deixá-lo para trás. As boas lembranças devem ser guardadas, como alimento para a nossa alma, e as lembranças tristes devem ser processadas e transformadas em crescimento para o nosso espírito, na certeza de que poderemos ter novos momentos e novos relacionamentos.

As águas dos rios sempre correm para o mar, e o mesmo trecho de um rio é renovado a cada segundo. Água parada faz adoecer, água corrente purifica e renova.

Deixar para traz o antigo, dar espaço para o NOVO!

sábado, 22 de dezembro de 2007

VOLTE PARA CASA – Mensagem de Natal

The return of the prodigal sonc. 1662 (210 Kb); Oil on canvas, 262 x 206 cm; The Hermitage, St. Petersburg



Aldo Fagundes





Tenho um amigo, homem ilustre, que quando é atingido por algum problema grave, volta para a casa paterna, para ali chorar sua tristeza। A casa onde ele mora é ampla e confortável. A casa paterna é simples, humildemente perdida em uma vila de periferia. Mas é a casa paterna.



Lembro-me que eu e meus irmãos muitas vezes nos socorremos do Velho Euclides e da Dona Mocita, vendo neles os sábios, com palavras sempre prontas e soluções para todos os problemas। Sim, dentro de nós é muito forte a voz que ressoa: volte para casa!






Os psicólogos entendem e ensinam sobre esse sentimento de aconchego e segurança da casa paterna।




Por isso já vi pessoas maduras, talvez 50 ou 60 anos de vida, desesperarem-se com a morte do pai ou da mãe porque, simbolicamente, para eles isto representou a perda da casa paterna। Ficaram órfãos. Não tem mais para onde voltar.




A fé cristã tem na casa a base de muitos dos seus ensinamentos। Por exemplo: construir a casa sobre a rocha ou construí-la sobre a areia, na belíssima metáfora de encerramento do Sermão do Monte.




Mas em se tratando de apelo de volta para a casa, nenhum texto bíblico é mais significativo do que a Parábola do Filho Pródigo। A narrativa aponta o filho, andrajoso e triste, com fome e só. No meio do sofrimento, marcado pela angústia, teve um lampejo de lucidez e disse: "Vou voltar para casa...".




A casa que é segurança।




A casa que é paz।




O Natal é o mais eloqüente convite de Deus a todos os seus filhos e a todas as suas filhas: "Volte para casa..."।




Antes, o convite fora feito pelos patriarcas e pelos profetas, mas na plenitude dos tempos Deus nos falou "por um que é o seu próprio Filho"।




É assim que compreendo o Natal: O mistério da Encarnação।




Na gruta de Belém está o Deus-Menino, o badalo do sino de Natal desperta consciências, na lembrança do eterno convite। E a estrela que orientou os Magos é até hoje luz, que ilumina o caminho: "Volte para casa".




E o convite é para todos. É universal. Todas as raças. Todos os povos. "Na casa do meu Pai há muitas moradas...", que assim interpreto: há lugar para todos. Aproprie-se da mensagem de Natal. Reconcilie-se com Deus, confie no seu amor e, sem medo, "Volte para casa".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MENSAGEM DE NATAL

Alguns amigos, leitores assíduos do Blog, estranharam meu silêncio. O que estaria acontecendo?

Mais do que ninguém, essa era a perguntava que eu me fazia.

No último mês estive e ainda estou mais introspectiva, mais reflexiva, um pouco triste, enlutada. Tudo o que eu escrevia achava muito pesado para publicar. Não queria transmitir tristeza para os leitores. Mas não consigo escrever aquilo que não sinto. A última tentativa foi o texto que publico em parte, a seguir. Em parte, porque é um texto inacabado. O final que eu havia escrito não tinha nada a ver com o início do texto. Fiz duas tentativas. A realidade é que eu não sabia como terminar o texto, já que eu mesma não tinha essa resposta। Eu mesma não conseguia elaborar o que ।Ontem pela manhã, recebi o texto "VOLTE PARA CASA", escrito por Aldo Fagundes, homem sábio e temente a Deus। Coincidência, sincronicidade ou ação de Deus... Podem chamar como quiserem, mas o fato é que o texto trouxe-me a resposta para a angústia que eu retratava no meu texto. A mensagem calou no fundo do meu coração, suavizou o meu caminho. Com sensibilidade, o autor toca em um tema muito delicado, com sabedoria e amor.

Para mim é um privilégio publicar o texto "VOLTE PARA CASA" no final deste ano, 2007. Este foi um ano marcado pela minha "volta para a casa", e seu autor, Aldo Fagundes, meu professor na Escola Dominical da Igreja Metodista, contribuiu para esse retorno.

Publico a seguir os dois textos. Apesar de esta postagem ter ficado extensa, acho importante que leiam integralmente até o final. As respostas às minhas reflexões e à minha angústia (que são comuns às pessoas da minha faixa etária), encontram-se no texto de Aldo Fagundes. A ele, meu agradecimento por esta pérola! Obrigada por me ajudar a "voltar para casa"!

Bom proveito a todos. Esta é a minha mensagem de Natal!

NOSSOS MORTOS, NOSSA VIDA!

Dulcinéa Cassis

Um a um, vamos enterrando os corpos de nossos pais! Com estas palavras, há cerca de um mês, iniciei um texto que não tive coragem de publicar. Foi quando voltava do velório de uma mãe. Uma mãe que já era muito mais que mãe, era avó e bisavó. Era a passagem de uma pessoa de referência, uma matriarca que deixava sua marca nesta vida. O enterro era só do corpo, pois tudo continuava muito vivo, através de seus descendentes e das lições de sabedoria que deixara.

De lá para cá, nesse período de um mês, foram-se mais dois "pais de amigos".

Enterro de pessoas idosas geralmente é assim: um evento no qual (apesar de sempre triste, entre comentários conformados), revemos amigos e refletimos sobre nossa própria vida. Nesses momentos é que percebemos que, aquele que se foi, já não era há muito tempo o "pai" ou a "mãe". Nosso espírito paternal ou maternal, invertendo os papéis, já acolhera aqueles que no fim da vida nos dão a oportunidade de retribuir seu carinho, cuidando deles.

Mesmo que não tenhamos muita afinidade com o morto, sempre nos emocionamos. Choramos pela família enlutada. Choramos lembrando de nossos pais. Choramos porque pensamos em nossa própria possibilidade de morte.

É uma oportunidade para refletir sobre nossa própria vida. Lembramos do tempo em que nossos pais tinham a nossa idade e nós tínhamos a idade de nossos filhos। É uma oportunidade para inverter os papéis, entender seus motivos, perdoá-los pelas falhas que tiveram tentando fazer o melhor por nós. É a fase de vida em que ficamos órfãos de “Patriarcas” e “Matriarcas” e nos tornamos um referencial para a nossa descendência.

Deparo-me nessa hora com a necessidade de buscar e integrar a minha própria sabedoria interna. A cada vez, temos menos pessoas “mais experientes do que nós” a quem podemos recorrer para buscar um padrão de conduta, de costumes, de sabedoria. Só nos resta buscar em nós mesmos, recorrer às nossas figuras internas, ao nosso Deus interior. É a hora de deixar arquétipo doPuer” imaturo, de deixar a ousadia do “Herói”, e nos tornarmos referências para os mais jovens, integrando a “Sophia” e o “Velho Sábio”.

Ao tempo que essa nova fase me estimula pelo seu desafio, atemoriza-me também pela responsabilidade। Cada vez mais pessoas têm me falado o quanto têm se espelhado em mim, o quanto as minhas falas, os meus textos, as minhas ações têm sido, de alguma forma, um referencial para elas। Sinto-me grata aos que me percebem assim, mas, na realidade, sinto-me apenas uma tela que possibilita o reflexo das projeções de cada um. Sei que não sou quem esperam que eu seja. Sei que não é de mim que vem a inspiração...






VOLTE PARA CASA

(Mensagem de Natal)

Aldo Fagundes

Tenho um amigo, homem ilustre, que quando é atingido por algum problema grave, volta para a casa paterna, para ali chorar sua tristeza. A casa onde ele mora é ampla e confortável. A casa paterna é simples, humildemente perdida em uma vila de periferia. Mas é a casa paterna.

Lembro-me que eu e meus irmãos muitas vezes nos socorremos do Velho Euclides e da Dona Mocita, vendo neles os sábios, com palavras sempre prontas e soluções para todos os problemas। Sim, dentro de nós é muito forte a voz que ressoa: volte para casa!

Os psicólogos entendem e ensinam sobre esse sentimento de aconchego e segurança da casa paterna.

Por isso já vi pessoas maduras, talvez 50 ou 60 anos de vida, desesperarem-se com a morte do pai ou da mãe porque, simbolicamente, para eles isto representou a perda da casa paterna. Ficaram órfãos. Não tem mais para onde voltar.

A fé cristã tem na casa a base de muitos dos seus ensinamentos. Por exemplo: construir a casa sobre a rocha ou construí-la sobre a areia, na belíssima metáfora de encerramento do Sermão do Monte.

Mas em se tratando de apelo de volta para a casa, nenhum texto bíblico é mais significativo do que a Parábola do Filho Pródigo. A narrativa aponta o filho, andrajoso e triste, com fome e só. No meio do sofrimento, marcado pela angústia, teve um lampejo de lucidez e disse: "Vou voltar para casa...".

A casa que é segurança.

A casa que é paz.

O Natal é o mais eloqüente convite de Deus a todos os seus filhos e a todas as suas filhas: "Volte para casa...".

Antes, o convite fora feito pelos patriarcas e pelos profetas, mas na plenitude dos tempos Deus nos falou "por um que é o seu próprio Filho".

É assim que compreendo o Natal: O mistério da Encarnação.

Na gruta de Belém está o Deus-Menino, o badalo do sino de Natal desperta consciências, na lembrança do eterno convite. E a estrela que orientou os Magos é até hoje luz, que ilumina o caminho: "Volte para casa".

E o convite é para todos. É universal. Todas as raças. Todos os povos. "Na casa do meu Pai há muitas moradas...", que assim interpreto: há lugar para todos. Aproprie-se da mensagem de Natal. Reconcilie-se com Deus, confie no seu amor e, sem medo, "Volte para casa".

domingo, 2 de dezembro de 2007

A coragem de amar em tempos do Cólera

Brasília acolheu, na noite desta sexta-feira, a abertura do IX Festival Internacional de Cinema de Brasília, no Cine Academia de Tênis. O filme exibido foi a versão para o cinema do romance de Gabriel García Márquez, "O Amor nos Tempos do Cólera", do diretor britânico Michael Newell. No sábado, voltei lá para assistir "A Coragem de Amar", do diretor francês Claude Lelouch.

Saí de ambos os filmes com uma sensação de estranheza. Interessei-me pelo primeiro principalmente porque, confesso, não havia lido o romance de Gabriel Garcia Marques. A sensação de estranheza do primeiro veio por atores latinos falando em inglês. O fato também foi comentado por outras pessoas. Parecia algo irreal, mecânico, artificial. Os personagens pareciam não viver intensamente as falas.

O outro filme me atraiu pelo autor, e pelo nome. Gosto de filmes que falem de amor! Saí meio decepcionada. Achei "A coragem de amar" um filme monótono. Um melodrama, onde duas irmãs gêmeas, preocupadas com o futuro (a ponto de consultarem uma iridóloga), depois de idas e vindas, acabam se casando como num conto de fadas. Uma delas, que antes era garçonete, casa-se com um cantor que alcança o sucesso, após ter sido desprezado por uma namorada. A moça o "salvara" do seu caos emocional. A outra gêmea, que era empregada num castelo, acaba se casando com o rico empresário dono do castelo, também desiludido e "recuperado" por ela. Eu não tinha gostado desse paralelismo melodramático. De onde Lelouch tirara essa idéia irreal? Ele disse à imprensa que estava retratando pessoas comuns...

Meio frustrada, pois não conseguira nenhuma idéia para um artigo, fui dormir. Acordei lembrando dos dois filmes... as histórias se misturaram na minha cabeça e comecei a achar que a Fernanda Montenegro era atriz de A coragem de Amar... Daí, “matei a charada” entendi (suponho), o objetivo de Newell. Ele utiliza ironicamente a "atores latinos falando inglês". Nada soa mais falso. Foi a forma encontrada para retratar a história de Garcia Marques, a antítese Amor e Doença. Um homem que espera por seu "grande amor" por mais de 51 anos (e ele sabe exatamente quantos dias a mais). Newell ironiza a história com pitadas de humor sutil e refinado. Também ironiza, trazendo a interpretação belíssima de Fernanda Montenegro, que, mesmo na vida real, fala coisas sérias com um tom naturalmente cômico. Fernanda tem humor no tom de voz, na cadência de suas frases. É como se estivesse sempre rindo da vida, mesmo nos momentos de dor, como, por exemplo, no filme "A Central do Brasil".

Lelouch, por sua vez, ironiza a vida e a idéia romântica do "felizes para sempre". Faz um filme monótono, como são os casamentos alicerçados no amor romântico e na fantasia de felicidade eterna. A decepção inicial mostra a realidade que é viver e construir uma vida em conjunto.

Tem razão Jung quando diz: "Se encontrar sua alma fora de você, vire a primeira esquina". Ele se referiu ao arquétipo Anima/Animus. O lado feminino do homem e o lado masculino da mulher, introvertidos, buscam em figuras fora de si, sua identificação. O eterno desejo de encontrar a "alma gêmea". Um processo que, a partir das próprias desilusões, leva o indivíduo a enfrentar a realidade de que somos pessoas solitárias em nosso processo de individuação. As paixões nos servem para, projetando nossa própria alma no outro, internalizá-la e integrá-la à nossa personalidade. Aí sim, poderemos compartilhar a vida com o outro, não esperando dele a complementação ideal para a nossa felicidade, mas um caminhar juntos, sem expectativas projetadas no outro.

Não sei se os dois diretores fizeram propositalmente, mas, na minha interpretação, os dois filmes têm esse ponto em comum. O conto de fadas desmascarado. Pretendo assistir ao filme "Deu a louca na Cinderela". Quem sabe esse é mais realista?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

AMOR REAL

Gostar da própria companhia é o primeiro passo para construir relações saudáveis

"Há uma frase de que gosto muito diz: "o casamento dá certo para quem não precisa de casamento". Normalmente, a compulsão de casar e de viver junto nascem de uma dependência. As pessoas esperam um complemento. Essa não é a função de um relacionamento, o outro não vai preencher uma lacuna, mas sim, ajudar a desenvolver o que elas não têm. Infelizmente, a maior parte das pessoas odeia sua própria companhia e vê no outro uma forma de 'salvação'."

Leia artigo completo de
Roberto Shinyashiki

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Fandango no Céu


Hoje tem fandango no céu!
Prepara o chimarão e vem dançar, o gaiteiro chegou.
Anjinhos, deixem suas harpas,
Venham ouvir a “Vaneirinha do vovô”.
Respeitem os “oito baixo” do Edgar!

Homenagem a Edgar Fagundes, avô de meus filhos!

Ouça a gaita de Edgar Fagundes

Leia artigo de Antonio Augusto Fagundes, publicado no Zero Hora

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS –Uma análise junguiana do filme


MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs, França/ Itália, 2006), filme dirigido por Alain Resnais, parece, à primeira vista, um filme despretencioso sobre o tema da solidão. Mas se atentarmos para os detalhes e as cenas sutilmente sugestivas, vamos descobrir um argumento que trata de um dos mais importantes aspectos de nossa personalidade.

Os personagens apresentados têm suas histórias entrecruzadas. São eles:

- Nicole (Laura Morante) – está noiva de Dan (Lambert Wilson) e procura um apartamento para alugar;
- Thierry (André Dussollier) – corretor de imóveis, irmão de Gaëlle, tenta alugar um apartamento para Nicole e seu noivo, Dan; Thierry trabalha com Charlotte (Sabine Azéma);
- Dan – desempregado, justifica-se de muitas maneiras, mas ao invés de procurar emprego, está sempre no bar onde Lionel (Pierre Arditi) trabalha;
- Lionel – mora e cuida do pai acamado e rabugento;
- Charlote – mostra-se uma pessoa recatada e religiosa, tentando esconder sua forte sensualidade; além de trabalhar na imobiliária, trabalha à noite como enfermeira, cuidando do pai de Lionel;
- Gaëlle (Isabelle Carré) – é irmã de Thierry e procura um namorado pela internet.

Não quero entrar em muitos detalhes, para não tirar o prazer do leitor de assistir à Medos Privados em Lugares Públicos, mas vale ressaltar um aspecto, que pode passar despercebido a muitos dos expectadores, e será objeto de nossa análise.

Vou discorrer sobre a personagem Charlote, que, a meu ver, é a protagonista do filme. Charlote trabalha com Thierry na imobiliária durante o dia e, à noite, como cuidadora do idoso e demente pai de Lionel. A personagem mostra um lado religioso e puritano em seus dois trabalhos. Para Thierry, empresta fitas de vídeo de um programa religioso, que ela mesmo havia gravado, e insiste que ele deveria assisti-lo. Ao cuidar do pai de Lionel, ela suporta todas as rabugices e agressões do idoso. Ao chegar em casa, Lionel sempre a encontra lendo a Bíblia, enquanto o pai, que sempre dera trabalho a todas as outras cuidadoras, dorme tranqüilo.

Acontece que, tal como na vida real, e como todas as pessoas, Charlote não tem apenas esse lado luminoso que apresentava. Todos nós temos o nosso lado sombrio (medos privados), que, quanto mais negado e inconsciente estiver, mais força terá em nossa personalidade e em nosso comportamento (lugares públicos).

Charlote grava, em uma fita de vídeo, o programa religioso por cima da gravação de cenas de extrema sedução. Intencionalmente, para uns, mas na minha análise, descuidadamente, a gravação do programa não cobre totalmente a fita original, deixando aparecer as cenas provocantes, estimulando o desejo de Thierry.

A fita gravada com o programa religioso simboliza a tentativa de esconder os aspectos sombrios de nossa personalidade (medos privados), mostrando nosso lado luminoso, mas que acaba sendo percebido, denunciando a verdadeira natureza de todo ser humano (lugares públicos). A fita simboliza o que muitas vezes tentamos fazer: apresentar somente os nossos aspectos desejáveis e esperados pela sociedade (lugares públicos), tentando esconder os desejos e comportamentos por ela condenáveis (medos privados). Só que, como na vida real, a "gravação" deixou pistas mostrando a verdadeira natureza de Charlote (lugares públicos), uma mulher bonita e sensual. Charlote tenta ocultar seu lado mais bonito e criativo (mas muitas vezes condenado), e só consegue extravasá-lo com um objetivo “nobre”, acalmar um velho doente, preso a uma cama.

O filme retrata o medo de tornar pública nossa verdadeira natureza, de mostrar-nos tal como somos. O tema aparece também em outros personagens que tentam esconder os aspectos de sua personalidade que nem sempre são aceitos pela sociedade. Dan tenta esconder a sua dependência de álcool e as situações dela decorrentes. Thierry assiste, escondido de sua irmã, as fitas que mostram a sensualidade de Charlote. Lionel fala muitas coisas sobre si, mas não consegue falar de sua homossexualidade. Gaëlle tenta esconder o desejo de ser amada e Nicole, sentindo-se culpada por ter rompido com Dan, tenta “fechar a história de forma civilizada”, para não assumir o papel de quem rejeita o outro.

Todos nós tentamos, de alguma forma, pelos nossos MEDOS PRIVADOS, esconder os aspectos de nossa personalidade que não queremos aceitar, mas tal a gravação feita em cima de outro conteúdo, basta um descuido para a verdadeira natureza vir à tona nos LUGARES PÚBLICOS.

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS - Em Brasília, no Embracine CasaPark

sábado, 17 de novembro de 2007

A IGREJA QUE ABRAÇA O INFINITO


No vértice dos 90 graus de seus braços, a Cruz se ergue imponente para o Céu, abraçando a pequena congregação e apontando para o infinito de suas possibilidades. Em perfeita harmonia, as linhas retas e curvas traduzem beleza, flexibilidade e firmeza.

Imponente, não por gemas incrustadas em ouro, mas pela simplicidade de suas formas e detalhes de seu acabamento. O piso branco e fresco de cerâmica nos convida a, descalços, apresentar-nos diante do Criador. O combogó (que lembra a infância inocente de seu projetista), vermelho, na cor do fogo, aquece os corações, e permite passar o vento que acaricia o corpo e refresca também a alma. No andar de cima, a vista que alcança o horizonte, próximo ao lago Paranoá, oferece e nos remete à beleza da Criação.

A madeira em suas cores naturais forma o altar para oferecimento, não do sacrifício, mas do Amor de quem abriu a porta da sua casa, de quem abriu mão de um sonho, de quem acreditou, de quem insistiu, de quem reuniu. Amor de todos os que colocaram cada um dos tijolos do pequeno e singelo templo, símbolo da manifestação da Graça de Deus.

Confesso que fui à consagração do Templo da congregação da Igreja Metodista do Paranoá mais pela proximidade que tenho com seu projetista e construtor. Fiquei encantada com o templo e emocionada com o culto!

Foi um daqueles cultos que me inspiram e tocam: com direito a hinos tradicionais, canto de corais, consagração de ofertas no altar, testemunhos da história da formação da congregação e construção do templo, coroados pela palavra simples e inspirada trazida pelo Bispo.

O aconchego da construção permitiu ao povo reunido a proximidade do abraço, a comunhão informal na simplicidade do amor fraterno. Fiquei tocada, emocionada, com vontade de abraçar a todos.

Minhas lembranças viajaram pela história da Igreja Metodista das quais participei. A igrejinha da 412 sul, a inauguração do templo da Asa Sul, com seu piso retalhado, de cimento vermelhão, feito pelos próprios irmãos. Lembrei-me das histórias da Invasão do IAPI, da construção da Ceilândia e das minhas próprias histórias de infância e mocidade na Igreja Metodista.

A consagração de um templo não é um mero ritual! Mas um ritual e uma manifestação de fé e amor do povo reunido, em que nasce a força propulsora que influencia, encaminha e determina o que há de vir. A congregação da Igreja Metodista no Paranoá não vai “para no A”: Ela irá muito além. Tal qual os braços de sua cruz, a Igreja abraça o infinito!

Minha homenagem a todos os que colocaram cada um dos tijolos de amor nesse projeto, mas, especialmente, permitam-me, ao Carlinhos, meu Baby, meu irmão, que trocou o sonho de trocar de carro, pelo sonho de construir uma Igreja!

sábado, 10 de novembro de 2007

QUEM NÃO SE COMUNICA....

E nosso fórum???

Para o analista, não só o que se diz tem um significado. O silêncio às vezes fala mais alto. O silêncio denuncia o assunto que é difícil de falar. E quais foram os temas que caíram no vazio? Que ficaram sem respostas?

"O que vocês acham da colocação da Nélia? É comum acontecer esse afastamento, essa dificuldade de manifestar o afeto por palavras e por carinhos físicos? Por que será que isso acontece? Como fazer para reverter essa situação? É necessário dizer mesmo ‘eu te amo’? Só demonstrar o amor já não basta? Alguém tem alguma experiência nesse sentido para compartilhar?" (postado em 05/11/2007)

"Alguns assuntos passam a ser ‘proibidos’ de se falar. Quando o casal percebe, já existe uma grande distância entre os dois. Fica difícil conversar porque ‘nem tudo pode ser conversado’. O que vocês acham? Concordam com esse meu comentário?" (postado em 01/11/2007)

"O que vocês acham da proposta da Amparo? Concordam com a Tania, que talvez possa ser um sonho? Esse tipo de relação que ainda não consegue ser definida (paradoxalmente, não daria para defini-la, pois, se for definida, deixa de ser a proposta original), já tem sido tentada e praticada? Será que a Amparo ‘escorregou maionese’, como ela pergunta? Ou a proposta já não é tão nova assim? Será que daria certo? Quem já teve ou tem esse tipo de experiência?" (postado em 1º/11/2007)

"Já tivemos comentários sobre finanças, educação de filhos, organização da casa, gerenciamento de serviços, harmonia do casal. E a sexualidade? Para estimular a discussão, fica a sugestão sobre o ‘problema da toalha molhada’: deixar a toalha no banheiro... pode ser bastante estimulante... (ou não!). O que você acha?" (postado em 31/10/2007)


Resumindo, os temas que caíram no silêncio:

- Sexualidade;
- Desinibição;
- Conversa franca e aberta;
- Outras formas de amor;
- Manifestação do afeto, por palavras e carícias físicas.

O Fórum apenas retrata o que acontece na vida real. Não nas "novelas das oito", nas quais se espelha um mundo onde se conversa sobre tudo, sem inibição, e outras formas de amor acontecem com naturalidade. Ou como no seriado que vem antes da "novela das seis", onde os pais e professores são liberais, conversam sobre todos os assuntos com seus filhos. Parece que o Fórum está mais para a "novela das seis", para romances "de época". Época em que havia recato.

Em nosso Fórum, pude constatar o que observo todos os dias no consultório, que existe dificuldade de se falar da sexualidade, mesmo que já não se considere um tabu. Que há bloqueios que impedem a manifestação do afeto, por palavras, o toque físico, o "olho no olho".

A ausência de comunicação tem sido a maior chaga dos relacionamentos. Não falamos o que sentimos, o que queremos, o que achamos que poderia ser diferente. É comum achar que o "outro já sabe", ou que "deveria saber", tanto pelo lado positivo, como pelo lado negativo. "Ele deve saber que o amo, pois faço com carinho"; ou “ela deve saber que a amo, pois trabalho tanto para que nada falte em casa"; ou ainda, "ele/ela devia ter desconfiado que não gostei, pela cara que fiz...".

Dessa forma, cria-se um ciclo, que vai se transformando num emaranhado de fios embaraçados, difícil de saber onde está a ponta. E quando achamos a ponta dos fios embaraçados, se puxarmos sem o devido cuidado, o emaranhado de fios embaraça-se ainda mais. Como sair "dessa"?

A "solução caseira" é a metacomunicação. Significa comunicar sobre a comunicação. Ou seja, distanciar-se da emoção gerada, para falar de forma franca e aberta sobre o que está acontecendo. Sobre a forma como o casal está se relacionando, ou seja, como está se comunicando. Essa proposta foi popularizada com a expressão "discutir a relação". Não gosto muito do termo, pois a palavra "discutir" nos remete a "continuar brigando". Talvez seja por isso que a prática seja evitada.

Há casais, quando a situação ainda não está muito comprometida, que possuem vínculos fortes e saudáveis e conseguem estabelecer esse diálogo. Mas há casos onde é necessária a ajuda profissional, através da terapia familiar ou do casal. A terapia familiar e a terapia de casal são diferentes da terapia pessoal. Nas primeiras trabalha-se diretamente a comunicação entre as pessoas. Na terapia pessoal, que pode ser feita individualmente, ou participando de um grupo de terapia (os problemas geralmente são parecidos), trabalham-se os conteúdos internos de cada um, que podem estar dificultando a prática da comunicação do casal. A terapia em grupo, nesses casos de relacionamento interpessoal, é muito eficaz, pois propicia a oportunidade da prática de comunicação. Pessoas que possuem dificuldade de falar sobre sentimentos e intimidades com seus parceiros, têm, no grupo de terapia, oportunidade de praticar a comunicação transparente e verdadeira, incorporando essa prática em todas as esferas de sua vida.

Mas, infelizmente, ainda existe muita resistência em se procurar ajuda profissional nessa área. Como uma doença sorrateira, se o diagnóstico não for feito a tempo e a ajuda terapêutica não for procurada, a solução pode ser buscar outro tipo de profissional: o advogado!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O CÉU DE MUITAS CORES – Reflexões sobre o filme “Vermelho como o Céu”

Sábado assisti “Vermelho como o céu”, do cineasta italiano Cristiano Bortone. O filme é de tal beleza, que nos emociona e nos dá a oportunidade de colocar o choro em dia. Para mim o cinema é um espaço terapêutico. Por isso sempre recomendo filmes específicos para ajudar na elaboração de alguns conteúdos que estão sendo trabalhados em terapia. É como se fosse um remédio, já que, não sendo médica, não os prescrevo. Dessa forma, por exemplo, para “as mulheres que amam demais”, eu receitaria “O Passado”. Não julguem, os mais acadêmicos, que seria uma terapia de pouco embasamento. No psicodrama, uma das técnicas mais eficazes é o “espelho”. Na dramatização das cenas, olhar-se “de fora”, com o “eu observador”, e isso tem um efeito catalisador: é um momento de importantes insights e percepções sobre si mesmo.

A película conta a história de Mirco Mencacci, que, desde criança, adorava cinema. Mas aos dez anos um acidente tira sua visão e, para dar continuidade à sua educação, seus pais foram obrigados a encaminhá-lo para uma instituição especializada na educação de portadores de deficiência visual. Naquele tempo eram chamados de “CEGOS”. Mas o filme nos mostra que cegos são alguns dos personagens retratados. Apesar de a história ter se passado na década de 70, e os acontecimentos retratados no filme terem contribuído para a mudança na forma de conduzir a educação de portadores de necessidades especiais, ainda nos entristece presenciar atitudes desta natureza: a discriminação da diferença do outro e a auto discriminação por ser diferente. Felizmente, na história de Mirco Mencacci existiu um educador sensível e consciente que assumiu corajosamente os riscos de enfrentar a estrutura vigente, dando oportunidade para as crianças daquela escola desenvolverem plenamente seus potenciais. Mirco Mencacci, adulto, tornou-se músico, compositor e um reconhecido editor de som do cinema italiano.

O filme é rico em personagens interessantes, do ponto de vista de análises do comportamento humano. Por isso, no meu “bulário”, ele teria diversas indicações, como, por exemplo: segurança doméstica, rigidez de pensamento, preconceitos, educação de filhos, desenvolvimento do próprio potencial, desenvolvimento da sensibilidade, trabalho em equipe, resistência a mudanças, auto-estima, a força do coletivo etc. Hoje desejo ressaltar o aspecto da permissão ao desenvolvimento do potencial.

O diretor da escola especializada para portadores de deficiência visual, ao receber Mirco como aluno da escola, falava orgulhosamente da profissionalização oferecida pela escola àqueles meninos “cegos”. Orgulhava-se da possibilidade de fazê-los excelentes telefonistas e tecelões. Essa era a visão limitada daquele diretor, igualmente portador de deficiência visual.

Observando a cena, nossa primeira reação é criticá-lo pela visão limitada. A clientela daquela escola teria, em nossa opinião, muitas outras possibilidades de inserção no mercado de trabalho, como hoje acontece, e a própria história de Mirco Mencacci comprovou.

Mas, trazendo para a nossa realidade: também não fazemos assim com nossos filhos? Em Brasília, principalmente, como existem inúmeras oportunidades de inserção no serviço público, é atitude comum aos pais direcionarem a carreira profissional dos filhos para algum concurso público. Não importa qual: “o importante é passar em concurso”. Entristeço-me com essa tendência. As insatisfações e as doenças geradas pelo stress de trabalhar naquilo para o que não se tem vocação acabam desaguando na clínica psicológica.

Considero nobre a vocação de colocar-se a serviço da sociedade, trabalhando no serviço público. Mas é importante que exista consciência do valor do trabalho e do diferencial que ele acrescenta à sociedade. O problema não é o Serviço Público, a questão é “por que estou no Serviço Público?”, “identifico-me com a atividade que exerço?”.

Há, também, aqueles que preferem a segurança de uma colocação no Serviço Público, visando garantir certa segurança financeira para dedicar-se a outro tipo de realização, seja artística, filantrópica, ou mesmo durante o tempo que se preparam para alçar vôo em profissões que exigem maior investimento em tempo, estudo e finanças. Essa atitude é compreensível, realista e saudável, já que garante a realização da vocação.

A psicologia do trabalho há muito tem estudado a relação Trabalho e Saúde Mental. Dejours¹, pesquisador francês, estudou o prejuízo do trabalho taylorizado na saúde bio-psico-social. No Brasil, pesquisadores também se dedicam ao assunto. Codo² traz a noção de “trabalho vazio”, referindo-se ao trabalho dos bancários, pois não existe a percepção do resultado de seu trabalho.

Lembro-me da grande lição que me ensinou meu filho, hoje adulto e profissional realizado, quando criança. Ele desejava ser cientista. Era década de 80 e vivíamos a realidade de amigos que abandonavam a pesquisa científica, após longo investimento acadêmico, por falta de investimentos governamentais nessa área. Cuidadosa e preocupada com o seu futuro, expliquei-lhe que não era uma área muito valorizada no Brasil, o que poderia acarretar sacrifícios financeiros, ao que ele respondeu-me: “quem disse que precisa ser no Brasil?”. Não cabe aos pais determinarem o que seja, onde seja e como seja. Ouvir, perceber, ajudar o jovem a descobrir e desenvolver sua vocação, é diferente de direcionar a partir da projeção de nossos próprios desejos, medos e frustrações.

O diretor da Escola de Mirco Mencacci subestimava o potencial daqueles meninos, restringindo-os à apenas sua limitada visão, influenciada pelo seu próprio autopreconceito. Mirco lutou e provou que o potencial dele e de todas as pessoas é inesgotável. Mas é preciso acreditar e dar espaço para que ele se realize.

Se perguntarmos qual a cor do céu, a maioria das pessoas vai responder que é azul. Para Mirco Mencacci, o céu era de várias cores, inclusive vermelho, ao pôr-do-sol.




[1] DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho. Cortez, 2003.

[2] CODO, Wanderley/JACQUES, Maria da Graça Correa. Saúde Mental

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Fórum – Novo Comentário. Vamos participar!

Após o feriado prolongado, vamos continuar nosso fórum, que já não é só sobre “pré-casamento”. Ele já se ampliou, abrangendo formas alternativas de relacionamento.

Nelia, a leitora que inicialmente sugeriu o fórum, disse...
“Outro dia ouvi, em um programa de TV, de um casal com problemas com filhos, que eles não sabiam elogiar os filhos e nem mesmo um ao outro. A princípio fiquei ‘chocada’, mas depois refleti sobre a situação e cheguei à conclusão de que um dos contratos mais difíceis de serem perenes em um casamento é o emocional. Com o decorrer do tempo, com a rotina do dia-a-dia, nos afastamos de afagos básicos e, se não cuidarmos, com o tempo passamos a crer que não é necessário verbalizar o amor que sentimos com os filhos e com o companheiro... Com os filhos, ainda crianças, são abundantes os carinhos físicos e verbais, já na adolescência, por vezes os filhos rejeitam e, se não ficamos atentos, passa a fase "rebelde" e o afastamento é quase inevitável. Acho importante praticarmos, diariamente, o "eu te amo", mesmo sendo considerado piegas.”
1º de novembro de 2007 10h57


Obrigada, Nélia, por mais esta contribuição!

O que vocês acham da colocação da Nélia? É comum acontecer esse afastamento, essa dificuldade de manifestar o afeto por palavras e por carinhos físicos? Por que será que isso acontece? Como fazer para reverter essa situação? É necessário dizer mesmo “eu te amo”? Só demonstrar o amor já não basta? Alguém tem alguma experiência nesse sentido para compartilhar?

Estou publicando também mais um texto, “O passado mais que presente”, com análises inspiradas no filme “O Passado”, de Hector Babenco. Acredito que o filme nos traz também vários aspectos para refletirmos sobre a relação de casamento.

Enviem seus comentários. Sua participação é importante. Se preferir, para ficar mais à vontade, não é necessário se identificar.

O PASSADO MAIS QUE PRESENTE

O filme “O Passado” estreou na semana passada e já tem sido motivo de várias análises de críticos de cinema e, tratando-se de um conflito típico das relações afetivas contemporâneas, também tem sido objeto de análise de estudiosos do comportamento humano.
Segundo a Folha Ilustrada ,
“O Passado, novo filme do cineasta Hector Babenco, baseia-se no romance homônimo do escritor argentino Alan Pauls (Cosac Naify) e também numa certeza do diretor: ‘Quem manda na relação é a mulher. Por mais que o homem seja agressivo nos negócios, por mais que ele seja autodeterminado nas atitudes empresariais e comportamentais, o vetor da relação é a mulher’.”

E a crítica da Folha continua: “No caso de ‘O Passado’, a mulher continua mandando, mesmo após o fim da relação. Sofía (Analía Couceyro) não desiste de ter um papel na vida de Rímini (Gael García Bernal), com quem viveu um romance de 12 anos, ainda que ele se case pela segunda ou terceira vez”.


Assisti ao filme na semana passada. É desses filmes que “ficam”! Passei a semana refletindo sobre ele, fazendo anotações, elaborando aos poucos este texto. Sugiro que os leitores assistam ao filme, antes de ler minhas análises.
Apresento uma leitura dos riquíssimos simbolismos apresentados na película. Vale lembrar que toda interpretação é subjetiva e influenciada pelas referências pessoais do analista, que, enquanto sujeito, também é objeto da análise de um cotidiano comum a todos nós.

Na minha visão, o filme tem, em seu argumento, mais do que a relação homem-mulher e sua disputa pelo poder de comando dessa relação, ele traça um perfil do poder que o passado exerce no presente da vida das pessoas.

O filme retrata um homem controlado por sua ex-mulher, que o perseguia e influenciava seus relacionamentos posteriores (ou uma mulher controlada pela atitude de indiferença com que era tratada por seu ex-marido?). Rimini tentou seguir a sua vida. Sofia parou sua vida em função da dependência que tinha de Rimini. Na leitura que faço, perseguindo e infernizando a vida de Rimini, Sofia controlava, mas também era controlada pela doentia paixão que cultivava.

Rimini saiu de casa, mas levou consigo uma única foto de Sofia, num porta-retrato, simbolicamente utilizado para o ritual substituto da ligação simbiótica. Ironicamente, Rimini deixou para trás todas as suas fotos, as de infância e as do casal. Na despedida, Sofia lembrou: "Precisamos separar as fotos".
As fotos de um casal são os registros das alegrias que viveram juntos (ninguém tira fotos de momentos ruins). Nos dias e meses subseqüentes, Sofia lembrou-lhe, em vão: "Você tem uma pendência comigo: precisamos separar as fotos".

No desenrolar da estória, Rimini relaciona-se com mais três mulheres. Com a primeira conectou-se a partir da atração física e da identificação mútua pelo similar momento emocional (ambos acabavam de separar-se). A segunda atraiu-lhe pela afinidade intelectual e a segurança proporcionada (segurança financeira, nascimento do filho, o início da “família”). A terceira, pelo instinto, pelo qual acabou sendo traído (o instinto o leva ao intercurso sexual sem compromisso, mas a falta de compromisso da mulher traz à tona a raiva instintiva, não somente por aquela mulher, mas ao que ela representava naquele momento em sua vida).

Mas o passado continuou a perseguir Rimini. E a roda da roca das Moiras que tecem os fios do destino, o levou de volta para casa, para finalizar a sua história com Sofia, através do ritual de separação das fotos e de suas histórias.

No entanto, Sofia, que a princípio foi quem propôs o ritual, dele não participou. E após um vingativo ato de “estupro consentido”, Rimini sai de casa e da relação, levando consigo suas fotos e deixando o seu passado para trás.

A história teria terminado para ambos? Na minha opinião, talvez Rimini, tendo entrado em contato com seu lado sombrio, tenha conseguido naquele momento fechar sua história de dependência afetiva de Sofia e de todas as mulheres por ela representada. Quanto a ela, tenho minhas dúvidas. Não assumiu seu lado sombrio e manipulador. A inconsciência dos motivos que perpetuavam a sua obsessão por Rimini, criara a ilusão de que o tinha de volta. Mas foi frustrada em sua expectativa de tê-lo ao seu lado.

De qualquer forma, ambos ficam com a memória dos momentos vividos. Independente da maneira com que essas lembranças determinem e influenciem os relacionamentos posteriores, elas deixam suas marcas na vida de cada um.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

MEUS NOVOS JOVENS AMIGOS

Eu andava meio “carente de amigos”. Estava difícil conseguir me encontrar com eles, com tempo para conversar, bater um papo sem tempo para acabar. Todos sempre muito ocupados, trabalhando muito. O pouco tempo disponível da turma da minha idade é dedicado para encontrar os filhos, na maioria recém-casados.

Quando acontece de nos encontrarmos, o assunto acaba me deixando “pra baixo”... gira em torno da inconformidade com a política, os calores da menopausa, os casamentos desfeitos, os amores não correspondidos, as cirurgias plásticas (e outras novidades estéticas), as grifes e os “carrões”. Isso quando não falam de doenças, exames médicos e tratamentos. O trabalho com o cuidado exigido com os pais idosos, a preocupação com a carreira profissional e a despesa da festa de casamento dos filhos, a vontade de ter netos, o orçamento apertado...

Mas agora está sendo diferente. Resolvi investir na amizade com pessoas mais jovens. Tem um grupo com quem almoço no restaurante natural. É um grupo muito divertido e alegre. Tudo é motivo para riso e piada. Ninguém tem pressa nem horário.

Na igreja também resolvi freqüentar a turma dos mais jovens. É uma delícia ouvir o humor inteligente e refinado do nosso jovem professor, que incentiva a participação de todos nas acaloradas discussões sobre os mais diversos assuntos que permeiam a espiritualidade.

E, recentemente, estou me aproximando do grupo de colegas da UnB. Sábado encontrei duas delas no cinema. Depois do filme, tomamos um café, acompanhado de uma conversa gostosa e divertida. Parecia que já nos conhecíamos há anos. Outro dia, na aula, uma delas me convidou para jantar na sua casa. Convites de última hora são atitudes de jovens.

A reunião foi ótima! Não vi o tempo passar. Rapidamente me senti incluída no grupo. Os assuntos giravam em torno de festas, viagens, saídas para dançar, esportes praticados etc. Tudo “alto astral”! Havia um casal que estava comemorando o quarto ano de casamento e uma jovem que contava as peripécias de sua última festa de aniversário. Pena que eu não fui, pois ainda não era tão próxima desse grupo. Mas ela promete que a próxima festa, daqui a dois anos, vai ser melhor ainda. Essa eu não falto por nada... ela vai completar 90 anos.

O grupo de “colegas da UnB” fazem parte do GEPAFI (Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos). O grupo do almoço tem idade de 13 a 7... (sabe que nem sei?). E o grupo da igreja vai dos vinte e poucos até oitenta e alguma coisa. O “jovem professor”, apesar de aparentar bem menos, já passou dos 70 anos.


A grande lição que tenho aprendido com meus novos amigos, é que ser jovem não tem nada a ver com idade cronológica. Ser jovem é ter espírito jovem. E para saber sentir-se sempre jovem é preciso ter a sabedoria que se adquire com o passar dos anos... ou... aprender com quem já passou por eles.

Queridos amigos da minha idade, por favor, não se sintam rejeitados. Vocês moram no meu coração! Vamos aprender a ser jovens também!


GEPAFI
As atividades dos Programas de Atividade Física para Idosos (A PARTIR DOS 50 ANOS)
Musculação de Segunda a Sexta de 08h00 ás 10h00
Dança de Salão Segundas e Quartas de 10h00 ás 11h00
Ioga Terças e Quintas de 10h00 ás 11h00
Tai Chi Chuan Terças e Quintas de 08h00 ás 09h00
Funciona no Centro Olímpico da UnB
Telefone de contato: 3307-2698 Ramal: 261 Pela manhã
Participe!

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

E o nosso fórum continua....

Nosso "Fórum Pré-casamento" continua e o tema já está sendo ampliado para discutir outras formas de "casamento".

Cláudia Ziller Faria disse...

"Meu pai, como o da Neca, me deu um conselho sábio na hora de sairmos para a Igreja. 'Nunca discuta enquanto estiver com raiva. Espere a raiva passar para conversar, porque muitas vezes dizemos coisas na hora da raiva. Coisas que ferem demais, não deveriam ser ditas. As palavras ditas não são retiradas. Permanecem para sempre. Pode haver perdão, mas a lembrança continua.' Conselho que sigo até hoje e tem dado muito certo."

31 de outubro de 2007 18h22


Parabéns ao pai da Cláudia, pela preocupação em aconselhar a filha! Sábio conselho! Mas, atenção ao detalhe: "Espere a raiva passar para conversar", é diferente de deixar de falar aquilo que precisa ser dito (mesmo que seja em um outro momento). A base da comunicação profunda e verdadeira implica falar o que pensamos e sentimos. Se há discordância e desconforto na convivência, é importante que o casal converse com calma sobre o assunto. O comportamento de "tentar esquecer" ou "deixar para lá", pode acumular pendências e mágoas que contaminam o relacionamento. Ao invés de unir, esta atitude afasta as pessoas. Alguns assuntos passam a ser "proibidos" de se falar. Quando o casal percebe, já existe uma grande distância entre os dois. Fica difícil conversar porque "nem tudo pode ser conversado". O que vocês acham? Concordam com esse meu comentário?

O outro comentário é da Amparo, uma interessante proposta menos tradicional de relacionamento.


Amparo disse...

"Muito interessante tudo que foi dito até agora. Mas, como estou ficando cada dia mais ousada, e assim, irreverente talvez, ouso dizer que os tempos já nos permitem pensar em um tipo de 'não contrato de amor'. O que seria isso? Amor livre? Não! 'Não amar'? Não! Não apostar? Não! 'Não compromisso'? Não! Não confiar? Não!
Para mim, o 'não contrato de amor', é um conceito que me ocorreu agora, e que, sem sombra de dúvida, pode ser reformulado, pois o que conta é a idéia, que venho amadurecendo há algum tempo. Pois bem, o 'não contrato de amor' seria uma espécie de esforço mútuo para manter um 'encontro' de amor. Aquele Encontro de Moreno, sabe? Onde as pessoas tivessem o prazer de 'uma enxergar o outro com os olhos do outro', e vice-versa. Não é aceitar de qualquer jeito, pois a gente não se aceita de qualquer jeito... mas no fundo, somos bastante ponderados com a gente mesmo. Ponderação! Deu para entender? E para isso não haveria a necessidade de morar na mesma casa, nem dividir despesas ou bens materiais. A missão maior do casal seria se esforçar em compartilhar e alimentar continuamente a relação de amor, com amor, de forma a estender o prazer dessa união pelo maior tempo possível, e, se possível, pela vida inteira. E nessa relação, ingredientes indispensáveis, seriam, além da ponderação, o respeito mútuo e a cumplicidade. Há outros ingredientes que podem variar de acordo com a receita de cada casal, não se esquecendo nunca de acrescentar uns temperinhos mais picantes também. Eu ainda não consegui, mas entendam... estou evoluindo.Viajei? Escorreguei na maionese?
Beijo."

31 de outubro de 2007 19h17



Tania disse...
“Querida Dulcinea, o fórum está ótimo. Parabéns!
Gostei do comentário da Amparo. Sonho? Talvez.
1 de novembro de 2007 08h07


Parabéns, Amparo, pela ousadia! Obrigada, também querida Tania!

O que vocês acham da proposta da Amparo? Concordam com a Tania, que talvez possa ser um sonho? Esse tipo de relação que ainda não consegue ser definida (paradoxalmente, não daria para defini-la, pois, se for definida, deixa de ser a proposta original), já tem sido tentada e praticada? Será que a Amparo "escorregou maionese", como ela pergunta? Ou a proposta já não é tão nova assim? Será que daria certo? Quem já teve ou tem esse tipo de experiência?


Participem contando suas experiências, expondo suas dúvidas, suas concordâncias e discordâncias. Lembro que não é necessário identificar-se. Basta postar seu comentário como "Anônimo". Ou, se preferir, para facilitar a continuidade de sua participação, você pode usar um pseudônimo. O importante para a nossa proposta é que as participações possam expressar o real sentimento e o pensamento de cada um.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O "Fórum Pré-casamento" está esquentando....

Parece que a idéia do "Fórum pré-casamento" agradou. Já temos três comentários bem interessantes. Participe também!
Anônimo disse...

"Idéia interessante!!!
Bom, acho que o contrato deveria começar a estabelecer como deve funcionar as finanças do casal. Quem paga o quê e por quê.
Outra coisa importante: Educação dos filhos! Regras básicas que devem ser acordadas.
Um ponto fundamental: Quem reclama com a empregada! (se tiver a sorte de ter uma)".


30 de outubro de 2007 10h03


Participe opinando sobre esse primeiro comentário. Em sua opinião, é importante definir divisão de responsabilidade financeira? E o gerenciamento da prestação de serviços de terceiros? De quem seria a responsabilidade?

Neca disse...

"No dia do meu casamento, meu pai me chamou, com a Bíblia nas mãos e leu para mim a parábola da pérola de grande preço. É aquela onde Jesus diz que o Reino dos Céus é semelhante a um comerciante de pedras preciosas que encontra uma pérola de grande preço e vende tudo o que tem para comprá-la. Meu pai usou a parábola para dizer que, num casamento, devemos ter sempre em mente nossas prioridades. Lembro até hoje dele falando: "O que é mais importante, a toalha molhada em cima da cama ou viver em paz com o teu marido? Sempre que for possível, escolhe a paz. Poucas coisas valem uma briga, busca a pérola de grande preço e desiste das pedrinhas que, embora tenham valor, valem menos que a pérola".
Em matéria de contrato prévio, acho que realmente é um bom conselho para noivos e noivas, tenho certeza que meu pai e minha mãe viviam assim, os dois em busca da pérola de grande preço, que era viver em paz, apesar das diferenças.
Abraços,"


30 de outubro de 2007 15h11


E sobre a "pérola" de contribuição da Neca? O que você acha? O que estaria por trás das constantes reclamações comuns na vida de um casal?

Anônimo disse...

"Contrato de Ordenação de Bagunça.
Acredito que todos têm necessidade de uma certa bagunça. Coisas certinhas de mais são tensas. Mas como fazer com que a sua bagunça não incomode o outro e vice-versa? Parece impossível! A gente já é criado assim, com a mãe mandando arrumar o quarto, não deixar coisas jogadas na sala etc. No casamento sempre tem reclamações de bagunça: toalha, tampa de vaso, roupa suja fora do cesto etc. Toda casa tem seu jeito e suas regras sobre isso, então podia estar no contrato de casamento também. Mas é preciso refletir sobre os próprios costumes antes de criar regras a partir do padrão. Lá em casa, por exemplo, temos um certo acordo sobre isso. Não gostamos de reprimir nossos instintos de bagunça, mas conseguimos colocar uma certa ordem. A gente chega cansado e não tem a mínima vontade de guardar tudo no lugar bonitinho. A solução foi criar lugares de jogar as coisas. Colocamos um porta-chapéu logo na entrada para pendurar, bolsa, casaco e o que estiver na mão. Foi determinado que não haveria objetos em cima da cômoda pois esse é o lugar de tacar roupas que estamos com preguiça de colocar no armário. A primeira gaveta desta cômoda virou o cesto de roupa suja. Aí fica fácil: se for usar a roupa de novo, é só jogar em cima da cômoda, se não for usar, basta abrir a gaveta antes de jogar. Assim, não reprimimos nosso instinto de jogar as coisas e mantemos a casa em ordem."


30 de outubro de 2007 23h31


De forma criativa e flexível, esse casal resolveu o problema de arrumação da casa! Deixando o padrão de suas famílias de origem, criou o seu próprio jeito de viver em harmonia. Parabéns!

Meus comentários:

O primeiro comentário anônimo retrata a preocupação com três aspectos importantes. O aspecto financeiro reflete a disputa de poder na relação do casal e influencia diretamente a qualidade de vida da família. A administração de prestadores de serviços é outro aspecto que, se não for bem definido e delimitado, também interfere na vida de toda a família. É uma pessoa que está muito próxima (dentro de sua casa), troca afetos com a família, mas possui um vínculo empregatício. Grande desafio! E a questão da educação dos filhos reflete a qualidade do relacionamento do casal, influenciando o comportamento e desenvolvimento da criança em todos os seus aspectos.

Parabéns ao pai da Neca! Não tem sido tão comum o pai aconselhar a filha no dia do casamento. Um exemplo a ser seguido aos pais que ainda tem filhas solteiras (ou que já se casaram, pois sempre é tempo para aconselhar). O exemplo também pode ser estendido às mães para aconselharem seus filhos. É importante essa troca, pois é o olhar masculino para a mulher e o olhar feminino para o homem.

O terceiro comentário também cita a influência da família na formação, mas retrata um repensar do modelo vivido. Nem sempre o modelo dos pais é o ideal para o novo casal. Aprendemos com a experiência do outro, na medida em que temos a liberdade de optar. O conselho é dado, o modelo é apresentado, mas a análise crítica na visão dos filhos é que vai determinar sua opção de seguir ou não o caminho apresentado. Em outras palavras, é necessário ter coerência entre o que se faz e o que se fala.

Já tivemos comentários sobre finanças, educação de filhos, organização da casa, gerenciamento de serviços, harmonia do casal. E a sexualidade? Para estimular a discussão, fica a sugestão sobre o "problema da toalha molhada": deixar a toalha no banheiro... pode ser bastante estimulante... (ou não!). O que você acha?

Compartilhem também suas idéias e experiências!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Fórum sobre "pré-casamento"

No artigo "Antes prevenir do que remediar", a leitora Nélia registrou o seguinte comentário:

"Nelia disse...

Muito bom, e no decorrer da leitura pensei, pq vc não cria fórum pré-casamento (seja ele formal ou não)?? Pois aqueles conduzidos pelas instituições religiosas acabam contaminados pelas crenças e, neste espaço, isento, seriam debatidos os vários contratos que permeiam um casamento: emocional, físico, financeiro, social, etc...
Acho que seria extremamente útil a todos. Não discorrerei aqui as várias motivações que fazem pensar assim... mas deixo aqui a proposta."


Gostei da idéia! Obrigada, Nélia, pela sugestão!

ESTÁ CRIADO O FÓRUM!

Todos podem participar, escrevendo seus comentários nesta postagem. Basta clicar abaixo em "COMENTÁRIOS" e registrar. Se preferir, não é necessário se identificar. Basta marcar como "Anônimo".

A partir de suas experiências, felizes ou não, participem com sugestões!Quais são os ítens que deveriam constar nesse "Contrato de casamento"?

Aqueles que encontrarem dificuldade para fazer a postagem, podem enviar seu comentário para o meu e-mail dcassis@gmail.com.

sábado, 27 de outubro de 2007

"QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA..."

Rejeitados! Era assim que ambos sentiam-se após seu último contato. Ainda se gostavam. Mas separaram-se após calorosa discussão. Para um, não houvera motivo para aquele brusco rompimento. Para outro, fora a gota d'água, que rompeu o dique de uma longa espera. O marco final da expectativa (sempre verbalizada), de que o relacionamento se transformasse numa convivência de troca. Não só prazeres físicos, não só saídas e "ficadas", mas um compromisso mútuo de cúmplice convivência. A certeza de que, independente de qualquer situação, o outro estaria sempre lá. Independente de dias bons, mas, principalmente, estar juntos nos dias não tão bons. Tal qual o rito da união consagrada, "na felicidade ou na desventura, na riqueza ou na pobreza, enfermo e com saúde".

Para um, restava a impressão de que havia doado muito mais do que recebera. Para outro, a impressão era a de que doara mais do que conseguira, mas recebera menos do que gostaria. Para um, fora um casamento incompleto, para outro, um namoro aperfeiçoado. No calor da discussão, a verdade: "Eu sou completamente livre e você é completamente livre!". Fora o suficiente para entender que aqueles anos que passaram juntos não tiveram a importância e o compromisso que justificassem o investimento feito, não só de tempo, porém, de vida, de uma preciosa vida, que se escoava rapidamente.

Nos dias subseqüentes, em vão esperou-se um telefonema, um e-mail. Deixando o orgulho de lado, houvera uma tentativa de contato. Mas o outro se mantinha firme no propósito de afastar-se. Os dias passavam, arrastando-se na esperança frustrada de um reencontro. Mas não haveria retorno. Tal qual a morte física do ser amado, era difícil acreditar. Guardava-se a esperança de um repensar. Mas nada mais havia a fazer.

Há pessoas que se afastam pela violência física e há aqueles que rompem no limite da violência psicológica de mensagens paradoxais.

E se você, leitor(a), ao ler este texto, imaginou-se exposto pela revelação da íntima e sigilosa escuta terapêutica, saiba que esta não é apenas a sua história, mas é um exemplo comum das dificuldades do relacionamento interpessoal.


Propositalmente não utilizei pronomes no texto, com o objetivo consciente de confundir os personagens. Discussões dessa natureza se perdem nas mútuas projeções. Ao invés de perceber as próprias falhas e dificuldades, é mais fácil projetá-las e percebê-las como sendo do outro. Esse mecanismo é inconsciente. É uma das principais barreiras nas relações interpessoais.

É difícil admitir as próprias dificuldades. Desde cedo nos é incutido que dificuldades são defeitos. E defeitos, ninguém os quer. Defeito lembra algo “feio” (as palavras até se parecem). Prefiro usar o termo dificuldade. Defeito parece algo impossível de consertar. Utilizamos o termo, por exemplo, a respeito de objetos que compramos “com defeito” e queremos devolver.

Dificuldade, ao contrário, é um termo que remete a desafio, à possibilidade de crescimento, à opção de transformá-la em virtude. Visto dessa forma, é mais fácil aceitar que todas as pessoas estão “incompletas”, com a possibilidade de investirem em um processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal.

Admitir que todos possuem dificuldades não significa aceitar-se, e ao outro, “do jeito que se é”. É comum ouvir: “Eu sou assim mesmo!”, ou “Você já me conheceu assim”, ou ainda: “Você não tem jeito, mesmo”. Atitudes rígidas e rotuladas levam à cristalização de comportamentos indesejados e destrutivos das relações interpessoais. Ao contrário, a flexibilidade, a disponibilidade de ouvir, a auto-análise e a disposição para a mudança, são ferramentas essenciais para uma convivência agradável e de crescimento para todos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

“ANTES PREVENIR DO QUE REMEDIAR”

Recordo-me do tempo em que eu ainda assistia às novelas, particularmente de uma delas, intitulada "O Clone". Não me lembro bem do enredo, mas houve uma cena que me chamou a atenção. Uma personagem, interpretada pela Letícia Sabatela, casada nos costumes árabes, no meio de uma discussão lembrou ao marido: “Você precisa contratar uma empregada. No contrato de casamento estava escrito que teria uma empregada...”.

Achei fantástico! Como nós, mulheres ocidentais, estudadas, "evoluídas", conquistamos tantos espaços, mas nunca pensamos nisso? Estabelecemos nossos relacionamentos na base "do que achamos que o outro acha", no que já é convencional, e que "sempre é assim". Dessa forma, criam-se expectativas unilaterais não correspondidas. Envolvidos e embriagados pela paixão romântica, casais estabelecem laços irreais, utópicos, esquecendo-se de que no dia-a-dia existem tarefas para serem compartilhadas, ritmos de trabalho diferentes, dias em que “um está afim e o outro não”. Parecem pequenos detalhes, mas que, juntos, transformam-se numa grande barreira para o relacionamento do casal.

Fiquei imaginando, ao assistir àquele capítulo da novela, o que mais constaria daquele "Contrato". Como exercício, pensemos que o casal poderia detalhar alguns aspectos, tais como: estilo de moradia, divisão de tarefas caseiras, orçamento financeiro, organização da casa, compromisso de lazer em conjunto, liberdade de lazer em separado, estilos e preferências nas refeições e, finalmente, os concernentes ao sexo (quais as preferências e os limites?).

Pode parecer desnecessário, absurdo e até ridículo pensar dessa forma. Esse é apenas um exercício e não, necessariamente, ele precisaria ser “escrito, assinado e passado em cartório”. Também não há necessidade, nem deveria ser algo fechado. O segredo do planejamento é estar sempre sendo redirecionado e adaptado à realidade, através da comunicação franca e aberta.

Pode não parecer, mas pequenos detalhes são queixas freqüentes no consultório psicológico. Elas vão se acumulando, transformando-se em grandes problemas de relacionamento do casal. Passa a ser tabu conversar sobre determinados assuntos, interpretados como cobrança, como rejeição, como incompreensão... e por aí vai, complicando um relacionamento que começara tão romântico!

Cada qual cresceu numa família com seus costumes, seu jeito de ser, onde era natural que as coisas acontecessem de uma determinada forma. Cada um separa-se de sua família de origem com costumes arraigados e com o pensamento de que "esse é o jeito certo de ser". O problema é que "o jeito certo de ser" de uma família nem sempre é o "jeito certo de ser" de outra família. Dessa forma, ao formar uma nova família, não existe ainda nenhum "jeito certo de ser", ele terá que ser criado, inventado, adaptado à nova fase de vida, adaptado a um mundo em constantes mudanças, com (e sempre cada vez mais), exigências competitivas no campo profissional.

Um dos maiores vícios da comunicação é antecipar-se ao pensamento do outro. Ou seja, antes de se confirmar, já se tem por certa a opinião do outro. Esse, talvez, mais do que vício, seja um dos piores vírus da comunicação e do relacionamento. Chega sorrateiro, invade os espaços, contaminando e fazendo adoecer o relacionamento interpessoal. Mais fácil é prevenir do que remediar!

domingo, 21 de outubro de 2007

E O FLAMBOYANT FLORESCEU...



“A arvore que você plantou floriu pela primeira vez.”

Recebi o recado de um velho amigo, ex-vizinho. Eu nem me lembrava mais de que um dia plantara uma árvore por lá... Recordando, lembrei-me de algumas, a maioria era frutífera. Plantei duas jabuticabeiras, algumas mangueiras, laranjeiras, limoeiros. Vendi uma parte da chácara e a outra, sem nenhuma construção, deixei por lá...

Alguns dias antes, o mesmo vizinho me ligara, avisando que aquele pedaço de terra recebera uma visita: o fogo. O tempo estava seco, ele veio sorrateiro. Os vizinhos nada puderam fazer, a não ser salvar o seu próprio quinhão. Era uma terra abandonada. Quando menos se esperava, uma árvore, um Flamboyant, plantado há tantos anos, que nunca florira, amanheceu um dia todo em flor. Diante da terra queimada pelo fogo, após a primeira chuva da primavera (tal a fênix que renasce das cinzas), o Flamboyant floresceu. Cheio de flores, alegrou o vizinho, alegrou a todos os que por ali passavam.


Fui lá conferir. No caminho, lembrava-me do tempo em que iniciei aquele projeto. Seria uma "Pousada terapêutica". Um local onde as pessoas angustiadas, deprimidas e desiludidas, poderiam dar um tempo às suas vidas, um tempo para se recomporem. O projeto era nobre, mas construído de sonhos e ideais. Quando cai na realidade da dificuldade de operacionalizar um projeto de tal envergadura, desanimei e acabei desistindo. Desisti, sim, do projeto de construção literal de um espaço de acolhimento, de continência terapêutica. Por um tempo fiquei triste. Mesmo assim, plantei árvores! Por um tempo tentei vender a chácara. Até hoje não consegui... Mudei de caminhos, mas não de objetivos. E o Flamboyant florido me trouxe a resposta.


Eu o plantei na terra. Nunca mais tive dele notícia. Veio o fogo, veio o vento, veio a água. E um dia ele floriu. A vida tem trazido ao meu encontro pessoas angustiadas, deprimidas, desiludidas, tal as que eu queria alcançar inicialmente com o projeto da Pousada terapêutica. As pessoas chegam. Às vezes ficam algum tempo. Às vezes só por pouco tempo. Uma semente é lançada, uma muda é plantada. Colocada na terra, a semente já não nos pertence. Ela vai cumprir o seu destino. Vem o fogo da angústia, os ventos dos sonhos e ilusões e a água das lágrimas. Mesmo que não sejamos nós que a reguemos, que dela cuidemos, ela pode encontrar outro "cuidador", ou quem sabe até vingar sem cuidados... Mas a semente foi plantada. Umas vão cair em terra árida, outras na pedra, mas há aquelas que encontram a terra fofa, macia, quente, pronta para aconchegá-las e fazê-las crescer. Não é ao plantador que pertence o fruto. Tampouco ao que dela cuidou. O fruto pertence à própria árvore, e é ela que no tempo certo nos oferece sua sombra, a alegria de suas flores e o alimento de seus frutos. Nem sempre é a nós, semeadores, que compete continuar acompanhando-a. Mas resta a certeza de que em algum lugar por aí devem haver algumas árvores florindo e frutificando.

A lição do Flamboyant florido me faz refletir sobre a necessidade de nos desapegarmos dos resultados de nosso trabalho. A função do trabalho é a transformação da realidade. Ao tempo que colaboro com a transformação do Universo, recebo de volta a transformação de meu universo interno, pela satisfação de saber ser colaboradora de algo maior, indefinível. Transformando fora, transformo dentro... transformando dentro, transformo fora. E assim o ciclo virtuoso roda a roca que tece vidas, que gera amor, soprando o vento do Espírito transformador em cada pessoa, em cada família, nos grupos e em todos os espaços, internos e externos, do Universo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

"Sê espontâneo!"

"Deus é espontaneidade. Daí o mandamento: 'Sê espontâneo'."


Esta frase consta de uma das obras de J. L. Moreno, criador do Psicodrama, "The words of de Father" (As Palavras do Pai). Este livro foi escrito, tal o postulado, título deste artigo, espontaneamente. Num momento de inspiração, Moreno escreveu nas paredes [talvez por falta de algum papel?], uma de suas principais obras.

O tema Espontaneidade, classificado por Moreno como um fator de personalidade – assim como a inteligência e a memória –, permeia e principia a sua principal contribuição para o campo das psicoterapias: o Psicodrama.

O Psicodrama nasceu espontaneamente. Ainda enquanto estudava medicina em Viena, lá pelo início do século passado, Moreno fazia alguns trabalhos com os meninos que perambulavam pelas ruas, contando-lhes estórias que eram dramatizadas [sem saber disso eu percorri na minha adolescência um caminho parecido]. Foram os primeiros teatros espontâneos, que mais tarde ganharam uma estrutura. Era uma forma de teatro, sem script, onde os atores eram apenas orientados quanto às características de seus personagens.

Aconteceu que havia uma atriz, a Bárbara, que desempenhava sempre papéis de "moça boazinha, angelical" (tipo a nossa "namoradinha do Brasil", que agora já não é tão jovem...). O George, um rapaz freqüentador do Teatro Espontâneo, apaixonou-se pela Bárbara. Depois de um certo tempo, casaram-se. Para surpresa de George, a Bárbara, em casa, não tinha nada de "boazinha". Muito pelo contrário, demonstrou seu péssimo humor e agressividade, até então contida. O George, indignado e sentindo-se lesado (como se a Bárbara fosse um artigo comprado), achando que tinha levado gato por lebre, foi reclamar com Moreno (como se ele fosse o responsável pela propaganda enganosa). Moreno teve, então, a grande idéia de sua vida: ao invés de colocar a Bárbara para fazer papéis de "boazinha", deu-lhe papéis opostos: de megera, prostituta etc. Através daquelas personagens, Bárbara pôde canalizar toda a raiva que tinha reprimido. Para surpresa e satisfação de George, na vida "real" passou a ser a doce e meiga Bárbara, por quem ele se apaixonara. Moreno descobriu, assim, o Teatro Terapêutico que deu origem ao atual Psicodrama.


Hipoteticamente, se C. G. Jung fosse convidado para fazer o processamento daquelas primeiras sessões de psicodrama, ele teria dito que Bárbara pôde entrar em contato com a sua "sombra", passando a reconhecê-la e integrá-la à sua personalidade.


Eu comecei a falar da espontaneidade e, deixando que ela fluísse, escrevi um artigo sobre a criação do Psicodrama, enriquecido por uma correlação com Jung, algo sobre o qual nunca havia antes pensado.

A espontaneidade é assim: vem da alma... Quando nos permitimos deixá-la fluir, ela vem à tona e nos traz pedras preciosas que nos falam verdades eternas.

Foi assim com Moreno, foi assim com Jung, foi assim com poetas e pessoas comuns. Foi assim comigo no início deste Blog!

Mas, ao mesmo tempo temerosa e envaidecida pela repercussão do Blog, comecei a ficar preocupada. Passei a querer agradar o leitor, passei a ficar com medo do julgamento do outro, passei a querer escrever coisas "mais sérias", mais sistematizadas, e... bloqueei o meu fluxo de espontaneidade.

Tudo isso para explicar que, ao contrário do que escrevi esta semana, volto ao meu estilo inicial: espontâneo, sem preocupação, apenas compromissado com a espontaneidade de minha alma!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Os sonhos nossos de cada noite....

"Era gostoso nadar naquela piscina. Eu ia até um pouco mais fundo, voltava e me segurava em uma barra que havia na sua beirada. Não era uma piscina comum. Era uma piscina em um navio, em alto mar. A água da piscina era proveniente da vasta água do mar."

Essa cena aconteceu em um de meus sonhos. A piscina simbolizava o meu inconsciente pessoal, interligado ao mar, que simbolizaria o inconsciente coletivo. O sonho me falava, entre outros conteúdos, da minha satisfação em "nadar" pelos meus conteúdos mais profundos. É um sonho que retrata o próprio processo dos sonhos.

O sonho é um acesso ao nosso inconsciente enquanto dormimos. Pesquisas já comprovaram o seu efeito terapêutico. Normalmente o sonho acontece na fase REM do sono. Pesquisadores observaram que, acordadas durante essa fase do sono e, consequentemente, impedidas de continuarem sonhando, pessoas submetidas a essa experiência apresentavam-se irritadas durante o estado de vigília.

Mesmo que não nos lembremos, sonhamos todas as noites, e isso já é terapêutico. No entanto, quando conseguimos nos lembrar do sonho, esse efeito é potencializado. Escrever o sonho, contá-lo para outra pessoa também aumenta o seu efeito terapêutico, o que poderá culminar com a sua compreensão.É possível entender, a princípio, um sonho, e ir ampliando posteriormente o seu significado. A linguagem do sonho é simbólica, não linear, não cartesiana. Seus múltiplos significados simbólicos se superpõem.

É comum a pergunta: "Sonhei com 'tal coisa' O que isso significa?". Interpretar dessa forma um sonho seria reduzir o seu conteúdo, correndo-se o risco, inclusive, de distorcer totalmente o seu significado. Essa abordagem é comum em publicações questionáveis, como revistas populares.

O ideal para a compreensão dos sonhos é a sua análise com um profissional. A análise considera a história da pessoa, o processo de análise, o contexto e os acontecimentos mais recentes, entre outros fatores. Ela fornece elementos para a compreensão dos sonhos, uma importante fonte de auto-conhecimento e orientação para o caminho a ser seguido na vida, a partir de decisões orientadas pelo Si-mesmo. Com certo tempo de análise, o analisando passa a compreender de forma autônoma o significado de seus sonhos. Constitui um processo também de aprendizagem.

Mas, na impossibilidade de submeter-se ao processo terapêutico - no qual, através da escuta terapêutica e de métodos apropriados, pode-se desvendar parte do significado onírico e integrar o conteúdo inconsciente - há a possibilidade, pelo menos em parte, de potencializar o efeito terapêutico dos sonhos. Escrever os sonhos, fazendo com eles um diário, já é um bom começo....

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

"NADA EM EXCESSO" *


Um homem caminhava por uma estrada, quando percebeu um outro homem caido. Como no tempo dessa história ele não tinha recebido nenhum e-mail dizendo do perigo de se tentar ajudar alguém caido na rua, ele parou e socorreu o homem ferido. Ficou sabendo que ele tinha sido assaltado. Felizmente, como naquele tempo também não existia armas de fogo, ele ainda estava vivo.

Como naquele tempo não existia mertiolate, nem gazes esterilizadas, ele simplesmente passou óleo em suas feridas (aliás, hoje já voltaram a usar óleo nas feridas novamente).

Como naquele tempo também não existia carro, muito menos ambulância do corpo de bombeiros, o homem "bom" deu uma carona para o homem ferido em seu animal. Naquele tempo não se sabia do perigo que é socorrer um ferido dessa forma.

Seguiram viagem. Chegaram já ao anoitecer na próxima cidade, onde passaram a noite em uma pousada. Como não tinha nenhum hospital por perto mantido por impostos para atender a todas as pessoas, o homem "bom" recomendou ao dono da pousada que cuidasse do ferido, deixando-lhe algum dinheiro.

O homem "bom" deve ter tomado tranqüilamente um saboroso café da manhã e continuado sua caminhada.

O personagem da parábola do Evangelho, chamado de Bom Samaritano não desviou o seu caminho para ajudar o outro. Ele continuou a sua caminhada, pois esse era o seu objetivo. Ele demonstrou que amava o próximo, mas, principalmente, amava a si mesmo.

Eu, como pago impostos para manter serviços de segurança e saúde pública, e sabendo do perigo que é, hoje em dia, tentar ajudar alguém "caido" na rua, prefiro exercitar a compaixão ligando para o 192.


* Famosa inscrição no Oráculo de Delfos: Meden Agan (Μηδεν Αγαν):"nada em excesso".

Gravura: Domenico Campagnola (1484-1550), pintor iItaliano.O Bom Samaritano, c. 1530, têmpera sobre painel, 62.9 x 86.4 cm. Lowe Art Museum, University of Miami.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Cada um carregue (somente) a sua “mochila”...


Apesar de considerá-lo um programa interessante, nunca fiz nem pretendo fazer o "Caminho de Santiago de Compostela”. Não tenho vontade de fazer a Jornada, simplesmente porque não me vejo andando tanto tempo com uma mochila nas costas. Mas, teoricamente, considero um programa interessante para quem deseja refletir sobre sua vida. Além dos aspectos da fé daqueles que o buscam, o "Caminho", ao tempo que proporciona a oportunidade de reflexão, obriga o peregrino a exercitar o seu corpo, evitando o risco de deprimir-se com o processo.

Hoje convido você para fazer uma experiência: Imagine que milhares de pessoas estão caminhando na mesma direção. Cada qual com sua mochila nas costas, contendo seus objetos pessoais. Imagine-se sendo um deles. Você vai caminhando e, olhando para o lado, percebe que a mochila de seu companheiro está muito pesada. O que você faria:

(a) Diria para ele lhe passar sua mochila, para você carregar as duas
(b) Ofereceria para carregar algumas coisas da mochila do outro
(c) Mostraria para ele a melhor forma de carregar a mochila
(d) Sugeriria para ele repensar a necessidade de carregar tanta coisa. Será que tudo seria mesmo necessário?

Pensou? Este é um teste onde não existe certo nem errado. Tudo é relativo, dependendo de cada situação. Mas, imagine agora que, ao invés de objetos pessoais, cada mochila contém: as tarefas, as responsabilidades, as preocupações, os sentimentos de culpa, os problemas de cada um. Qual seria, ou melhor, qual tem sido a sua atitude?

Este é um tema muito comum: Pessoas que carregam os problemas e as responsabilidades de outros. Os motivos que levam as pessoas a agirem dessa forma são muitos. A maioria deles revestidos do sentimento e desejo de mostrar-se como uma pessoa "boa", que "ama" o outro. Mas, na realidade, é mais um "quero parecer 'bom' para ser amado". E nessa busca, acaba-se complementando de forma não saudável o outro, pois, "já que fazem por mim, não preciso fazer por mim mesmo". Sem a oportunidade de assumir as próprias responsabilidades, o outro deixa de crescer e assumir a sua própria vida. Conseqüentemente, ao querer fazer pelo outro o que ele mesmo deveria fazer, eu impeço o seu crescimento, não lhe faço bem. Ou seja, querendo ser "bom", acabo sendo "mau". Não somente para o outro, mas também para mim mesmo, pois assim como carregar muito peso nas costas faz mal à coluna, carregar a responsabilidade do outro faz mal à alma, e adoece fisicamente também.

Estar com outro é diferente de fazer pelo outro, ou responsabilizar-se pelo outro.

Conheço pessoas que fizeram o Caminho de Santiago. Pelo que sei, é comum ao final do primeiro dia de caminhada elas reverem suas mochilas, avaliando e selecionando seu conteúdo. Esse, a meu ver, é o exercício mais importante de todo o processo: deixar para trás aquilo que você não precisa carregar.


FOTO DE MARCIO GAZIRO NO CAMINHO DE SANTIAGO. Endereço desta e de outras fotos do Caminho de Santiago

sábado, 6 de outubro de 2007

“TUDO AQUILO SOU EU MESMO” - Edith Piaf - Um Hino ao Amor

“Non, Je Ne Regrette Rien
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est égal”

[Não, Eu Não Lamento Nada
Não, nada de nada
Não, eu não lamento nada
Nem o bem que me fez
Nem a dor, tudo aquilo
Sou eu mesmo](1)

Com a canção Non, Je Ne Regrette Rien, Edith Piaf coroa sua carreira e sua vida. O filme PIAF – Um hino ao Amor, em pré-estréia esta semana, retrata o sofrimento e a glória da cantora francesa que teve sua vida marcada desde o início por atribulações.

Edith era filha de artistas de rua, sua mãe, cantora frustrada, abandonou-a com a avó materna para tentar carreira artística. Na época seu pai, contorcionista, havia sido convocado para a guerra. Na volta, vendo o estado lastimável da filha, leva-a à Normandia deixando-a aos cuidados da avó paterna, dona de um bordel. Edith foi adotada pelas pensionistas, que lhe deram o negado amor materno. Durante alguns anos de sua infância esteve cega, devido a uma ceratite. Sua cura é atribuída à Santa Teresa de Lisieux, cuja presença foi sentida pela cantora durante toda a sua vida. Era a mãe celeste que a protegia. Aos dez anos, novamente com o pai, que a incentiva a fazer "algo" para agradar o público da rua para ganhar trocados para sua sobrevivência, abre a boca e os pulmões entoando a Marselhesa, hino da Revolução e da França, e recebe os primeiros dos incontáveis aplausos de sua vida. (2)

Assistindo ao filme, não tenho como não voltar ao tema que mais tem surgido neste Blog, o princípio da Psicologia Arquetípica, estudada por analistas junguianos encabeçados por James Hillman: A nossa alma percorre um caminho na vida, muitas vezes de sofrimento. Desafiando as teorias psicológicas tradicionais, Hillman vê o outro lado da história onde todos os fatos contribuíram para a realização do seu propósito. Hillman cita em O código do Ser (3):

1)“Cada pessoa entra no mundo tendo sido chamada. A idéia vem de Platão, de seu 'Mito de Er' no final de sua obra mais conhecida, A República (...) A alma de cada um de nós recebe um daimon único, antes de nascer, que escolhe uma imagem ou padrão a ser vivido na terra. (...) precisamos prestar atenção na infância a fim de captar os primeiros sinais do daimon em ação, entender suas intenções e não bloqueá-lo. As demais sugestões práticas vem logo a seguir: a) reconhecer o chamado como o fato primordial da existência humana; b) alinhar a vida com esse chamado; c) ter o bom senso de perceber que acidentes, inclusive a dor no coração e os choques naturais que são herança da carne, pertencem ao padrão da imagem, lhe são necessários e ajudam a realizá-la"
2) Segundo Alfred Adler,em sua Teoria da Compensação, “desafios de doenças, defeitos de nascença, pobreza ou outras circunstâncias desfavoráveis na juventude estimulam as mais altas realizações. Todo mundo (...) compensa a fraqueza com a força, transformando deficiências em capacidade e controle".

O filme mostra uma Edith que seguia sua intuição. Ela "sabia" que seria uma grande cantora. Será que Edith Giovanna Gassion teria se tornado Edith Piaf, o pardalzinho da França, se tivesse nascido em berço de ouro, com pais que lhe dispensassem todo o cuidado e carinho?

Video de Edith Piaf cantando Non, Je Ne Regrette Rien


(1) Letra completa "Non, je ne regrette rien" (de Michel Vaucaire e Charles Dumont)
(2) Biografia de Edith Piaf
(3) Hillman, James. O Código do Ser: Uma busca do caráter e da vocação pessoal. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Veja Crítica do filme no Blog Café na Política

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A TRANSCENDÊNCIA DO FEMININO


Hoje faz 26 anos que me tornei mãe de uma Mulher!
Já tinha um filho. Através e com ele, pude viver a maternidade inicial, com as inseguranças de mãe de primeira viagem. Com seu desenvolvimento, tornando-se um Homem, desenvolvi em mim atributos antes desconhecidos e desejados. O filho homem espelha o animus introvertido. Como uma extensão do meu masculino, fertilizo a Terra através de suas ousadas e viris realizações.
Ser mãe de uma Mulher é igualmente divino, contudo diferente. O feminino em mim se multiplica e transcende. Espelha aquilo de mim que já sei, mas não via. E ao ver desabrochar tão linda flor, integro aquilo que de mim é tão belo, a extensão do meu amor!

Minha homenagem à Ednea

terça-feira, 2 de outubro de 2007

DECRETO ACABA COM INDECISÃO DE NAMORAR

De hoje em diante no DF ninguém pode "estar ficando" com outro. Por decreto, o Governador do Distrito Federal demitiu o gerúndio do DF e, por tabela, pôs fim na indecisão dos homens e mulheres, jovens e maduros, que ao invés de assumirem um namoro, prolongam a não tão nova modalidade de relacionamento que é o "ficar".

A princípio, "ficar" significava que numa festa, por exemplo, o casal, principalmente de adolescentes, se encontrava, trocava uns beijos e uns amassos e só. Os "ficantes" tinham o direito de "ficar" com outros na mesma festa, embora as meninas que "ficavam" com outro "ficante" já ficavam vistas como meninas "ficáveis" por todos. Os meninos ficavam vistos como os poderosos, admirados pelos amigos, que conseguiam "ficar" com mais meninas. Começaram a ter as competições de quem ficava com mais meninas por noite. As meninas não fizeram por menos, viraram o jogo e foram à luta. Passaram a ser "periguetes", disputando quem atraía e "pegava" mais meninos, os seus "peguetes". Intimidados, os meninos mais tímidos passam a "arrozar": Arroz é acompanhamento de prato principal, "arrozar" é ficar acompanhando, esperando a hora de conseguir ficar com a menina.

A meu ver, essa modalidade de relacionamento, sem compromisso, a princípio, é como uma brincadeira de aprender a namorar. Como no meu tempo, em que se brincava de "pera, uva ou maçã". Uma criança ficava de olhos fechados e outro ia dizendo: é esse? apontando sucessivamente. Até que, após a escolha com quem iria acontecer, se escolhia a modalidade: Pera, era abraço, maçã, beijo no rosto e uva beijo na boca, o que na época era apenas uma bitoquinha, o atual "selinho".

Até aí, enquanto o "ficar" era um exercício da aprendizagem de escolha, era inocente, e continua sendo para muitos adolescentes. A questão é que os "adultecentes" gostaram da brincadeira e passaram também a "ficar". Só que o "ficar" do "adultescente" não fica só na festinha ou na boate, ele se prolonga na noite e termina na cama. Aliás, termina mesmo na despedida, às vezes sem nem troca de telefone.

Aí começa a angústia das mulheres. Umas preferem nem dar mais o telefone, para evitar a angústia da expectativa frustrada de não receber nem um telefonema. Esse é um tipo de relacionamento, sexo casual. Como terapeuta, mantenho uma postura amoral, sem juízo de valor. É uma escolha pessoal de cada um, a forma de relacionamento afetivo e sexual.

Mas a situação a que me refiro hoje é diferente. A tal história de "ficar" virou "estar ficando". Ou seja, o casal de ficantes passa a se encontrar outras vezes, até que resolvem assumir que estão namorando. Decisão que para muitos até merece um ritual com a troca de alianças de prata na mão direita, a aliança de namoro. Aí surge um complicador: Muitos arrastam por muito tempo o "estar ficando", criando uma confusão na cabeça, principalmente da mulher: Quando o "estar ficando" passa a ser algo mais sério? Algumas já me disseram que é quando o homem tem coragem de ir com ela ao shopping, pois é um lugar público e ele perdeu o medo de ser visto acompanhado. Mas esse critério fica invalidado, pois muitos homens, mesmo querendo assumir um suposto namoro, compreensivelmente, detestam ir com mulheres aos shoppings. Homens me relatam surpresos que, ao pararem de chamar as suas, para eles "ficantes", para sair, elas se indignaram e queriam "discutir a relação". - Que relação? perguntam eles, nós não estamos namorando!

Bom, de hoje em diante, o Governador do Distrito Federal resolveu por decreto essa questão: É proibido usar o gerúndio! OU "FICA" OU NAMORA. NÃO PODE MAIS "ESTAR FICANDO".

Por hoje é só. E, se me permite o governador, eu vou ficando por aqui!

Dulcinéa Cassis